|Espanha

Nos campos de Lleida, migrantes apanham fruta entre precariedade e estigma

Com ou sem confinamento, a temporada da fruta em Lleida não acabou. Milhares de trabalhadores sazonais continuam na comarca de Segrià, com más condições, falta de alojamento e olhados como uma ameaça.

Trabalhadores sazonais imigrantes nos campos de Lleida
Trabalhadores sazonais imigrantes nos campos de Lleida Créditos / El Salto

Antes do alarme suscitado pelos novos surtos de Covid-19, Lleida, na região ocidental da Catalunha, já tinha sido destaque nos noticiários por outra razão e com outro alerta, a dos trabalhadores migrantes sazonais, que costumam aparecer na região para trabalhar na campanha da fruta, e estavam sem alojamento, a dormir nas ruas. Na paragem geral motivada pela pandemia e o subsequente estado de alerta, este sector fundamental da economia tinha-se mantido activo, refere o El Salto.

Serigne Mamadou, do colectivo La Voz Migrante, afirma que, quando vieram a público as condições em que estavam os trabalhadores sazonais na comarca, com centenas a dormir na rua, fez uma webconferência com o actor e realizador Paco León. Então, o futebolista senegalês do Mónaco Keita Baldé deu-lhes apoio, primeiro para pagar o seu alojamento e depois oferecendo-lhes roupas.

O Município pôs alguns edifícios à disposição dos trabalhadores e Keita Baldé ainda alugou casas para imigrantes que ficaram de fora, além de comprar alimentos. Mamadou explica ainda que, como a situação pode piorar, o colectivo tenta dissuadir outros trabalhadores de irem para Lleida – onde já não há trabalho nem sítio para ficar – e ajuda, também com o apoio de Baldé, a pagar as viagens de volta aos que chegam e não têm trabalho.

«Eles sentem-se ofendidos pela maneira como estão a ser tratados, pois não querem nem caridade, nem ser tratados como desgraçados ou crianças; querem é pagar o seu alojamento e poder viver tranquilamente como trabalhadores»

Há algumas semanas, Nogay Ndiaye, membro do colectivo Fruita amb Justícia Social [fruta com justiça social], denunciava que o projecto do futebolista estava a deparar-se com um grande obstáculo: hotéis e proprietários não queriam alugar casas aos trabalhadores sazonais africanos. As acusações de racismo à sociedade de Lleida apareceram rapidamente na comunicação social. «A maioria quer alugar andares ou quartos, mas, pelo facto de serem negros, já não alugam», disse Ndiaye.

«Eles sentem-se ofendidos pela maneira como estão a ser tratados, pois não querem nem caridade, nem ser tratados como desgraçados ou crianças; querem é pagar o seu alojamento e poder viver tranquilamente como trabalhadores, mas não o podem fazer porque não têm acesso à habitação», denunciou.

Nogay Ndiaye lembra que a situação de «desamparo habitacional» dos trabalhadores sazonais não é nova, e que foi no contexto da pandemia, em 2020, que começou a sair à luz e a ser debatida: «Ninguém queria saber da situação dos migrantes até isso os afectar directamente, porque se aperceberam de que o facto de estes trabalhadores não estarem em boas condições também podia afectar a população em geral, a podia infectar. As pessoas reclamam uma solução mas por razões meramente egoístas, pelo seu próprio interesse. E, pior ainda, estão a criminalizar e a culpar» os trabalhadores, denuncia Ndiaye.

«Ninguém queria saber da situação dos migrantes até isso os afectar directamente»

Gemma Casal, também membro da plataforma Fruita amb Justícia Social, disse ao El Salto que já se sabia que, em Julho, ia continuar a chegar gente e que era preciso saber o que fazer com as pessoas que provavelmente não iam encontrar trabalho e casa – um problema que, também na sua opinião, vem de longe. «Reunimo-nos em Setembro com a Câmara Municipal para lidar com estas questões e disseram-nos que nos juntássemos em Janeiro, e em Fevereiro convidaram-nos a pensar na campanha de 2021», disse.

