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|Ambiente

População de Covas do Barroso recusa viver ao lado de uma mina

Esta quarta-feira foi o segundo dia de protesto contra a exploração de lítio em Covas do Barroso, Boticas, e os trabalhos de prospecção da Savannah Resources, que prevê iniciar a construção da mina em 2027.

Créditos Pedro Sarmento Costa / Agência Lusa

«É o nosso modo de vida que está em causa. E nós temos toda a legitimidade para não aceitar este projecto. Não queremos, não concordamos, ninguém nos pode obrigar à força a aceitar uma coisa que não queremos», afirmou hoje à agência Lusa o presidente da Associação Unidos em Defesa de Covas do Barroso (UDCB), Nélson Gomes.

Esta manhã, cerca de 40 pessoas voltaram a concentrar-se junto ao mesmo local de prospecção e onde estão máquinas da Savannah, em terrenos baldios, abrangidos pela servidão administrativa concedida pelo Governo em Maio. Contactada pela Lusa, fonte da empresa disse que «não estavam previstos trabalhos no local do protesto, nem terça-feira nem hoje» e que os «trabalhos no terreno seguem um calendário próprio, definido unicamente pela Savannah, dentro do respeito pela servidão administrativa concedida pelo Estado Português».

A servidão administrativa autorizada pelo Governo permite à Savannah aceder a terrenos sobre os quais, segundo os que contestam o projecto mineiro, «a comunidade mantém direitos e usos colectivos, contornando a recusa local em autorizar os trabalhos».

A contestação à mina é feita há oito anos e já a 9 de Outubro a associação interrompeu os trabalhos da empresa, com a GNR a identificar 27 opositores à mina de lítio. «É claro que nos preocupa conviver com uma mina aqui às portas de casa. É o barulho, é o ruído, é toda esta destruição cá nas florestas, nos terrenos agrícolas», referiu Nélson Gomes, que sublinhou que a exploração mineira «é das actividades que mais impactos têm, quer a nível mundial, social e ambiental».

«Cada vez mais, nós neste momento estamos quase no mês de Novembro, que já era para ter chovido bastante e continuamos num período de seca. Estamos praticamente há seis meses sem chover, quer dizer, uma região que era abundante em água e neste momento começa a escassear a água», referiu.

Adiantando anda que, como a exploração mineira precisa de uma quantidade enorme de água, é «uma das preocupações saber onde é que eles vão buscar a água», porque «este é o recurso mais importante que há».

Hoje é o segundo dia consecutivo de protesto e, segundo o responsável, «é para continuar». «Estamos aqui para isto, é um projecto com o qual não concordámos. Dissemos que íamos lutar até quando pudermos para que este projecto não avance», frisou.

Recorde-se que esta luta da comunidade de Covas do Barroso já chegou ao cinema, pela mão do realizador Paulo Carneiro. 

O projecto mineiro foi viabilizado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), com a emissão de uma Declaração de Impacte Ambiental (DIA) favorável condicionada em 2023. Em Fevereiro desse ano, o Partido Ecologista Os Verdes (PEV) alertava para as consequências da mineração em Montalegre, designadamente «uma desflorestação massiva, a inevitabilidade de contaminação e delapidação dos recursos hídricos, a irreversibilidade da perda de habitats e da biodiversidade, colocando em causa a conservação e protecção do Lobo-Ibérico».

No passado dia 19 de Outubro, no Parlamento Europeu, o deputado João Oliveira apelou à comissária para o Ambiente, Resiliência Hídrica e Economia Circular Competitiva, Jessika Roswall, que interviesse para travar o processo de extracção do lítio em Covas do Barroso. A situação que se vive em Covas do Barroso, denunciou o eleito, «é exemplificativa do desastre para as populações e para os Estados da política que retira aos Estados‑membros o controlo sobre as matérias‑primas críticas para as entregar à União Europeia e retira a capacidade de intervenção dos Estados para entregar as riquezas dos países às multinacionais.

A empresa Savannah Resources pretende iniciar a construção em 2027 e alcançar a primeira produção em 2028.

Com agência Lusa

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