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A perversa confusão entre patriotismo e nacionalismo

A manipulação destes conceitos é executada de forma primária; a comunicação responsável pela propaganda neoliberal de há muito esqueceu as mensagens elaboradas. Daí à estupidificação o caminho é plano

Marcha da extrema-direita polaca em Novembro de 2017. Apesar das palavras de ordem xenófobas, slogans religiosos e símbolos fascistas, a televisão estatal TVP classificou a manifestação como uma «grande marcha de patriotas».
Marcha da extrema-direita polaca em Novembro de 2017. Apesar das palavras de ordem xenófobas, slogans religiosos e símbolos fascistas, a televisão estatal TVP classificou a manifestação como uma «grande marcha de patriotas».Créditos / infobae.com

A confusão anda por aí, sobretudo disseminada pela informação de grande consumo. Em alguns casos admite-se que possa ser simples ignorância, o que não espantará ninguém em meios onde a formação universitária não se harmoniza com a cultura profissional, muito menos com a cultura geral; noutros casos, principalmente em patamares mais elevados de intervenção, decisão e manipulação, trata-se de pura má-fé, de transformar habilidosamente em sinónimos dois conceitos que são antagónicos. Em terminologia corrente: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Patriotismo é a defesa prioritária dos interesses de uma comunidade coincidente com o espaço-nação quando são ameaçados externamente por países, grupos e alianças de nações; e também por pessoas, entidades e instituições internas que subvertem o interesse geral em proveito próprio ou alheio, nacional ou não.

O patriotismo identifica-se com a genuína expressão democrática de uma comunidade nacional, respeitando a vontade maioritária manifestada livremente e servindo o interesse geral segundo parâmetros de justiça, igualitarismo, dignidade e afirmação cultural.

O nacionalismo é muito diferente – no limite, antagónico. Apropria-se do patriotismo para o distorcer e colocar ao serviço de minorias interessadas e interesseiras, que tanto podem ser nacionais como estrangeiras. O conceito de patriotismo cultivado pelos nacionalistas subverte deliberadamente o interesse geral da comunidade, manipula maiorias ao serviço de castas, elites e minorias. Regra geral, os nacionalistas servem-se de versões distorcidas da História, da religião, da mitificação e mistificação das tradições culturais, de forma a catapultarem a imposição dos seus interesses de grupo contra os direitos da comunidade nacional.

Vivemos uma época propícia ao nacionalismo como fato feito por medida para os pescadores de águas turvas que medram através de crises sucessivas, os políticos sem princípios que gerem a chamada «comunidade internacional», os impérios económicos e financeiros para quem a democracia representativa, mesmo descaracterizada e asfixiada, deixou de ser suficiente para gerir a componente política do neoliberalismo e garantir lucros máximos.

O nacionalismo, autoritário por definição e prática, beneficia um leque de clientelas económicas, políticas e sociais das esferas de poder, porque lhes permite servir-se dele enquanto o condenam, invocá-lo em variadas situações e as suas contrárias.

«O patriotismo identifica-se com a genuína expressão democrática de uma comunidade nacional. (...) O conceito de patriotismo cultivado pelos nacionalistas subverte deliberadamente o interesse geral da comunidade, manipula maiorias ao serviço de castas, elites e minorias»

A União Europeia é uma entidade cada vez mais cúmplice do autoritarismo nacionalista, sobretudo à medida que se agudizam as suas irreversíveis e congénitas crises de identidade. E os «europeístas» de todos os matizes, incluindo os de «esquerda», recorrem amiúde e sem reservas ao nacionalismo, sobretudo quando o assimilam ao patriotismo, acusando ambos de serem «anti-europeístas».

Por tudo isto, não surpreende que a confusão deliberada entre o nacionalismo e o patriotismo esteja na ordem do dia, porque também ela alimenta as trevas onde continuam a mover-se os «europeísmos» – que vivem muito mal com o patriotismo enquanto lucram com a disseminação de governos nacionalistas no espaço europeu. Leiam-se as recentes decisões do Conselho Europeu sobre os migrantes e refugiados e percebe-se como a xenofobia nacionalista fez doutrina no concílio dos executivos que continuam a proclamar-se «europeístas» e faróis democráticos do continente.

A manipulação destes conceitos é executada de forma primária; há muito que a comunicação de amplo consumo responsável pela propaganda neoliberal deixou de lado as mensagens elaboradas. A intoxicação massiva e o falso pluralismo da informação ao serviço da ideologia única fecham o espaço de reflexão, privando a esmagadora maioria dos frequentadores dos meios dominantes da capacidade para pensarem fora do quadro das verdades absolutas. Daí à estupidificação o caminho é plano.

A ascensão dos nacionalismos e a extraordinária acomodação dos «europeístas»

Assim sendo, é muito fácil entender como funciona a utilização oportunista e multifacetada do nacionalismo, que reverterá sempre, mais tarde ou mais cedo, em proveito do próprio.

