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«Tenho de inventar coisas para que Washington continue com a Venezuela na cabeça»

Uma conversa, divulgada esta quarta-feira, entre a nova ministra colombiana dos Negócios Estrangeiros e o embaixador em Washington deixou clara a estratégia de ingerência nos assuntos internos da Venezuela.

O embaixador da Colômbia, grande defensor da ingerência na Venezuela, com Donald Trump na Casa Branca
O embaixador da Colômbia, grande defensor da ingerência na Venezuela, com Donald Trump na Casa Branca Créditos / RT

Os esforços da Colômbia para interferir na vizinha Venezuela, apoiar a oposição de extrema-direita e derrubar o governo legítimo de Nicolás Maduro – que o executivo venezuelano tem denunciado reiteradamente – ficaram bem à mostra na conversa, que terá sido gravada na semana passada num restaurante em Washington e que meios colombianos da imprensa recentemente trouxeram a público, entre o embaixador da Colômbia nos EUA, Francisco Santos, e a nova chefe da diplomacia colombiana, Claudia Blum.

O presidente da Colômbia, Iván Duque – que alinha nesta estratégia a eito e ainda vai um palmo à frente –, não parece ter ficado muito contente com a exposição da conversa privada, e pediu a Santos que se apresentasse em Bogotá, para, aparentemente, pedir explicações ao embaixador.

«Aquilo de Guaidó está parado»

Num diálogo com uma duração aproximada de meia hora, o tema «Venezuela», que Santos caracteriza como o «segundo» mais importante da agenda nacional, ocupa grande espaço. Tanto ele como Blum lamentam que «aquilo de Guaidó esteja parado», mas Santos diz acreditar que «a coisa se vai mexer».

«Aqui havia várias cabeças que lidavam com a questão da Venezuela de uma forma diferente», afirma o embaixador colombiano, explicando que, no que respeita ao TIAR [Tratado Interamericano de Assistência Recíproca], «o Departamento de Estado queria-o, a Casa Branca não». E acrescenta: «Não sei em que momento mudou a política na Casa Branca, mas aqui ainda não se põem de acordo.»

Washington «aborrece-se» com a questão da Venezuela

Para o ano que vem, Santos disse ter planos de levar congressistas à Colômbia para «ver a fronteira e ver drogas». «Vamos fazer isso [para] que não se perca em Washington a importância da Venezuela», explicou, acrescentando que, nos EUA, «passados dez minutos chateiam-se e passam para outra questão».

«Tenho de inventar coisas para que eles continuem com a Venezuela no top of mind [na cabeça]», disse Santos, explicando que «essa é a tarefa» que tem relativamente à Venezuela. Classificou como uma «vergonha» os «120 milhões de dólares de ajuda dos países mais ricos do mundo», e como «a Europa não sabe que há uma crise na Venezuela», considerou necessário «falar com os embaixadores e convidar deputados da Europa».

«É importantíssimo armar uma coisa estratégica com a Venezuela a partir do nosso trabalho, com as embaixadas que já estão a montar o governo [sic] de Guaidó, lá, que há gente que conheço, eu trabalho muito de perto e ajudo-lhe em tudo aquilo de que necessitar», salientou.

A cena da dita «ajuda humanitária» foi um «fiasco total»

A nova ministra dos Negócios Estrangeiros também fez questão de contribuir com umas ideias de ingerência na política interna venezuelana e pediu a «Pachito» (como Francisco Santos é conhecido na Colômbia) que a ajudasse a pensar. «A solução não é um golpe militar, porque os militares não o vão derrubar [Maduro]», nem os Estados Unidos o vão fazer, disse Claudia Blum.

Aqui, o embaixador disse-lhe que «a CIA não se está a meter» no assunto. «A CIA está "pfff"…», afirmou Santos, dizendo ainda ser sua convicção que Trump «só se mete na Venezuela» se «vir as eleições muito difíceis». Mas a ministra discorda: «Eu não vejo a coisa assim. Vejo isso muito distante.»

Para o embaixador colombiano, a estratégia mais acertada de ingerência na Venezuela neste momento passa por «acções encobertas lá dentro, para fazer barulho e apoiar a oposição, que lá está muito sozinha».

Blum, que concordou – a oposição está «muito sozinha, desgastada» –, qualificou ainda como um «fiasco total» a operação de tentar fazer entrar camiões com suposta «ajuda humánitaria» na Venezuela a partir da Colômbia, a 23 de Fevereiro último. Uma operação que o governo de Nicolás Maduro denunciou como fazendo parte da estratégia norte-americana para justificar uma intervenção externa.

Arreaza: fica à mostra «como e com quem conspiram contra a Venezuela»

O ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, reagiu no Twitter à revelação da conversa, tendo sublinhado, por um lado, que não faz sentido acreditar que a diplomacia colombiana «se possa recompor», pois a nova ministra dos Negócios Estrangeiros da Colômbia mostra-se «desesperada porque não houve golpe na Venezuela, Guaidó não serve, Trump não intervém, a CIA não actua, o TIAR não serve».

Por outro lado, Arreaza, vincou a ideia de que, depois de andar anos a dizer que «o chavismo desestabiliza a região», a Colômbia, pela voz da ministra e do embaixador, «confessa como e com quem conspira para desestabilizar a Venezuela».

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