|Forte de Peniche

Um dia diferente em Peniche

Há 45 anos foram libertados os últimos presos políticos do fascismo. Quando olhamos para trás vemos mais longe, os que não chegaram, estavam então nas nossas vozes e continuam a estar hoje.

O desfile dos resistentes na entrada da fortaleza de Peniche, 27 de Abrilde 2019
O desfile dos resistentes na entrada da fortaleza de Peniche, 27 de Abrilde 2019CréditosPedro Soares

Dia de memória, dia também de presente e futuro. Porque quando se perde a memória não se vive bem o presente nem se constrói devidamente o futuro. Dia de seriedade, dia também de alegria. Dia de novos e velhos – e velhos são os trapos, quais velhos.

Peniche cheio de gente, «parece um dia de visita», comenta alguém, pois parece, um daqueles dias em que as famílias se encontravam para as visitas e a primeira alegria, antes de ver o marido ou o irmão ou o pai presos, era ver os amigos e as amigas, os companheiros e as companheiras, os e as camaradas, o calor fraterno e animoso de quem está ali porque não se rende, nem os que estão lá dentro se rendem, «António, o lugar dos fortes é a fortaleza», e íamos nós render-nos, disparate.

No centro da fotografia podem ver-se, da esquerda para a direita, Fernando Rosas, Graça Fonseca, Domingos Abrantes e Jerónimo de Sousa. CréditosPedro Soares /

«Parece um dia de visita», dir-se-ia, mas acaba aí a semelhança, porque a alegria está hoje em todos, liberdade sem receios de ouvidos bufos, sem inimigos à espreita, gente, muita gente, enquanto se ouvem as vozes e chegam os passos dos ex-presos e outros resistentes que se juntaram para uma marcha pelas ruas de Peniche até à velha fortaleza, hoje engalanada para receber livres aqueles que nela algum dia foram confinados, o pano da URAP1 à frente, «25 de Abril sempre. Fascismo nunca mais», marcha de luta continuada e presente, também por este precioso espaço de memória de que há dois dias foi inaugurada a primeira fase, brevíssimo mas intenso primeiro passo que se quer venha a ser perene.

Nas portas já não estão soldados de espingarda a tiracolo ou pistola-metralhadora aperrada em dias de luta, «queremos vê-los», «não há visitas», «queremos vê-los!», nem a sala onde se desfazem as encomendas das famílias para os presos, revista lenta e minuciosa, os olhares hostis de parte a parte, são «eles» a mexer nas «nossas» coisas, há eles e nós como em todas as lutas, e nas lutas contra a opressão há mais: há «os homens e os outros», para não dizer os homens e os cães, sabem do que falo.

Em vez de personagens sinistros somos acolhidos com a maior simpatia pela equipa da DGPC2 responsável pelo acompanhamento dos trabalhos do novo museu, sorrisos e centenas de cravos vermelhos oferecidos aos visitantes, não chegaram, foram muitos os que hoje quiseram vir.

Marcha dos resistentes é recebida na fortaleza de Peniche com os coros Ceifeiras de Pias e Amigos do Barreiro, em Peniche, a 27 de Abril de 2019. CréditosPedro Soares /

Passa das duas da tarde. A receber a marcha dos resistentes, já dentro da fortaleza, junto ao memorial, o coro das Ceifeiras de Pias, o cante alentejano na voz das mulheres como símbolo de uma das mais importantes conquistas da revolução, a participação das mulheres na vida pública, e tanto que há ainda para fazer, e as gargantas do coro Amigos do Barreiro, e foi a Grândola cantada por todos os presentes, os que agora chegavam e os que haviam participado na primeira visita guiada do dia, começada ainda de manhã.

Gisela João foi a primeira intérprete a subir ao palco na fortaleza de Peniche, a 27 de Abril de 2019. CréditosPedro Soares /

No pátio, perto da capela de Santa Bárbara, um palco, e frente a ele passaram milhares de pessoas, ao longo da tarde deste sábado, 27 de Abril. Perante as muitas centenas de ouvintes a cada momento musical e poético, estiveram os cantores Gisela João e Fernando Tordo, a poesia declamada por Luísa Ortigoso, e de novo os coros Amigos do Barreiro e Ceifeiras de Pias, aos quais se juntou o coro Fernando Lopes-Graça, para encerrar o espectáculo antes da segunda visita guiada do dia, a começar às seis horas.

Atrás das primeiras filas, muitas centenas de pessoas assistiram em cada momento, às intervenções e ao programa cultural na fortaleza de Peniche, a 27 de Abril de 2019. CréditosPedro Soares /

Há 45 anos foram libertados os últimos presos políticos do fascismo. Em 27 de Abril de 1974 houve um último preso, como em tudo há um último e um primeiro, mas não é isso que interessa, interessa que foram os últimos, no plural, porque também no colectivo e no plural se fez a resistência, resistência de muitos anos, até os mortos vão a nosso lado, e continuam ao nosso lado, hoje, quando olhamos 45 anos para trás vemos mais longe, vemos todos os que não chegaram, estavam então nas nossas vozes e continuam a estar hoje, fascismo nunca mais, 25 de Abril sempre.

 

  • 1. União dos Resistentes e Antifascistas Portugueses.
  • 2. Direcção-Geral do Património Cultural.

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