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Depois da cimeira de Trump e Putin, o quê?

Os campeões da moralidade deveriam reflectir sobre um quadro internacional em mudança, independentemente da sua vontade, e se estariam de acordo com um golpe de estado em Washington para afastar Trump

Donald Trump e Vladimir Putin durante a cimeira de Helsínquia entre os EUA e a Rússia, Julho de 2018
Donald Trump e Vladimir Putin durante a cimeira de Helsínquia entre os EUA e a Rússia, Julho de 2018CréditosFonte: bm.carl.com.my (York Dispatch)

Trump convidou Putin a visitar Washington no Outono.

Nenhum dos dois tinha criado grandes expectativas sobre o encontro de Helsínquia. Porém, as declarações posteriores revelaram um conjunto de acordos em matérias que podem melhorar as relações entre os dois países e a visita de Putin consagrará isso.

Os desenvolvimentos dos contactos entre ambos revelará que influência a visita irá ter no arrefecimento e mesmo no acabar com alguns conflitos e situações de tensão, e na normalização das relações comerciais entre os dois países e o fim das sanções comerciais e outras à Rússia. Questão que é do interesse dos povos.

Para além do empenho real, a verificar, da administração norte-americana nesse processo, não se podem ignorar as dificuldades que em termos de opinião pública este processo está a gerar.

Efectivamente ao acentuar na generalidade dos media de uma russofobia que galopa delirante, soma-se o arrasar da imagem de Trump, que já vinha desde a vitória obtida sobre Hillary Clinton, e para o qual o próprio deu importantes contributos, de todos nós conhecidos.

Muita gente incluindo alguma esquerda de 3.ª, 4.ª e 5.ª vias, coloca a questão em termos desrespeitosos e carentes de rigor «que se pode esperar do encontro dum louco com um autocrata» – perguntam. Desde que Obama e Hillary introduziram estes novos padrões do «politicamente correcto», os nossos comentadores de facebook não se têm cansado.

Parece que já se esqueceram da normalização de relações entre os responsáveis da UE e o novo governo de Itália, de que disseram cobras e lagartos, num exercício de hipocrisia em que esqueceram a condescendência com governos «europeus» de extrema-direita, como os da Hungria e Áustria, para não falar já com o andarem ao colo com Poroshenko, presidente do governo de direita e extrema-direita da Ucrânia, que aspira a integrar a UE. Exemplos não faltam que expressam essa duplicidade nas avaliações.

Nesse alarido contra Trump e Putin muitos revelam a sua derrota moral por deixarem de aspirar a uma reflexão independente, a um pensamento dialético e por aceitarem como bons os seus adversários, como Barack Obama e John McCain, num caso, ou Alexey Navalny e as Pussy Riot, no outro.

Obama foi quem, sem esboçar um gesto de paz, recebeu em 2009 o Prémio Nobel da Paz antes de partir para as suas guerras no Afeganistão e no Iraque nesse mesmo ano, em 2011 parte para as «primaveras árabes» e contra a Líbia, em que matou Kadhaffi, e contra a Síria onde partiram os dentes os grupos terroristas que formou e armou (com o Reino Unido e a França), e ainda foi responsável por formas de guerra menos convencionais, com ataques de drones no Paquistão, Iémen, Líbia, Somália e Síria, que mataram muitos civis.

John McCain, republicano, no auge da sua carreira de conspirador, e com o conhecimento de Obama, encontrou-se em 2012 com os principais dirigentes do Estado Islâmico para estimular a sua luta.

É, por isso, natural que os encontremos em campanha para tentar derrubar Trump a propósito dos encontros com Kim Jong-un e agora com Vladimir Putin. Porque são encontros em que se falou de paz e desanuviamento.

Muitos somos críticos da imprevisibilidade de Trump, do seu estilo espalha-brasas, das suas atitudes sexistas e racistas. Mas será salutar que esses outros campeões da moralidade e dos bons costumes se definam em relação a tais «compagnons de route»… E que pensem um pouco sobre um quadro internacional em mudança, independentemente da sua vontade, e se estariam de acordo com um golpe de estado em Washington para afastar Trump e reconduzir Obama – precisamente o presidente norte-americano que piores relações manteve com a Rússia?

