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Níveis de mercúrio aumentam no rio Tapajós e a população adoece

A região do Tapajós regista a maior concentração de garimpo ilegal na Amazónia, e o elevado consumo de peixe contaminado com mercúrio está a fazer adoecer as populações, revela o Brasil de Fato.

Aumento da garimpo no Tapajós fez aumentar a doença entre as populações ribeirinhas do Tapajós
Aumento da garimpo no Tapajós fez aumentar a doença entre as populações ribeirinhas do Tapajós Créditos / Brasil 247

A extracção de substâncias minerais (garimpo) em Áreas de Protecção Ambiental não é proibida, desde que realizada de forma sustentável e regulamentada, disse ao Brasil de Fato o coordenador de Fiscalização do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), André Alamino.

Aquilo que se passa na região do rio Tapajós – um dos grandes rios da região amazónica – é o oposto, na medida em que, segundo o ICMBio, concentra os maiores níveis de garimpo ilegal de todo o Amazonas.

A extracção de ouro existe há décadas na região, mas, segundo refere Alessandra, líder dos indígenas Munduruku, nota-se hoje uma maior presença de dragas no rio, que remexem a lama no fundo. O nível de contaminação da água é cada vez maior, afirma, sublinhando que, entre a população da aldeia Sawré Muybu (no estado do Pará), se registam mais casos de abortos espontâneos e de crianças com perda de memória.

O garimpo ilegal e o mercúrio

O neurocirurgião Erik Jennings, que trabalha em Santarém (Pará) e presta cuidados à população da região do Tapajós, explica que a intoxicação ocorre porque o peixe, que é contaminado pelo mercúrio, é o principal alimento das populações ribeirinhas.

Em declarações ao Brasil de Fato, o médico revela que o solo tem um determinado nível de mercúrio, que está «ali quietinho inorgânico e não venenoso», sublinhando que a garimpagem ilegal é a «grande vilã», na medida em que «mexe o fundo dos rios» e faz aumentar o nível de mercúrio.

Um estudo realizado na Universidade Federal do Oeste do Pará em 2016, da autoria da bióloga Heloísa de Moura Meneses, aponta que o solo da região amazónica «é naturalmente composto por mercúrio» e que é «a intervenção humana, através do garimpo, do desmatamento, das hidroeléctricas e queimadas, que faz com que haja o desequilíbrio».

Sete milhões de toneladas de sedimentos por ano

Dados recentes da Polícia Federal (PF) do Pará – publicados no âmbito de um investigação sobre lavagem de dinheiro envolvendo garimpos clandestinos de ouro na bacia do Tapajós – confirmam a presença elevada de actividade garimpeira no Tapajós. De acordo com a PF, são lançados no rio sete milhões de toneladas de sedimento por ano oriundos do garimpo ilegal.

André Alamino, da ICMBio, destaca que as acções de combate e fiscalização são dificultadas pela extensão do território e pela dificuldade de acesso às regiões, que são muitas vezes apenas alcançadas por helicóptero.

Incapacidade para reconhecer sintomas e preconceito

De acordo com o médico Erik Jennings, já existem sinais de intoxicação desde os anos 80, e vários estudos vieram comprovar uma quantidade de mercúrio acima do permitido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na população ribeirinha. No entanto, refere, a falta de preparação das equipas de saúde e os poucos estudos clínicos existentes dificultam a identificação dos casos de intoxicação.

Para além disso, muitas vezes «médicos e enfermagem podem relacionar esses sintomas de alteração de concentração, de memória, de raciocínio, etc. a coisas triviais do dia a dia, como ansiedade, depressão».

No caso da Amazónia, «"é porque é índio, não quer estudar, não se concentra porque é ribeirinho, não tem inteligência". Essas pessoas podem estar a passar por esses problemas e não estarem a ser diagnosticadas», declarou ao Brasil de Fato, lamentando.

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