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Linha Circular: as pessoas vão demorar «muito mais» a chegar ao centro da cidade

O AbrilAbril esteve à conversa com Jorge Alves, técnico do Metropolitano de Lisboa e vereador substituto do PCP na Câmara de Lisboa, sobre a nova Linha Circular e as suas consequências para a cidade.

Para os peticionários, o Metro deixará de ser «uma opção atractiva» para os 18,7 milhões de entradas e saídas de passageiros que se registaram em 2017 nas estações da linha Amarela a norte do Campo Grande
Jorge Alves alertou que a linha circular tem «elementos preocupantes» para os trabalhadores Créditos / yelp

Arrancaram as obras de construção da nova Linha Circular do Metropolitano de Lisboa.

A Linha Verde vai substituir a maior parte daquela que é hoje a Linha Amarela, desde a estação do Campo Grande ao Rato, que se ligará ao Cais do Sodré através da criação de duas novas estações, Estrela e Santos. A Linha Amarela passará a consistir apenas no trajecto entre Telheiras e Odivelas, perdendo o contacto que tinha com as linhas Azul e Vermelha, sendo o Campo Grande o único ponto de transbordo.

O processo vem-se arrastando há vários anos, com maior ou menor determinação, e um envergonhado apoio do BE, a nível local, estimando-se um custo de cerca de 210 milhões de euros e conclusão em 2024.

Jorge Alves é candidato pela CDU à Câmara Municipal de Lisboa e à presidência da Junta de Freguesia do Parque das Nações

Os planos de expansão da Linha Vermelha para Alcântara foram, para já, relegados para segundo plano, tal como foi o prolongamento para Sacavém. Já no caso da ligação do metro a Loures, uma antiga reivindicação deste concelho, deverá estar concluída em 2025, por metro de superfície, a partir da estação de Odivelas.

No Orçamento do Estado de 2020 foram aprovadas duas propostas (PCP e PAN) para suspender os trabalhos de construção desta linha, sempre com os votos contra do PS e a abstenção da Iniciativa Liberal (o CDS-PP absteve-se na proposta do PAN). O certo é que, para o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, as propostas não passaram de «recomendações políticas» e a Linha Circular está a avançar.

O que vai mudar para as pessoas que, vivendo ou trabalhando na cidade, usam estas linhas do Metro diariamente?

O modelo de funcionamento de um modo de transporte como o Metro assenta em três factores: segurança, rapidez e conforto. Qualquer medida que não respeite, ou contrarie, estes princípios acaba por pôr em causa a confiança dos utentes e, como consequência, por afastá-los da utilização deste importante meio de transporte público.

Deste modo, qualquer plano de expansão de uma rede de metro terá de ter como objectivo central chegar o mais perto possível de grandes aglomerados populacionais e garantir aos novos utentes as condições para que passem a utilizar este transporte público, neste caso não poluente, em detrimento do transporte individual

«Não foram estudados os possíveis impactos humanos, para os trabalhadores e os utentes, de uma linha com estas características.»

Ora, a Linha Circular, que está em construção, não só não chega mais perto de aglomerados populacionais importantes dentro da cidade ou dos seus concelhos limítrofes, como seria o caso de Alcântara, Ajuda e Belém, ou de Sacavém e Portela, ou Algés e Miraflores, como passa a obrigar muitos milhares de utentes que usam o serviço do Metro a fazer um transbordo suplementar.

Só para se ter uma noção do impacto, quem vem de Odivelas, usando a Linha Amarela, consegue chegar em 20 minutos ao centro da cidade. Com a nova Linha Circular este tempo aumenta, no mínimo, mais dez minutos, com a agravante de termos milhares de pessoas, sobretudo à hora de ponta, a saírem de um comboio e de uma linha, a deslocarem-se para uma outra, e apanharem um novo comboio que, naturalmente, já tem lá dentro outros milhares de pessoas.

Sendo muito claro, o que vai acontecer às pessoas de Telheiras, da zona Norte da cidade, de Odivelas e de Loures, no futuro, é que demorarão muito mais tempo a chegar ao centro da cidade e terão viagens menos cómodas.

Apesar das consequências para os utentes, e da oposição no Município e na Assembleia da República, o PS insiste...

O PS tem desenvolvido na cidade de Lisboa uma política que assenta em dois vectores fundamentais: a dinamização do sector do turismo, assumindo-o como elemento determinante do desenvolvimento económico da cidade, e o favorecimento da financeirização do imobiliário. 