Os resultados da cimeira de Helsínquia

No final da cimeira de Helsínquia com Donald Trump e Vladimir Putin, ambos revelaram que ela tinha superado as suas expectativas. Foi uma conversa concebida para ser de «aquecimento» para outras conversas mais concretas no futuro, mas acabou por ir mais longe pela «reflexão realizada», disse Putin ao Chanel One da Rússia.

O líder russo descreveu o presidente dos EUA como um «uma pessoa competente», que é capaz de ouvir os argumentos dos outros, e manter-se firme. Um dos exemplos desta atitude foi a abordagem do acordo nuclear com o Irão, que segundo Putin, é para a Rússia uma questão inabalável, devendo mater-se o acordo histórico alcançado.

Os dois líderes concordaram em aprofundar a abordagem de questões tais como a do conflito no leste da Ucrânia e a dos deslocados na Síria. Sobre a Ucrânia, a Rússia e os EUA apresentaram «várias novas ideias», que devem ser discutidas ao «nível de especialistas», segundo Putin.

O presidente russo acredita que Moscovo e Washington estão no caminho certo para a reconciliação política na Síria. O governo sírio já tomou as medidas necessárias para acabar com o conflito e «a bola está agora do lado da oposição», uma vez que ainda não contribuiu para o trabalho do Comité Constitucional, observou Putin. Espera-se que o órgão, apoiado pela ONU, altere ou redija uma constituição inteiramente nova para o país.

Putin e Trump concordaram em fazer esforços «robustos e conjuntos» para fazer regressar os deslocados pelo conflito sírio a suas casas. Segundo Putin, o governo sírio controla agora territórios que acomodam cerca de 90% da população do país e os refugiados devem ser encorajados a regressar. Grande número de refugiados sírios encontra-se na Turquia e no Líbano, e também podem ir para a Europa, os EUA e para outros países, desde que lhes sejam criadas condições para isso.

Trump referiu que, como já tinham discutido, «a crise na Síria é complexa. Mas a nossa cooperação entre os dois países tem o potencial para salvar centenas de milhares de vidas», disse Trump.

Putin disse que os dois presidentes consideraram necessário trabalhar em conjunto para elaborar todo um complexo dossier político-militar e de desarmamento, que inclua a extensão do Tratado de Redução de Armas Estratégicas, a situação perigosa em torno do desenvolvimento de elementos do sistema global de defesa antimísseis americana e a implementação do Tratado sobre a Eliminação de Mísseis de Alcance Intermédio e de Menor Alcance, bem como evitar que armas sejam colocadas no espaço.

Por seu lado, o presidente norte-americano, Donald Trump, descreveu o encontro com o presidente russo, Vladimir Putin, como «um bom começo», depois do encontro de mais de duas horas na passada segunda-feira.

Mesmo antes de se encontrar com Putin, Trump disse que os EUA e a Rússia acabarão por ter um «relacionamento extraordinário», apesar das dificuldades actuais, acrescentando que «acho que o mundo quer ver-nos a dar-mo-nos bem». Antes de sua conversa com Putin, Trump disse a repórteres que pretendia discutir "tudo, do comércio ao militar, mísseis nucleares até a China".

Também antes da cimeira, Trump culpou administrações anteriores pela deterioração das relações entre os EUA e a Rússia, tweetando: «O nosso relacionamento com a Rússia nunca foi pior graças a muitos anos de loucuras e estupidez nos EUA e mesmo agora, está em curso uma caça às bruxas», numa referência à investigação do promotor especial Robert Mueller, até ao momento sem resultados concretos, sobre os possíveis laços entre Moscovo e a campanha eleitoral do agora presidente.

