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Familiares de Ayotzinapa exigem verdade e justiça imparcial

Pais dos 43 estudantes desaparecidos em Setembro de 2014 pediram ao Supremo Tribunal que resista às pressões do executivo ainda em funções e se pronuncie a favor da criação de uma Comissão da Verdade.

Os pais dos jovens desaparecidos de Ayotzinapa exigem imparcialidade ao Supremo Tribunal face ao governo de Peña Nieto
Os pais dos jovens desaparecidos de Ayotzinapa exigem imparcialidade ao Supremo Tribunal face ao governo de Peña NietoCréditos / ADN Político

Na conferência de imprensa que deram esta quarta-feira, os familiares dos 43 estudantes de Ayotzinapa, desaparecidos em Iguala (estado de Guerrero), voltaram a acusar o governo de Enrique Peña Nieto de dificultar a investigação sobre o paradeiro do seus filhos e avisaram-no de que «não há-de escapar à Justiça».

Ao novo presidente eleito do México, Andrés Manuel López Obrador, lembram-lhe que assumiu com eles o compromisso de apoiar a Comissão da Verdade, bem como as linhas de investigação estabelecidas pelo Grupo Interdisciplinar de Especialistas Independentes (GIEI).

Exigiram ainda ao Supremo Tribunal mexicano que seja imparcial e autónomo no momento de decidir se se deve constituir uma Comissão da Verdade sobre Ayotzinapa.

O caso chegou ao Supremo depois de, recentemente, um tribunal federal ter acolhido a argumentação da Procuradoria-Geral da República (PGR) e revertido a sentença favorável à criação da Comissão da Verdade sobre o caso de Ayotzinapa, proferida por outro tribunal em 4 de Junho último.

De acordo com o tribunal federal, a sentença anterior violava o pressuposto de que só o Ministério Público tem competências para investigar crimes, pelo que declarou a «impossibilidade jurídica» da criação da Comissão da Verdade.

Esta seria liderada por representantes das vítimas e da Comissão Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), que, segundo revelou a TeleSur, teriam a seu cargo a direcção da investigação, em conjunto com a PGR e o Ministério Público.

Na sentença que, no início de Junho, decretou a criação da Comissão, o tribunal afirmava ter encontrado provas de que a investigação do caso de Ayotzinapa, por parte da PGR, «não foi rápida, eficaz, independente ou imparcial».

A decisão judicial que reverteu esta sentença foi muito mal recebida pelos pais dos jovens desaparecidos, que ontem disseram esperar uma atitude diferente da parte do Supremo.

«Pedimos ao Supremo Tribunal que faça o seu trabalho com imparcialidade sobre o caso Ayotzinapa (…) que tenha coragem suficiente, que não se deixe comprar, que faça o seu trabalho, porque queremos saber onde estão os nossos filhos», disse Blanca Nava, mãe de um dos estudantes, citada pelo ADN Político.

Os pais dos jovens lembraram ainda que estão há 46 meses à procura dos seus filhos. «É uma vergonha que tenham passado 46 meses sem sabermos a verdade», disse ainda Blanca Nava.

Os 43 de Ayotzinapa

Foi há quase quatro anos que 43 estudantes da Escola Normal Rural Raúl Isidro Burgos, em Ayotzinapa, desapareceram em Iguala, no estado mexicano de Guerrero. Desde então, os familiares dos desaparecidos exigiram respostas ao governo de Peña Nieto, que foi acusado de silenciar o caso, ocultar elementos e dificultar as investigações independentes, num contexto geral de violência e impunidade.

Isso mesmo foi apontado no documento sobre a violência no México, elaborado em 2015 pelo relator especial das Nações Unidas contra a tortura, Juan E. Méndez.

Quase 16 mil assassinatos no primeiro semestre

Com 15 973 pessoas assassinadas nos primeiros seis meses e uma taxa de 11,01 casos de homicídios por 100 mil habitantes, o México está a viver o ano mais violento de que há registo.

Os dados relativos ao primeiro semestre de 2018, divulgados recentemente pelo Secretariado Executivo do Sistema Nacional de Segurança Pública (SESNSP), apontam para uma média diária de 88,7 homícidios.

Comparando com iguais períodos de 2015 para cá, a taxa de homicídios dolosos tem vindo sempre a aumentar: se, nos primeiros seis meses de 2015, essa taxa foi de 6,3 casos por cada 100 mil habitantes, em 2016 subiu para 7,4 casos e, em 2017, para os 9,6.

Os assassinatos de mulheres triplicaram nos últimos três anos, refere o Animal Político. Desde 2015, ano em que se começou a registar o número de mulheres vítimas de homicídios dolosos, o aumento tem sido constante.

No primeiro semestre desse ano foram registados 184 casos, enquanto no período compreendindo entre Janeiro e Junho deste ano já se registaram 402 vítimas.

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