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«Raiva»: Ninguém Transforma o Mundo Sozinho (II)

A violência irrompe logo no início. António Palma, conhecido como Palma, mata o latifundiário e um dos seus filhos e depois refugia-se em casa, onde é morto pela GNR.

Fotograma do filme <em>Raiva</em> (2018), do realizador Sérgio Tréfaut
Fotograma do filme Raiva (2018), do realizador Sérgio TréfautCréditos / Faux

O filme começa com uma cena interior e familiar. O fogo da lareira ilumina uma tosca mesa de madeira, com um pão e uma tigela onde é deitada água. Nela está sentada Amanda Carrusca que passou toda a sua longa vida rodeada por estas tarefas quotidianas. A água era escassa nesta região seca. A açorda alentejana, feita quase apenas com estes ingredientes, com praticamente nada, é um prato que resulta da situação de pobreza em que o povo vivia na região do Alentejo. O cante alentejano utilizado no filme, por exemplo na sequência de contrabando, também expressa a mesma realidade. Isto é, a comida não pode ser desligada da história social. Aqui trata-se também da comida que não há, do pão que falta. Raiva, que não por acaso esteve para se chamar O Pão, trabalha a partir dessa noção de escassez que estende a todos os elementos fílmicos. Basta reparar no laconismo verbal.

No mesmo sentido, a fotografia a preto e branco merece destaque pela sua clareza minimalista. Acácio de Almeida é um nome sobejamente conhecido. Dirigiu a fotografia de O Cerco (1970) de António da Cunha Telles, Trás-os-Montes (1976) de António Reis e Margarida Cordeiro, A Ilha dos Amores (1982) de Paulo Rocha, Um Adeus Português (1986) de João Botelho, entre outros filmes fundamentais do cinema português. Ou seja, trabalhou com os nossos realizadores mais relevantes. Como explicou Tréfaut: «O preto e branco é, para mim, a forma de melhor respeitar o espírito da história e do livro. Cheguei a fazer testes de imagem a cores, no Alentejo, mas tudo soava a falso.» É também pela fotografia que passa a evocação de uma série de referências cinematográficas, ambientes, imagens, composições, que o filme vai utilizando e integrando — de A Palavra (Ordet, 1955) de Carl T. Dreyer a A Terra (Zemlya, 1930) de Aleksandr Dovzhenko, passando por Vidas Secas (1963) de Nelson Pereira dos Santos e Um Cão Andaluz (Un chien andalou, 1928) de Luís Buñuel.

A violência irrompe logo no início. António Palma, conhecido como Palma, mata o latifundiário e um dos seus filhos e depois refugia-se em casa, onde é morto pela GNR. Tal como o livro, o filme retrata a vida difícil da família Palma, que habita numa pequena vila onde a força das famílias ricas oprime terrivelmente os camponeses. Acusado injustamente de roubo pelo dono das terras onde trabalhava, António tinha ficado desempregado e decidiu enveredar pelo contrabando entre Espanha e Portugal, apesar dos protestos da filha. Mas o grande proprietário tenta impedir que até o contrabando esteja acessível ao homem que ousou desafiá-lo. A sua mulher, Júlia, enganada num interrogatório policial, acaba por denunciar o marido de uma forma quase casual e suicida-se mais tarde na cela. Raiva vai-se tornando cada vez mais lúgubre e nocturno depois do funeral de Júlia. Sob o peso de todos estes acontecimentos, Palma sai armado de casa para ajustar contas.

A reorganização da ordem do enredo que o filme opera — mostrar o fim da narrativa e depois voltar atrás para desvendar o que o propiciou — contrasta com a estrutura linear do romance que corre como o vento numa seara. Interessa ao filme fixar primeiro a raiva de António para lançar a pergunta: como chegou Palma a este sentimento furioso? Se no livro há um crescendo, no filme há um esvaziamento que rima com a referida escassez.

A densidade das personagens é construída a partir da sua relação distinta com o contexto agitado e conflituoso, mesmo que os conflitos sejam encobertos ou abafados. Mais uma vez, o discurso do realizador é muito elucidativo: «Reduzi os diálogos ao mínimo, procurando que o filme funcionasse como uma fábula, sem explicações, sem falas. Procurei caras e corpos que dissessem tudo e fossem extremamente expressivas.» Tréfaut chegou a pensar em Javier Bardem para o protagonista, mas seria demasiado caro contratá-lo. Teve de considerar alguém português e acabou por escolher um actor não-profissional: Hugo Bentes, técnico municipal que trabalha nas áreas da produção e do som, membro de grupos corais alentejanos. Conheceu-o quando filmava Alentejo, Alentejo.