Uma e outra política provocaram, entre outros aspectos gravosos, o aumento dos fluxos diários de milhares de pessoas que, expulsas para os concelhos limítrofes da cidade, se têm de deslocar para aqui desenvolverem a sua actividade profissional ou usufruírem dos diferentes serviços que a cidade disponibiliza.

A Linha Circular insere-se nesta política que o PS tem seguido na cidade. 

E a quem interessa esta linha? Quem a aproveita?

A linha serve apenas quem circula dentro da cidade, que é onde se concentra o maior número de alojamentos ligados ao sector do turismo. Não vai alcançar nenhum novo pólo de concentração habitacional.

Por outro lado, para os terrenos livres adjacentes às duas novas estações da Linha Circular foram recentemente aprovadas propostas na Câmara Municipal de Lisboa que promovem alterações significativas de usos de terrenos, aumentando em muito a quota disponível para a actividade do turismo em detrimento dos espaços verdes ou da habitação. Falo dos terrenos do antigo aterro da Boavista ou dos terrenos que serão desafectados ao Regimento de Sapadores Bombeiros da Avenida D. Carlos I.

Quais são as alterações e acrescentos de que o Metro de Lisboa efectivamente necessita?

O Metro devia desenvolver a sua rede tendo presente dois factores: chegar a grandes pólos populacionais que não estão servidos por nenhum meio de transporte pesado e aumentar a interligação entre linhas.

Assim a expansão do Metro, a Loures e Alcântara, tal como já foi anunciado, deveria ser planeada em torno dos seguintes eixos: prolongando a Linha Vermelha até à Ajuda, Belém e Algés, ligando à Linha da CP de Cascais, enquanto o outro eixo da Linha Vermelha estabelece a ligação do Aeroporto à Linha Amarela no Campo Grande, passando pela Alta de Lisboa. 

Já no caso da Linha Verde, é urgente a ligação de Telheiras à Linha Azul, Colégio Militar ou Pontinha, prolongando-a até Benfica.

Não havendo, para já, nada em concreto, seria também importante estudar a ligação a zonas com elevada densidade populacional como Sapadores/Graça.

A Linha Circular vai ter algum impacto a nível ambiental?

Já está a ter um impacto muito negativo para os moradores da zona, como o pó causado pela obra, o ruído das máquinas a trabalhar dia e noite, sete dias por semana, as intensas luzes dos estaleiros que possibilitam o trabalho nocturno ou o transporte de veículos pesados para movimentação de terras.

No futuro, esta linha não vai trazer a Lisboa nenhuma melhoria ambiental significativa, já que não retirando carros de Lisboa, não contribui para redução do dióxido de carbono.

Os trabalhadores do Metropolitano e as suas organizações representativas denunciaram a «ausência de estudos científicos» e de estudos sobre o impacto que forçosamente terá nos trabalhadores. Quais são as principais consequências?

O grande problema é que não foram estudados os possíveis impactos humanos, para os trabalhadores e os utentes, de uma linha com estas características. Não é possível  identificar com rigor esses efeitos, nem tomar medidas cautelares que minimizem esses efeitos.

De qualquer modo há, para já, dois elementos que são previsíveis e preocupantes. 

Primeiro, hoje, cada linha tem dois términus [a seguir às últimas estações existem instalações técnicas, a que o público não tem acesso] que possibilitam ao maquinista quebrar a função de condução, mesmo que apenas por um ou dois minutos, para ir à casa de banho ou beber água.

Numa linha circular, este términus desaparece, o que provoca que durante quatro horas seguidas este profissional não possa ir à casa de banho se necessitar, nem quebre a função de condução.

Vale a pena recordar que o maquinista trabalha num ambiente sem luz natural, numa cabina com fraca luminosidade, com tarefas muito monótonas, com uma qualidade de ar fraca e uma densidade atmosférica muito baixa, sujeito a fortes variações de temperatura.

Por outro lado, pelas funções do maquinista e características do ambiente de trabalho, este, ao fim de algum de tempo de trabalho, perde a noção do espaço e do tempo. Esta é uma realidade comprovada cientificamente. Ora, se isto se verifica numa linha simples com dois términus, então numa linha circular esse efeito será em muito multiplicado.

O que as organizações representativas dos trabalhadores do Metro têm vindo a defender é tão somente a urgência da realização dos estudos que identifiquem as consequências da operação numa linha com estas características.

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