Através de milagrosas medidas proteccionistas, Buzz Windrip, o populista que instaura um regime fascista nos Estados Unidos da América no romance distópico It can't Happen Here (de 1935; Isso Não Pode Acontecer Aqui, na tradução portuguesa), de Sinclair Lewis (primeiro cidadão dos EUA a receber o Nobel da Literatura), teria finalmente «uma balança comercial que contribuirá em grande medida para concretizar a minha ideia, tantas vezes criticada mas totalmente válida, de atribuir entre 3 mil e 5 mil dólares por ano a cada família».
A promessa, que evidentemente nunca se cumpre, apela a muitos «homens esquecidos», a massa abandonada por sucessivos governos democratas e republicanos comprometidos exclusivamente com o grande capital (e, neste ponto, em nada diferem de Windrip, estruturalmente ligado aos interesses dos mais ricos e das grandes empresas, apesar do que afirma nos seus discursos). «Eu vou votar Buzz Windrip. Ele vai fazer com que toda a gente ganhe imediatamente quatro mil dólares».
Esta quarta-feira, 9 de Setembro, Donald Trump, presidente dos EUA, empregou a mesma estratégia. «Se os republicanos conquistarem tanto a Câmara dos Representantes como o Senado dos Estados Unidos», afirmou, num discurso realizado na convenção republicana em Dallas, Texas, «vou distribuir um dividendo de 5 mil dólares a cada cidadão maior de idade» – o «dividendo Trump».
Contas realizadas pela BBC estimam que o custo hipotético desta medida, tendo em conta os dados demográficos mais recentes, rondaria os 1,3 biliões de dólares (1,3 trillion dollars). Não é a primeira vez que Trump promete (e não cumpre) uma medida deste género. No início do segundo mandato, os cortes nas despesas governamentais (o DOGE, projecto já defunto) seriam redistribuídos pela população através de cheques de 5 mil dólares. Depois, o presidente dos EUA garantiu que todos os cidadãos receberiam um cheque de dois mil dólares por «dividendos das tarifas», dinheiro que também nunca chegou.
Tal como em It can't Happen Here, mas também fora da ficção, com vários responsáveis políticos a não cumprirem promessas de campanha, o cheque não passa de uma cenoura pendurada à frente da cabeça. Já eleito, em pleno processo de capturar todo o aparelho de Estado, os meses de «Janeiro, Fevereiro e grande parte de Março» passam sem que Windrip tenha distribuído a sua «oferta governamental de 5000 dólares (ou, com sorte, talvez fossem 10 000) por pessoa». Sem cheques, os cidadãos tiveram de se contentar com «cordiais», mas cada vez mais esporádicos, «boletins de Washington» a justificar o atraso. Eventualmente, com o poder nas mãos, a milícia fascista que controlava o país substitui as vãs promessas pelo mais eficaz cassetete.
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