«Percebia-se, desde manhãzinha cedo, no ensaio de som, que as questões técnicas e práticas do palco Free Now n’O Sol da Caparica estavam muito aquém do que é necessário para um festival com esta dimensão», denunciou, nas suas redes sociais, o cantor Miguel Ângelo. O músico acabou por só conseguir tocar duas canções antes de ser forçado a terminar o seu concerto, no dia 11 de Agosto.
Com três horas de atraso acumuladas, o The Legendary Tigerman acabou por ter de cancelar a sua actuação nesse dia: chegada a sua vez, o festival já tinha ultrapassado o limite horário para continuar em funcionamento.
Do primeiro ao último dia, pouco mudou. Durante a sua actuação, os Quatro e Meia não pouparam nas críticas dirigidas à organização do festival (parceria entre a Câmara Municipal de Almada (CMA) e a promotora Grupo Chiado): «esta noite estamos aqui em cima do palco por vocês porque pagaram bilhetes. Se fosse pela falta de respeito com que vários músicos, durante este festival, foram tratados, e muito do público foi tratado, não vínhamos cá mais uma única vez com esta organização».
Os Karetus, em declarações à NiT, denunciaram as parcas condições de segurança em alguns dos palcos do Sol da Caparica: «Percebi que as baias de segurança não eram as anti-pânico, que para o número de pessoas era muito perigoso. O piso em si estava em risco de ceder, era um piso de madeira com pontas de ferro, coisas perigosíssimas».
As denúncias dos artistas só foram amplificadas nas redes sociais e em muitos meios de comunicação pelaos insultos e ameaças que, como se não bastasse, elementos da organização do festival dirigiram aos músicos que assumiram o seu desagrado com as condições existentes.
«A crescente transformação do festival num mero negócio compromete os seus objectivos iniciais»
É «inadmissível o absoluto desrespeito pelos artistas, técnicos e público do Festival Sol da Caparica demonstrado pela Câmara Municipal de Almada, a promotora do evento, e pela empresa responsável a quem a Câmara, de presidência PS, entregou a produção», afirma, em comunicado, a Célula dos Trabalhadores da Cultura de Almada do PCP.
O festival Sol da Caparica foi inaugurado em 2014, durante a presidência da CDU na CMA. Tinha, na sua origem, a ambição de ser «um dos grandes espaços de encontro da música portuguesa e lusófona, realizado em condições técnicas de excelência e a preços populares».
Esse projecto foi travado em 2018, com a eleição de Inês de Medeiros. A partir dessa data, o executivo PS (com o apoio do PSD) aumentou o preço do passe geral em perto de 300%. Um passe que tinha o valor de 35 euros já chegou, em 2022, aos 115 euros.
A célula dos trabalhadores comunistas das artes «lamenta igualmente a decisão de retirar da programação um dia inteiro dedicado à infância, a um preço altamente acessível aos pais».
O silêncio a que se remeteu a CMA demonstra a sua cumplicidade «com as ignóbeis respostas da empresa por si contratada», que promoveu «um ambiente de intimidação inaceitável, com declarações insultuosas, inapropriadas e desrespeitosas», existindo, inclusive, «relatos de artistas ameaçados fisicamente».
A CMA tem de «assumir as suas responsabilidades» e corrijir o rumo «mercantilista» que imprimiu ao Sol da Caparica, defendem os comunistas, «para que este volte a ser um espaço em que artistas, técnicos e público voltem a sentir-se valorizados».