A reunião decorreu no meio da oposição de democratas e vários republicanos no seu país que já começaram a acusar Trump de traição e de se ter tornado numa marioneta dos russos…

Na conferência de imprensa conjunta, Vladimir Putin riu-se depois de lhe perguntarem se a Rússia tinha informações comprometedoras sobre Donald Trump e a sua família, respondendo que é absurdo sugerir que Moscovo colecione esse tipo de informação suja com todos os empresários norte-americanos que visitam o país. E continuou «quando Trump veio como empresário, eu nem sabia que ele estava em Moscovo. Quando do Fórum Económico de São Petersburgo, mais de 500 executivos seniores dos EUA vieram à Rússia. Você acha que estamos compilando material comprometedor sobre todos eles? Bem, definitivamente é um absurdo», e convidou o jornalista a libertar-se dele. Trump acrescentou que, se houvesse informações comprometedoras sobre ele, teriam sido publicadas há muito tempo.

Mas a CBS volta à carga com um encontro que só não se realizou por dificuldade de agenda de Putin. Dia, após dia, as reuniões a sós entre os dois e um tradutor russo que poderá ter gravado a conversa para Putin ter Trump na mão, se vão somando a outros episódios seguramente imaginados para descredibilizar o alcance da cimeira. E não param de aparecer loiras da Playboy para queimar Trump…

Passaram depois a esclarecimentos sobre o Nord Stream 2, de 11 mil milhões de dólares, que vai duplicar a actual capacidade anual do gasoduto Nord Stream em 55 mil milhões de metros cúbicos e deverá entrar em operação até ao final do próximo ano.

Depois das acusações de Trump à Alemanha de esta estar a enriquecer a Rússia, ao comprar-lhe gás natural e a aceitar a instalação do novo gasoduto para a Europa – acusações que Merkel já rejeitara afirmando que essa era uma decisão alemã e de mais ninguém – teve grande significado a afirmação de Putin de que a Rússia e os Estados Unidos podem competir e trabalhar juntos no mercado de energia. E prosseguiu dizendo que a Rússia e os EUA são concorrentes nas exportações de petróleo e gás, mas que há espaço para cooperação na regulamentação do mercado de energia, disse o presidente russo Vladimir Putin durante essa conferência de imprensa com Donald Trump, explicitando que «acredito que nós, como as maiores potências de petróleo e gás, poderíamos trabalhar de forma construtiva para regular os mercados internacionais, porque não estamos interessados em quedas bruscas de preços, porque os produtores sofrerão com isso, incluindo os projectos de petróleo e gás de xisto nos Estados Unidos».

Os Estados Unidos são os principais opositores do gasoduto Nord Stream 2, que duplicará os fluxos de gás do gasoduto existente da Rússia para a Alemanha. Trump referiu a preocupação com a «segurança energética europeia» (ficar na mão dos russos) mas também admitiu durante a conferência de imprensa que é uma questão também de competição com o gás natural liquefeito (GNL) dos EUA e que quando a Rússia avança com o gasoduto está a competir com os EUA e que a Rússia é «uma boa concorrente».

Por isso, Putin sugeriu a criação de um grupo de trabalho que juntasse as empresas líderes do sector, quer da Rússia quer dos EUA.

E sublinhou que os trânsitos de gás através da Ucrânia continuarão, apesar da construção do gasoduto Nord Stream 2 da Rússia para a Alemanha, se Moscovo e Kiev conseguirem encontrar uma saída para a disputa legal que mantêm sobre o trânsito de gás no Teatro Arbitral de Estocolmo. Em Junho, a Gazprom russa ganhou um recurso para suspender a apreensão dos seus activos europeus. Quatro meses antes, o tribunal de Estocolmo tinha ordenado que a empresa russa pagasse pelo déficite na entrega de gás à Ucrânia, concedendo à Naftogaz – a empresa estatal ucraniana que trata da extracção de gás e petróleo, 2,6 mil milhões de dólares a título de compensação pelo corte de abastecimento. Os russos acusaram por várias vezes a empresa ucraniana de roubar gás que deveria seguir para a Europa e de não pagar as suas contas normais de acordo com o contrato de fornecimento.

Durante a conferência de imprensa de Helsínquia nesta segunda-feira, o presidente Trump retomou as suas preocupações sobre o gasoduto North Stream noutro tom: «Não tenho certeza que isso seja do interesse da Alemanha ou não, mas essa foi a decisão que eles tomaram».

As economias e as finanças da Rússia e dos EUA

Rússia

A Reuters noticiava no passado dia 15 que um dos maiores bancos da Rússia, o VTB, estava a diminuir a participação das transações em dólares dos EUA no país, já que as pessoas estão a optar pelo rublo russo em relação ao dólar.

