Centenas de milhares de pessoas manifestaram-se esta terça-feira em dezenas de localidades francesas. Jovens, estudantes, pais, professores, trabalhadores de vários sectores – mobilizados pelo movimento sindical – uniram-se para contestar a destruição dos serviços públicos, reclamar mais meios para o sector educativo e denunciar a actuação repressiva das forças de segurança contra o movimento de protesto estudantil iniciado em meados de Setembro.
Os alunos do Ensino Secundário – cujos representantes apelaram à continuidade dos protestos depois de uma reunião que consideraram infrutífera no Ministério da Educação, sexta-feira passada – reclamam mais recursos para o sector e denunciam as condições insalubres dos edifícios, salas de aula sobrelotadas, a não substituição de professores, bem como a revogação do Parcoursup, um sistema de selecção para a entrada na universidade que classificam como opaco e socialmente discriminatório.
Amplo apoio sindical
As mobilizações desta terça-feira contaram um amplo apoio do movimento sindical – não apenas da área da Educação, cujas estruturas haviam solicitado «mais apoio» para os alunos do Ensino Secundário e que as suas reivindicações fossem ouvidas, refere o portal bfmtv.com.
Solidaires e Confederação Geral do Trabalho (CGT) apelaram à participação nas mobilizações estudantis, com a CGT a instar «todas as suas organizações a protegerem o direito [dos estudantes] de se mobilizarem e a disponibilizarem os meios necessários para que se organizem – nomeadamente abrindo as sedes sindicais e os centros comunitários para permitir que se reúnam».
«Os militantes da CGT estarão presentes para proteger os estudantes», declarou Sophie Binet, secretária-geral da organização sindical, à TF1 na véspera da mobilização.
Num comunicado emitido ontem, a central sindical de classe congratulou-se com a mobilização estudantil, realizada «num clima sereno e determinado», fazendo «ouvir, de forma massiva, uma reivindicação legítima: poder estudar em condições dignas, contando com um verdadeiro serviço público de Educação e de Ensino Superior».
A CGT, que denuncia de forma veemente a «violência» das forças de segurança contra os estudantes, na sua grande maioria menores de idade, insta o governo francês a responder de imediato às suas reivindicações.
Refere-se, entre outros aspectos, a recursos para a Educação Nacional, contratação de pessoal em número suficiente, turmas menos sobrelotadas, aumento de salários, instalações dignas e forte investimento público.
A central sindical instou ainda todas as suas organizações e militantes a manterem-se ao lado da juventude, e a intensificarem as mobilizações, sobretudo relacionadas com a valorização salarial.
Anunciou ainda que, esta quinta-feira, voltará a estar nas ruas ao lado dos estudantes e lembrou que estão previstas novas fases de mobilização, nomeadamente dia 14 de Outubro, contra o congelamento das pensões, até à jornada de luta convocada para 5 de Novembro.
«O governo está com medo, e com razão»
Num editorial publicado esta terça-feira, l’Humanité sublinha que aquilo «que os jovens em fase de formação vivem é a degradação planeada do serviço público, alvo de sucessivos governos ao longo de décadas».
«Os mandatos de Macron que chegam ao fim foram emblemáticos no que diz respeito à destruição social», afirma o texto, lembrando que «os oito ministros da Educação nomeados por Emmanuel Macron deram continuidade, de forma metódica, à mesma política» de precarização das condições de estudo e de trabalho, e de favorecimento da migração do sector público para o privado.
«É o preço desta política que estão a pagar caro hoje». Uma factura que pode aumentar «se todos aqueles que sofrem com esta política de destruição maciça do sector público decidirem entrar na luta», afirma o texto, sublinhando que todos os dias há mais franceses a descobrir, por si mesmos, o que significa em concreto «o enfraquecimento dos serviços públicos».
«O fracasso do liberalismo já não é uma abstracção. Está presente no quotidiano de cada cidadão, que teria mil razões para se juntar aos jovens nas ruas. O governo mais ilegítimo da Quinta República sabe disso. É por isso que faz uso de todos os recursos repressivos para impedir que a revolta se propague», denuncia.
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