Os governos que determinam, de facto, o funcionamento da União Europeia e que são intrinsecamente xenófobos, sem o admitirem, escondem-se cada vez mais sob a influência das correntes chauvinistas e nacionalistas para promoveram a transição da gestão política do neoliberalismo entre a democracia formal e regimes de cariz autoritário.

«Da União Europeia desaparecem as democracias, mesmo as formais, enquanto continuam a desenvolver-se e a afinar-se, até clandestinamente, os instrumentos federalistas criados para fazer mover a máquina da rapina neoliberal»

Os dedos das duas mãos não chegam para contar os governos nacionalistas/fascistas/xenófobos/autoritários já instalados no continente europeu; mesmo os pertencentes à União Europeia excedem a dezena, pelo que andarão a dormir aqueles a quem ainda não assusta a acelerada contaminação fascista da Europa, em harmonia com a dos «amigos e aliados» dos Estados Unidos da América. Sem ter a preocupação de ser rigorosamente exaustivo, caíram nesse regresso ao passado, talhado para gerir a nova etapa da ditadura financeira e económica neoliberal, os seguintes países e territórios: Itália, Áustria, Polónia, Hungria, Eslovénia, Croácia, Letónia e Estónia, República Checa e Eslováquia, Albânia e Kosovo, Montenegro e Ucrânia. A Rússia, tal como a Sérvia, não anda longe de um estado de nacionalismo à solta. E que dizer da França de Macron, significativamente designada como Macrónia nas ruas e em vários meios de comunicação social? Do peso fascista crescente na Holanda, Flandres, Dinamarca e outros territórios e países nórdicos? Como encarar a actual crise política alemã, onde as tendências fascistas bávaras, latentes desde sempre na CSU, tentam acompanhar o passo da ascensão do neonazismo da Alternativa para a Alemanha e deixam cair a máscara democrática ante a questão das migrações e refugiados?

A União Europeia acomoda-se a esta transformação de fundo que avassala o continente e as suas decisões vão reflectindo a variação da correlação de forças. Repare-se como os principais ícones neoliberais e federalistas da União, como sejam o funcionamento do Euro e do Banco Central, o Tratado Orçamental e outros atentados contra a soberania dos povos e das nações permanecem incólumes com a viragem nacionalista, autoritária e, no limite, fascista. Da União Europeia desaparecem as democracias, mesmo as formais, enquanto continuam a desenvolver-se e a afinar-se, até clandestinamente, os instrumentos federalistas criados para fazer mover a máquina da rapina neoliberal. Provando-se que a razão de ser da União não é, afinal, a democracia mas a garantia da exploração desenfreada dos seres humanos através da imposição da anarquia capitalista em ambiente político autoritário e arbitrário.

Com a adaptação da União Europeia transfiguram-se a postura e o discurso dos «europeístas», através de novas condescendências que coexistem com a dureza de sempre perante os inimigos tradicionais.

«para o «europeísmo» – sempre fiel ao neoliberalismo – os inimigos continuam a ser os patriotas, esses «retrógrados» que defendem as soberanias nacionais contra a ditadura do euro, do Banco Central, de tratados opressivos adoptados segundo artifícios não democráticos para escapar às consequências do exercício da vontade popular»

As condescendências manifestam-se através das atitudes tolerantes perante os comportamentos de governos autoritários, mesmo que, de tempos a tempos, o discurso oficial simule alguma dureza. Atitudes dos executivos polaco, húngaro e até do entronizado neofascismo italiano merecem, por vezes, reparos e ameaças de sanções por parte de Bruxelas. Nada que vá, porém, além disto; pelo contrário, as decisões da UE, como a mais recente sobre as migrações e os refugiados, tendem a alinhar-se com as tendências xenófobas, segregacionistas e autoritárias. E eis que vemos o «europeísmo» e o tão «progressista» federalismo sintonizados com algumas correntes negras do passado europeu, das quais – diga-se em abono da verdade histórica – alguns dos tão celebrados «pais fundadores» nem estavam assim tão distantes.

Ao mesmo tempo, para o «europeísmo» – sempre fiel ao neoliberalismo – os inimigos continuam a ser os patriotas, esses «retrógrados» que defendem as soberanias nacionais contra a ditadura do euro, do Banco Central, de tratados opressivos adoptados segundo artifícios não democráticos para escapar às consequências do exercício da vontade popular; os patriotas, esses «conservadores» que são contra a NATO e as guerras de rapina que a aliança continua a promover, que propõem dinheiro para a saúde e a educação, não para as armas e a morte, que pretendem tirar proveito das potencialidades económicas dos seus países – em vez de serem sufocadas para que os impérios globais económico-financeiros possam somar lucros cada vez mais obscenos.

Aqui chegados, julgo não ser necessário ir mais além para se perceber, liminarmente, a razão de ser da confusão deliberada e perversa entre patriotismo e nacionalismo.

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