«Há uma coisa interessante que eu queria destacar», disse o presidente do VTB, Andrey Kostin, numa reunião do Kremlin com o presidente Vladimir Putin. «Desde o início deste ano, as pessoas parecem estar menos interessadas em fazer depósitos em dólares ou em contrair empréstimos em dólares, em comparação com depósitos e empréstimos em rublos. Acreditamos que este seja um passo importante para a desdolarização do Sector financeiro russo».

Por outro lado, segundo o ministro das Finanças, Anton Siluanov, o Fundo Nacional de Previdência da Rússia vai ser reabastecido em 2,2 biliões de rublos (cerca de 35 mil milhões de dólares) este ano.

Este fundo foi criado depois do Fundo de Estabilização da Federação Russa ter sido dividido em dois fundos de investimento, separados em 2008 – o NWF e o Fundo de Reserva. Este último foi esvaziado até o final de 2017 e deixou o NWF como o único fundo de reserva da Rússia.

O ministro acrescentou que «de acordo com as nossas estimativas, até ao final deste ano, o volume de reposição de reservas será de 2,2 biliões de rublos, que serão creditados ao Fundo Nacional de Assistência Social no ano que vem», e que «no final de 2018, o NWF será de 3,6 biliões de rublos (cerca de 60 mil milhões de dólares)», rematou Siluanov.

O objetivo do fundo é ajudar a equilibrar o orçamento do Fundo de Pensões da Rússia, absorver liquidez excessiva, reduzir a pressão inflacionista e proteger a economia da volatilidade das receitas de exportação de petróleo e gás.

A Rússia também possui reservas estrangeiras, que consistem em moeda estrangeira, participações em Direitos Especiais de Saque (SDR), posição de reserva no FMI e ouro físico. A Rússia tem aumentado as compras de ouro físico. Em Maio as reservas de ouro do país subiram para 1909 toneladas e a participação do ouro subiu para 17,64% no fundo de reserva. Há uma década, as reservas eram de 450 toneladas.

O país efectuou uma grande venda de títulos do Tesouro dos EUA, cerca de 47 mil milhões de dólares em papel, descendo seis posições numa lista dos principais detentores estrangeiros de títulos americanos, como revelaram estatísticas divulgadas em Abril.

Em apenas um mês, a Rússia vendeu 47,4 mil milhões dos 96,1 mil milhões de dólares que o país tinha em títulos do Tesouro dos EUA em Março. As estatísticas mais recentes divulgadas pelo Departamento do Tesouro dos EUA mostraram que, em Abril, a Rússia tinha apenas 48,7 mil milhões de dólares em ativos americanos, ocupando o 22º lugar na lista dos «principais detentores estrangeiros de títulos do Tesouro».

A China, que detém a maior parte dos títulos do Tesouro dos EUA, também vendeu cerca de sete mil milhões de dólares dos seus activos americanos, entre Março e Abril, e agora tem 1,18 mil milhões de dólares investidos em títulos. O Japão, que está em segundo lugar na lista, no mesmo período, vendeu cerca de 12 biliões de dólares, deixando pouco mais de 1 bilião de dólares em cofres dos EUA. A Irlanda, que tinha 300,4 mil milhões em Abril, também conseguiu economizar mais de 17 mil milhões de dólares em activos dos EUA.

Segundo Kostin, especialistas da VTB elaboraram um pacote de propostas para promover ainda mais o rublo nas instituições internacionais. «Acho que precisamos de criar as nossas próprias ferramentas financeiras. Isso serviria como uma proteção adicional para o sector financeiro russo contra choques externos e daria um novo ímpeto ao seu desenvolvimento», acrescentou Kostin. As ferramentas financeiras mencionadas por Kostin são Eurobonds flutuantes, acções e outros derivativos que agora são usados apenas no Ocidente.

A Rússia tem procurado maneiras de diminuir a dependência da moeda americana depois de Washington e os seus aliados terem imposto sanções a Moscovo em 2014. Em Maio, o presidente Putin disse que a Rússia não pode continuar a confiar no sistema financeiro dominado pelo dólar, já que os EUA estão a impor sanções unilaterais, em violação das regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Putin acrescentou que o monopólio do dólar é inseguro e perigoso para a economia global.

