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O MAS denuncia golpe em curso face a eventual triunfo de Arce

O tribunal eleitoral implementará um sistema de contagem de votos que não inclui as fotos das actas. O MAS também questiona o regresso dos observadores da OEA que participaram nas eleições de 2019.

Em Sucre, bastião do candidato neoliberal Carlos Mesa, o MAS realizou um enorme comício
Em Sucre, bastião do candidato neoliberal Carlos Mesa, o MAS realizou um enorme comício Créditos / Kawsachun News

Marianela Paco, porta-voz do Movimento para o Socialismo (MAS), denunciou que está em curso um «segundo golpe à democracia» devido à «total falta de transparência» no sistema de contagem rápido de votos desenvolvido pelo Supremo Tribunal Eleitoral (STE).

O presidente do organismo, Salvador Romero, afirmou esta segunda-feira que o novo sistema de contagem, que será estreado nas eleições do próximo domingo, não incluirá as fotos das actas eleitorais, como até aqui.

«A falta de transparência e a falta de certeza […] são indícios de que está em curso outra fraude, outra sabotagem contra o regresso da democracia ao país», disse Paco em contacto com a imprensa em La Paz. «Até à data, o STE não mostrou ao povo boliviano se o sistema de contagem rápido tem certificação internacional como tinha o sistema de contagem do ano passado; não mostrou que aspectos tornam melhor este sistema de contagem em relação ao do ano passado, em que se mostravam os resultados por actas e com as fotografias. Não nos mostrou como vai funcionar este sistema. Portanto, aí não existe transparência», criticou a ex-ministra da Comunicação do governo de Evo Morales, citada pelo Página 12.

Marianela Paco disse ainda que «aqueles que mandaram queimar as actas e os tribunais eleitorais [em Outubro de 2019] querem novamente custodiar os nossos votos; então, a população está desprotegida». Quem levou a cabo «um golpe contra a democracia quer, hoje em dia, guardar as actas», denunciou a representante do partido que tem Luis Arce como candidato à presidência da Bolívia, referindo-se ao acordo que o STE firmou com as Forças Armadas e a Polícia Nacional, mantendo em segredo os detalhes.

A representante do MAS alertou também para uma série de violações de direitos universais que aí virão, como o direito de organização e ao protesto, depois de Romero ter declarado, «como nunca antes na história democrática boliviana, um estado de excepção de seis dias antes e depois das eleições».

Outro aspecto que o MAS questiona é o regresso dos observadores da Organização de Estados Americanos (OEA) que participaram nas eleições de Outubro de 2019, em que a contagem de votos era liderada por Evo Morales, actualmente exilado na Argentina. No âmbito do golpe de Estado perpetrado no país andino-amazónico, essas eleições foram canceladas por uma alegada fraude denunciada pela OEA que jamais foi provada.

Para o MAS, o facto de o STE não ter revelado a lista de observadores internacionais, em especial os que pertencem à OEA, põe em causa a possibilidade de um processo eleitoral limpo e transparente. No entanto, Marianela Paco disse saber que os observadores da OEA «são os mesmos do ano passado» e que «isso é uma afronta ao povo boliviano», informa o Página 12.

Tensão crescente e Arce à beira da vitória... nas sondagens

Neste clima de tensão crescente em direcção às eleições de dia 18, a sondagem divulgada domingo à noite confirmou a tendência de outras anteriores. Realizado pela empresa Ciesmori, o estudo mostra o candidato do MAS, Luis Arce, com 42,2% dos votos válidos, e Carlos Mesa, da Comunidad Ciudadana, com 33,1% das intenções de voto.

Assim, o ex-ministro da Economia de Evo Morales estaria a apenas a um ponto percentual de evitar a segunda volta, sendo para tal necessário ter mais de 40% dos votos e deixar o segundo candidato mais votado a pelo menos 10% de distância.

Outro dado positivo para Arce é que a sondagem da Ciesmori não inclui o voto rural e o voto no estrangeiro, que costumam ser amplamente favoráveis ao MAS. O estudo inclui, no entanto, a candidatura do ex-presidente Jorge «Tuto» Quiroga, que no domingo à tarde deixou de o ser, numa manobra que parece destinada a tentar impedir a dispersão de votos à direita e a vitória do MAS à primeira volta.

Podem votar nas eleições gerais de dia 18 de Outubro 7 332 925 bolivianos. Além do presidente e do vice-presidente, serão eleitos os membros da Assembleia Legislativa Plurinacional para os próximos cinco anos.

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