Para o realizador, foi importante o facto de Bentes ter crescido nas zonas rurais alentejanas e de representar «de certa forma, a herança desse orgulho que resistiu à ditadura nos campos do Alentejo.» Além disso, tinha qualidades físicas para o papel: era encorpado por ter sido jogador profissional de futebol, estava à vontade com o manuseamento de armas, e tinha experiência como segurança. O Palma de Raiva tem um porte que carrega consigo o conflito entre a necessidade do contrabando perante a sua família e o seu desejo de ganhar a vida de forma honesta. A contrabandista Mira (Lia Gama) não nega a força que ele tem, mas diz-lhe que ele fala demais.

Fotograma do filme Raiva (2018), do realizador Sérgio Tréfaut Créditos

Em relação a quem interpreta as outras personagens, Tréfaut comenta que a escolha foi igualmente intuitiva: «Vieram do cinema português, do teatro, da televisão, da rua.» A única actriz previamente escolhida foi Isabel Ruth como Amanda. Júlia (Leonor Silveira), a esposa de Palma, é uma presença quase invisível, passiva, tendencialmente ausente, resignada ao destino que julga que Deus lhe guardou. Amanda, a mãe de Júlia, é uma figura que vem de um passado de dentes cerrados e parece perceber melhor a ira de Palma do que as outras pessoas que vivem com ele — o que torna patente o dilema do protagonista, entre a reprodução dos gestos do passado e as acções que o presente exige.

Mariana (Rita Cabaço), filha do casal, é a personagem mais serena e paciente, com um entendimento daquilo que os tempos reclamam e uma acção consequente na luta organizada dos trabalhadores camponeses. É ela que diz a Palma quando ele afirma que as coisas vão mudar: «Está a cavar o seu próprio túmulo, pai. Não vai conseguir isso sozinho.» Ela é das poucas que tem consciência de que ninguém transforma o mundo sozinho. Bento (Kaio César) é o irmão mais novo de Mariana, com deficiência física e mental e sem o apoio de que necessita para ter uma vida que seja o mais confortável e saudável possível.

A encenação cinematográfica insiste nos motivos naturais, procurando incluir a paisagem e os seus habitantes num conjunto de acontecimentos mais alargado. Os animais vão pontuando o filme e reflectindo o seu desenvolvimento narrativo. Vemos um abutre a comer um coelho depois da visita de João (Adriano Luz) para dar os pêsames pelo suicídio do pai de Palma. É um homem debilitado pela servidão que não queria ser despedido como aconteceu a Palma e envergonhado por ser cúmplice das atrocidades cometidas pela classe dominante. Depois da detenção de Palma e antes do suicídio de Júlia, surge uma aranha a tecer uma teia como se estivesse a ligar as várias pontas da história. Finalmente, aparece uma águia que é associada à repressão da GNR e à influência da família Sobral. Elias Sobral (Diogo Dória), oponente de Palma, é um homem arrogante e implacável. Tem acesso directo ao poder e à autoridade das forças de segurança e coloca-as ao seu serviço sempre que considera necessário.

Fotograma do filme Raiva (2018), do realizador Sérgio Tréfaut Créditos

Depois do confronto entre Elias e Palma com o pretexto do contrabando, a mulher de Elias, Clara (Marília Villaverde Cabral), diz-lhe: «Chegaram tão tarde, até pensei que se tinham esquecido da Missa.» Esta observação é uma indicação do afastamento (pelo que é dito), mas também da proximidade (por quem o diz) entre o catolicismo e a opressão. Na cena da Missa, Lina Sobral (Catarina Wallenstein), canta com uma velha camponesa no altar da igreja e essa imagem condensa o modo como, em nome de uma igualdade abstracta, as celebrações religiosas se podem tornar um branqueamento da desigualdade. Na homília, o padre interpretado por Herman José, com uma apurada afectação, fala sobre o Reino dos Céus, mas recusa-se a falar sobre o inferno na terra:

Irmãos, as escrituras dizem que aquele que descer aos infernos, aos céus já não voltará a subir. Se nos mancharmos, se não vivermos imaculados não teremos entrada na Casa do Senhor. Temos sempre de escolher entre o céu e o inferno.

Raiva triunfou nos prémios Sophia, atribuídos pela Academia Portuguesa de Cinema. Na edição de 2019, venceu os galardões de Melhor Filme, Melhor Actriz Principal (Isabel Ruth), Melhor Actor Principal (Hugo Bentes), Melhor Actor Secundário (Adriano Luz), Melhor Argumento Adaptado (Tréfaut e Fátima Ribeiro), e Melhor Direcção de Fotografia. Em 2018, ganhou ainda o Prémio do Júri Internacional da Federação de Cineclubes da Rússia «Keen Eyes» e o Prémio da Imprensa Independente – Jornal Kommersant no Festival Internacional de Cinema de Moscovo em 2018 e o Prémio Tejo Internacional – Prémio do Público no festival Periferias, que decorre em Marvão (Portugal) e Valência de Alcântara (Espanha). Foi mostrado em festivais de cinema na Alemanha, na Bélgica, no Brasil, em Espanha, e em Itália. Teve honras de encerramento do IndieLisboa 2018.

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