«A Rússia não confia o seu ouro a ninguém, os EUA não têm nenhuma barra de ouro russo. O Banco Central da Rússia mantém todo o seu ouro em casa, já que apenas na Rússia ele pode estar completamente seguro», de acordo com Anatoli Aksakov, presidente do Comité da Duma sobre Mercados Financeiros.

Respondendo a uma pergunta sobre a decisão da Turquia de repatriar o seu ouro da Reserva Federal dos EUA, Aksakov disse: «não temos uma reserva de ouro nos EUA, temos apenas reservas de moeda estrangeira no exterior. Ninguém pode pôr as mãos no nosso ouro».

As reservas da Rússia consistem em moeda estrangeira, participações em Direitos Especiais de Saque (SDR), posição de reserva no FMI e ouro físico.

O governo russo quer aumentar as reservas de ouro, já que o Kremlin vê o metal precioso como um refúgio seguro num momento de turbulência geopolítica. A Rússia é o sexto maior proprietário de ouro depois dos Estados Unidos, Alemanha, Itália, França e China. Desde 2000, as reservas de ouro do país aumentaram 500%.

Mas a economia russa roça a estagnação. A Rússia é o principal produtor mundial de petróleo e lidera com o Irão a extensão das reservas de gás natural. Para um país muito dependente dos preços do petróleo e gás (o sector de petróleo e gás corresponde a mais de 60% das exportações da Rússia e contribui com 40% do seu orçamento federal), depois de um período de quebra dos preços do petróleo em 75%, as sanções econômicas impostas pelo Ocidente agravaram os seus problemas internos.

Após o colapso da URSS em 1991 a economia foi privatizada a 70% e no período 1991-1998 a queda do PIB em termos reais foi de 30%. A crise financeira asiática de 1997, com a queda dos preços do petróleo, agravou a situação. Quando assumiu a presidência em 2000, Putin pôs fim ao colapso económico russo, infectado por uma corrupção alarmante, iniciado com Gorbatchev e muito agravado com Ieltsin, procedeu à renacionalização de sectores estratégicos que até então estavam nas mãos dos oligarcas russos, vários dos quais acabariam na prisão pelos crimes económicos cometidos. No início do primeiro mandato realizaram-se algumas reformas económicas importantes, especialmente em termos de impostos e na área de jurisprudência e direitos de propriedade. Isto e o relançamento da projecção internacional do poderio da Rússia a todos os níveis galvanizaram o patriotismo do povo russo.

A necessidade de atrair investimento directo estrangeiro (IDE) foi dificultada pelas sanções económicas impostas pelos EUA, pela UE e por outros países após os referendos de independência da Crimeia e sua integração na Rússia em 2014. Isto devido às penalizações em que incorreriam as empresas que o quisessem fazer. Nessa situação, a Rússia desenvolveu as suas relações com a China. Quando comparado com o mesmo período de 12 meses atrás, o comércio entre os dois países aumentou em cerca de 30% no primeiro trimestre de 2018 e está previsto atingir 100 mil milhões até o final do ano.

A população russa sabe o que o Ocidente, uma vez mais, lhe fez, para vergar a sua soberania. Putin viu a sua oposição reforçada nas eleições presidenciais mas há que diversificar a economia, vencer essa excessiva dependência dos hidrocarbonetos e lutar firmemente contra corrupção.

No seu discurso de posse depois da última eleição, Putin sublinhou que «a principal ameaça e nosso principal inimigo é o facto de estarmos a ficar para trás. Se não conseguirmos reverter essa tendência, ficaremos ainda mais para trás».

A oposição liberal e as revistas de mercados do Ocidente, como a World Finance, para vencer as reservas dos investidores, defendem uma libertação do controlo do Estado sobre importantes sectores.

Estados Unidos

Os EUA cresceram na última década 15,3% em termos reais, mais do que a Zona Euro e a Rússia, mas as empresas da UE podem agir com instrumentos de política económica e de I&D que, a prazo, se traduzam em ganhos de competitividade em relação às norte-americanas.