Ndiaye entende que este «não intervir» está relacionado com o mito do «efeito chamada», de acordo com o qual melhorar as condições de vida dos imigrantes faria com que milhares de pessoas respondessem à chamada da temporada da fruta, ou seja, implicaria uma invasão. E este discurso tem o seu terreno bem assente em determinados sectores da sociedade, refere o El Salto.

Racismo e culpabilização pelo vírus

Quando questionado sobre aquilo que os trabalhadores sazonais sentem sobre os discursos da culpa, Serigne Mamadou é claro: «Se já sentíamos a rejeição antes da Covid-19, agora, com a doença, é pior ainda, porque acreditam que somos nós que trazemos o vírus, e o que se passa aqui é o oposto: são eles que têm a doença.»

«eles vêm fazer um trabalho que os daqui não querem, em condições que nós certamente não aceitaríamos»

Mateo Aventín é educador social e integra uma das entidades contratadas peo Município para acompanhar os trabalhadores sazonais. Em seu entender, a pandemia foi fundamental para mostrar a situação destes trabalhadores, que «até agora estavam invisibilizados, apenas vinham e trabalhavam. Se dormiam na rua ou não, as pessoas não se importavam muito. O que se passa é que agora são um risco potencial para nós ao nível da saúde. O grande perigo que temos é que isto se torne um surto de racismo. O medo do vírus acaba por estigmatizar mais estas pessoas», alerta.

Depois de começar a trabalhar com trabalhadores sazonais, ouvir a diversidade das suas histórias e perspectivar o complicado da sua situação, Aventín decidiu escrever um fio no Twitter que teve grande repercussão, uma difusão que o surpreendeu: «Vi que há muita gente que também tem esta sensiblidade, que enfrentar a desumanização desta gente implica entender a sua situação, que são vítimas de um sistema, pois precisamos de apanhar a fruta, de o fazer a qualquer preço e, no final, eles vêm fazer um trabalho que os daqui não querem, em condições que nós certamente não aceitaríamos.»

O vírus da exploração

Há algumas semanas, Yaya Ba, da Associação de Senegaleses em Lleida, explicava ao El Salto que a situação não passa apenas pelo alojamento e que a preocupação com o vírus eclipsou a questão das más condições de trabalho. O problema, disse, é pagar entre 100 e 150 euros por mês por uma habitação «a ganhar 4 ou 4,5 euros à hora». Para a associação, o justo era pagar o abastecimento de luz e água, mas nalguns alojamentos do patronato, denuncia, há casas sem água quente.

«Com estas empresas as pessoas nem sabem para que patrão trabalham e é difícil avançar com um processo, porque não têm tempo, passam o dia todo à procura de trabalho»

Ba sublinha que precisam de um sítio para viver até Setembro, quando acaba a temporada, e apela à regularização da situação dos trabalhadores, pois muitos dos que vêm todos os anos até Lleida vivem há anos no país e, sem documentos, ficam encurralados, sem possibilidade de ver as suas famílias.

Para Casal, o papel do patronato é evidente: trabalho por salários de miséria, gente sem documentos, recurso a empresas de trabalho temporário, que fazem contratos de poucos dias e não querem saber da habitação. «Com estas empresas as pessoas nem sabem para que patrão trabalham e é difícil avançar com um processo, porque não têm tempo, passam o dia todo à procura de trabalho», explica a representante da plataforma Fruita amb Justícia Social.

Por seu lado, Mamadou mostra-se decepcionado com a situação que atravessam, presos entre a exploração nos campos e o estigma de serem apontados como foco contágio: «Eu pensava que as pessoas, depois disto, seriam um bocadinho melhores, aprenderiam mais um poco da vida, de como ela nos pode atingir, porque jamais pensariam que uma coisa assim se pudesse passar na Europa. Tudo acontecia em África, os vírus apareciam em África. No entanto, as pessoas ainda são piores», lamenta.

Tópico