A 18 de Janeiro de 1975, à data da sua chegada a Lisboa, Frank Carlucci tinha já cimentada uma carreira na inteligência, com uma miríade de operações encobertas por três continentes. O seu histórico data à República Democrática do Congo, de onde surgiram alegações de que tinha conspirado com agentes americanos e belgas no assassinato de Lumumba em 1961; ao Brasil, onde acompanhou de perto as tensões políticas que levaram ao Golpe Militar de 1964; e em Zanzibar, onde foi acusado de conspirar contra a união de Zanzibar e da Tanganica em 1964, o que conduziu à sua expulsão em 1965. A lição que trazia para a contra-revolução portuguesa era simples: limpar os comunistas através de ajuda monetária aos partidos moderados, especialmente a Soares.
O apoio da Internacional Socialista
Contudo, a ajuda devia ser encoberta e, se possível, facilmente negada, visto que financiar directamente Mário Soares transformá-lo-ia numa marioneta da CIA aos olhos de todos, estimulando a narrativa de que este era um autêntico «Kerensky» português. A sua solução foi canalizar os fundos através de intermediários europeus, via a Internacional Socialista (IS) e o partido social-democrata alemão (SPD), por via da Fundação Friedrich Ebert. Segundo a investigação de Bernardino Tomás e Tiago Moreira de Sá, e com acordos envolvendo Willy Brandt – chanceler da República Federal da Alemanha (RFA) – o PS de Mário Soares chegou a receber entre dois e dez milhões de dólares por mês.
A rede de Carlucci
Enquanto o dinheiro chegava a Lisboa através de um canal diplomático respeitável, uma outra rede, muitos menos apresentável, operava em paralelo. A Aginter Press, uma pseudo-agência de notícias fundada em 1966 pelo antigo oficial da Organisation Armée Secrète (OAS) Yves Guérin-Sérac, «Morgan», funcionava há anos como um depósito de antigos oficiais da PIDE que, após a Revolução, o ELP viria a acolher.
Mais tarde, a Comissão Parlamentar de Inquérito ao Terrorismo em Itália, também conhecida por Comissão Stragi, presidida pelo senador Giovanni Pellegrino, veio a concluir que a Aginter Press, em colaboração com a PIDE e a CIA, de onde recebia a sua principal fonte de financiamento, servia de fachada para um centro de informações de extrema-direita da Europa Ocidental.
«Segundo a investigação de Bernardino Tomás e Tiago Moreira de Sá, e com acordos envolvendo Willy Brandt – chanceler da República Federal da Alemanha (RFA) – o PS de Mário Soares chegou a receber entre dois e dez milhões de dólares por mês.»
Guérin-Sérac, contudo, não trabalhava sozinho. Jay Salby, o «Castor», era um agente ligado à CIA que havia entrado em Portugal sob identidade falsa em 1973. Salby era um membro das infames reuniões secretas do ELP e do Movimento Democrático de Libertação de Portugal (MDLP), detectadas pelos serviços de informações militares portuguesas em Verín e em Salamanca, já em 1975. Em Lisboa, John Morgan, agente da CIA, terá definido internamente uma «solução chilena» para Portugal, com o intuito de levar a cabo uma campanha mediática contra a esquerda radical, auxiliando o regresso de Spínola ao poder, e a secessão Açoriana, que veio a fomentar a motivação de movimentos separatistas açorianos, como a Frente de Libertação dos Açores (FLA) e o Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano (MAPA).
O dinheiro que financiava a compra de armas seguia uma rota semelhante. O financiamento mais encoberto pertence a Otto Skorzeny, antigo oficial da SS nazi que participou na Kristallnacht de 1938 e liderou a equipa de paraquedistas alemães que resgataram Benito Mussolini em 1943. Skorzeny estava diretamente envolvido nos negócios de armas para o ELP, operando a partir de Madrid. Ora, este mecanismo de financiamento serviu como mais uma peça na máquina de operações terroristas stay-behind que operaram durante a Guerra Fria.
Limitações do papel da CIA
Contudo, nem tudo pode ser atribuído a Washington. A grande parte dos recursos que operaram durante a contra-revolução, é de cariz doméstico e ibérico. O MDLP obteve o financiamento essencial à sua sobrevivência a partir de vários meios: pela liderança exilada do Partido do Progresso (PP), pelo Banco Espírito Santo (BES) - cujo diretor autorizou pagamentos à «maioria silenciosa» e a outros partidos de direita – e pelas grandes famílias dos Champalimaud, Boullosa e Queiroz Pereira.
A Espanha franquista forneceu o terreno que estas organizações precisavam. Campos de treino, armazenamento de armas e uma comunidade de 80 mil a 100 mil saneados portugueses espalhados por Madrid, Vigo e Salamanca, com o apoio logístico directo da polícia espanhola e da secção feminina do partido fascista espanhol Falange. É assim, contudo, possível afirmar que a presença da CIA no PREC foi uma força importante entre muitas – essencial a conduzir os eventos até ao 25 de Novembro, mas não única.
O que sobressai é a coerência desta influência sob eventos semelhantes espalhados pela Europa. O financiamento, a coordenação e a logística operacional de Washington, pavimentaram o caminho para o fomento da rede paramilitar em Portugal que Espanha favoreceu, é coerente com o aumento de tensões e a disseminação de violência relacionado a movimentos terroristas. Mais de meio século mais tarde, é também o que explica a lentidão ao condenar mercenários que incitaram à violência que conduziu Portugal ao precipício da guerra civil durante o Verão Quente de 1975.
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