Trump tem-se declarado insatisfeito com os grandes déficites comerciais mas as multinacionais americanas continuam a deter a posição cimeira nas indústrias, com importante base de tecnologias de informação. Trump tentará acabar com a situação.

Segundo alguns autores, uma «nova era», do comércio e das relações internacionais, poderá pôr um ponto final nas actuais relações dos mercados globalizados, caracterizadas às vezes por uma única empresa (ou muito poucas) fornecedora de produtos essenciais para a cadeia de produção global. E isso exigirá o relançamento do investimento público em sectores produtivos, com novas empresas públicas que invistam muito ao longo de anos em vez de se esvaírem no pagamento das dívidas e seus juros. Um caminho que se traduzirá numa redução das trocas comerciais a nível global, com menos economias de escala mas com uma maior concorrência em indústrias básicas, mais emprego qualificado, e mais inovação. As relações comerciais entre países, contrariando todos os catastrofismos do liberalismo do mercado, poderão ser até mais interessantes, em termos de resultados, de regulamentação e de cooperação que cimentem uma melhoria de relações entre ambos.

Porém os EUA encontram dificuldades. Não modernizaram o essencial da capacidade produtiva desde os anos 50, optaram por uma mentalidade colonial para se apropriar de matérias-primas de outros países e confortaram-se com o domínio do comércio mundial, através da OMC, por força do dólar como moeda indiscutível do sistema. E entregaram-se à expansão financeira mundial através do FMI. Talvez achassem suficiente vender armas e medicamentos para todo o mundo a preços proibitivos. E deixaram uma parte significativa da população na miséria, sem acesso a um sistema de saúde abocanhado desde as suas origens pelas seguradoras para aqueles que pudessem pagar. Os EUA têm coisas maravilhosas mas vivem em grande parte deprimidos. Sem defesas face aos grandes bancos e notadoras financeiras os EUA permitiram o subprime com as consequências universais que isso viria a ter, e que ainda estamos a sofrer.

Trump ter-se-á apercebido deste abismo para que os EUA estavam a ser arrastados e procura tomar medidas, mas com uma volatilidade preocupante no discurso, que não inspira confiança. O responsável mais recente por este descalabro dos EUA, Barack Obama, trabalha com uma rede de grandes grupos económicos e mediáticos para o abater.

Trump estará atento a isso. Mas uma perspectiva de entendimento com a China, de que os EUA beneficiassem, parece impor-se em vez dos gestos desabridos. E a China já fez saber que em vez duma guerra comercial haverá campo para a cooperação.

Conclusão

A «nova era» nas relações internacionais, de que alguns falam, tem seguramente uma forte componente de ficção. Mas existem realidades que já poderão suportar essa perspectiva. O crescimento económico, o desenvolvimento e o papel regional de grandes países emergentes é uma delas. A multiplicidade de pólos de poder regionais será outra. A expansão da China, com uma multiplicidade, à escala global, de acordos mutuamente vantajosos com muitas dezenas de países de todos os continentes, indo definindo ou consolidando novas rotas comerciais (cinturões), é uma outra. O fim da guerra na Síria também.

Mas há que construir novos entendimentos regionais no Médio Oriente que façam recuar a agressividade contra o Irão e a Síria. Conter a agressividade de Israel. A remoção da NATO da sua ameaça ao território russo e a normalização das relações da UE com a Rússia. A liquidação de vários grupos terroristas e o fim do envolvimento dos estados na sua criação e acção terá de continuar. Entre outros aspectos, que não desenvolveremos, a UE e a ONU têm que conduzir, com a cooperação de outros países, uma política de imigração que contemple um melhor e mais vasto acolhimento com o investimento produtivo nos países que mais emigração económica fornecem.

Mas novas relações internacionais terão de assentar em políticas nacionais onde o trabalho seja revalorizado, se aumente o seu rendimento e estabilidade, se eliminem as causas de fortes assimetrias sociais e regionais, os conflitos étnicos em geral desencadeados a partir de terceiros interesses, se invista decididamente em indústrias e serviços estratégicos, na saúde e educação públicas.

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