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|Análise

O «lado B» da Revolução (1.ª parte)

1975: Quando Washington escolheu os seus portugueses

Após o 25 de Abril de 1974, receoso de um coup comunista em Portugal, a Casa Branca de Gerald Ford decidiu, já em 1975, financiar secretamente a contra-revolução portuguesa.

Créditos / loc.gov

Na madrugada do 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armadas (MFA) pôs fim aos longos 48 anos de ditadura numa questão de horas. Enquanto a narrativa que ficou marcada na memória dos cidadãos foi a de uma revolução pacífica, uma outra versão surgiu após a Revolução. A queda do regime e o desmantelamento da estrutura tentacular de vigilância da PIDE/DGS deixou um vácuo geopolítico na Europa do Sul que Washington estava decidido a preencher, receoso de um surto comunista que se alastraria pela Europa do Sul. 

O paradoxo da Détente

A Revolução portuguesa eclodiu num momento particularmente sensível da Guerra Fria. Após quase duas décadas em que o mundo se viu à beira de um desastre nuclear, desde o Bloqueio de Berlim à Crise dos Mísseis de Cuba em 1962, Washington e Moscovo foram coagidos a chegar a um subentendimento. Os esforços para diminuir confrontos directos, que aceleraram tensões decisivas, deram lugar a uma política de apaziguamento, a Détente. Neste jogo, a balança tinha de ser cuidadosamente equilibrada, e a situação portuguesa era uma peça que requeria especial atenção: enquanto membro fundador da Organização do Tratado do Atlântico do Norte (OTAN), o seu organismo principal de vigilância acabava de ser desmantelado, enquanto os comunistas ganhavam influência no terreno dia após dia.  

E o PCP de Álvaro Cunhal, em plena Guerra Fria, não era um comunismo semelhante ao da Europa Ocidental. Enquanto os partidos comunistas da Itália e da Espanha se afastavam de Moscovo rumo ao chamado «Eurocomunismo», como o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger o apelidou, Cunhal mantinha a sua lealdade à matriz marxista-leninista. Para a Casa Branca, isto transformava o PCP num adversário político de força existencial, que requeria acção imediata, visto que era tido como um proxy soviético na Aliança Atlântica. Este medo foi o que veio a isolar Portugal dos Projectos Nucleares da OTAN. 

Por outro lado, Leonid Brejnev mantinha como prioridade a proteção da Détente. Mesmo que Moscovo tenha continuado a ser solidário com o PCP, o PCUS deixou claro que não interviria no eventual acontecimento de uma guerra civil em Portugal. Esta contenção soviética traduziu-se, em termos práticos, no convite que Washington queria para entrar no terreno com um plano de acção: não com tropas, mas com os fundos e influência que os partidos moderados precisavam, sendo canalizados através de proxies domésticos e europeus.

Os precedentes do Chile

Ninguém em Washington discutia Portugal sem antes recordar-se do cenário chileno. Um ano antes, a CIA gastara milhões para desestabilizar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, até ao golpe de Pinochet, em Setembro de 1973. Segundo memorandos hoje desclassificados, altos cargos de funcionários norte-americanos debatiam abertamente se Portugal precisaria da sua versão de uma «solução chilena». 

Num memorando de conversa com o presidente Gerald Ford, datado a 20 de Janeiro de 1975, Henry Kissinger, impondo um cenário hipotético da saída de Soares da cena política, avisa que «os comunistas serão a única força organizada e, ou tomam o poder deles, ou toma-o o exército», concluindo que «devíamos avançar com um plano de covert action, mas pode vir a público». A resposta que Ford dá revela a tese do apoio americano à contra-revolução: «Façamo-lo, quer isso venha a público ou não.» Já em 1970, a propósito do Chile, Kissinger alertara para o risco de um «efeito de modelo insidioso». Aplicado a Portugal, este medo obtinha um peso adicional: além de membro da OTAN, o país continuava a ceder aos EUA o uso da Base das Lajes, nos Açores – o que, aos olhos de Washington, não estava em questão meter em risco. 

O colapso da PIDE/DGS

Em Portugal, o vácuo surgiu com o fim da Polícia Internacional e de Defesa do Estado, rebaptizada em 1969 como Direcção-Geral de Segurança (PIDE/DGS). Durante décadas, este aparelho funcionara como o principal mecanismo de vigilância e contenção anticomunista da CIA em solo português, com a vantagem de lhe garantir uma negação plausível geográfica aos acontecimentos, isto é, um afastamento geográfico. O seu desmantelamento, logo após o 25 de Abril, cortou estes tentáculos. 

Entre os quadros da PIDE que fugiram para Espanha no pós-Revolução, estava Agostinho Barbieri Cardoso, antigo subdirector da PIDE. Em Madrid, a 6 de Janeiro de 1975, Barbieri Cardoso funda o Exército de Libertação Português (ELP) – o que se traduziu no primeiro tijolo que sustentaria a rede paramilitar de extrema-direita.  

Simultaneamente, o MFA radicalizava-se. De acordo com um Memorando secreto do conselheiro de Kissinger, Helmut Sonnenfeldt, intitulado «Portugal: cursos de acção», é descrito um país a mover-se «claramente na direcção de uma ditadura militar de esquerda», na sequência do coup d’état falhado de Spínola, a 11 de Março. À medida que o MFA colocava quadros mais radicais no recém-criado Conselho Superior da Revolução (CSR), a própria CIA concluía, já em 1975, que Portugal não estava numa transição para a democracia, mas sim «sob crescente influência dos comunistas», encaminhando-se para «um regime comunista, orientado para o bloco soviético». 

Era este o cenário português: um vácuo de poder, e um receio americano de um dominó comunista sob a Europa Ocidental que conduziu o olhar de Washington a Lisboa e levou à nomeação do embaixador norte-americano Frank Carlucci, após um histórico já bem preenchido de acções encobertas.  

«O "lado B" da Revolução» é uma série de três artigos assinada por Matilde Nobre, «sobre uma democracia que nunca ajustou contas com quem tentou impedir o seu nascimento».

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