Podia ser mais um álbum de rap, mas isso não seria um trabalho de Vince Staples. Cry Baby é o sétimo álbum do rapper oriundo da Califórnia e se nos outros álbuns a violência estrutural dos EUA e os impactos da mesma no indivíduo eram tema recorrente, neste novo trabalho a questão vai mais longe, o que revela o próprio processo de amadurecimento na reflexão do artista.
A verdade é que, por coincidência ou não, a componente política adensou-se no mesmo momento em que Vince Staples se libertou da sua antiga editora, a Def Jam Records, sucursal do grande grupo monopolista Universal Music Group, e a caracterização feita dos EUA e da política que dirige o país nunca foi tão certeira. Este álbum de Vince Staples é rap, é punk, mas é mais, muito mais.
Logo a abrir, no primeiro verso da primeira música, em Blackberry Marmalade, Vince Staples denuncia os «impérios erguidos sobre solo manchado de sangue» e o racismo daqueles que se dizem «anti-sistema» numa clara referencia aos integrantes do movimento trumpista MAGA: «Os brancos esvaziaram-me os bolsos com impostos, disseram que me tornaram rico (sim) / Os brancos roubaram o som e a alma / Depois encurralaram-me e puseram as minhas coisas na prateleira / Como os homens negros».
Já na segunda faixa do álbum, a Go! Go! Gorilla, Vince aborda a brutalidade policial e a narrativa da comunicação social, questionando se está a ser «assediado ou detido» por ter as mãos acorrentadas atrás das costas simplesmente porque não tem os dados actualizados e o facto noticiado ser sempre que o jovem negro tem sempre um arma consigo.
Esta segunda música vai mais longe, porém. Com «passámos das filas do pão às linhas de piquete e à pena de prisão por crimes que cometemos / Mas o genocídio não significa nada para o Tio Sam / Acho que é digno na América», o jovem rapper relembra a divisão criada entre trabalhadores quando os negros não se podiam juntar aos sindicatos e eram contratados pelos patrões para substituir trabalhadores em greve, ficando mal vistos por estes. Este verso vai ainda mais longe e invoca a política de encarceramento que prende e mata negros em massa nos EUA, considerando-o «genocidio», no entanto aceite no país.
O pináculo do álbum está em duas faixas: TV Guide e Only in America. Na primeira, a televisão é utilizada como metáfora para os meios de comunicação social que manipula as massas com narrativas criadas para manter um sistema de opressão, especialmente os afro-americanos: «Acordei, liguei a televisão, adormeci a ver televisão / Notícias de última hora na televisão, deve ser verdade, está na televisão / Apaziguado pela televisão, com os olhos colados à televisão / Execuções e poluição mental, em direto na televisão». Já em Only in America, Vince recorre ao sarcasmo enquanto exalta os EUA e, simultaneamente, desmasca a falácia da liberdade, denunciando o tratamento dado aos nativos e aos afro-americanos desde as épocas do tráfico de escravos.
Já se sabia que Vince Staples tinha uma atitude punk. Agora foi a vez do rapper recorrer ao punk para amplificar a sua mensagem. Quando o meio do seu género musical devia ser vocal na denúncia de uma América cada vez mais desigual e opressora, mas se imiscui, Vince Staples decidiu chegar-se à frente para incendiar tudo. Em vez de dizermos «god bless America» devemos dizer «god bless Vince Staples».
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