|Sofia Lisboa

Quem é, afinal, o «Inimigo do Povo»?

Muitos dos que assistiram a Um Inimigo do Povo, no CCB, provavelmente já pensavam aquilo que o espectáculo lhes veio dizer. Talvez fosse mais urgente que vissem o espectáculo aqueles que realmente acreditam que o imigrante é o inimigo.

CréditosManuel de Almeida / Agência Lusa

O espectáculo Um Inimigo do Povo, apresentado no Centro Cultural de Belém numa referência directa ao texto homónimo de Henrik Ibsen, estreou no passado dia 12 de Março. Mas a sua história começou antes: a 19 de Dezembro de 2024. Nesse dia, a Polícia de Segurança Pública realizou uma operação na Rua do Benformoso, em Lisboa, durante a qual cerca de 60 imigrantes foram obrigados a encostar-se a uma parede, mãos acima da cabeça, onde permaneceram durante quase duas horas enquanto eram identificados e revistados. As imagens circularam rapidamente nas redes sociais e nos noticiários: uma fila de corpos imóveis, comprimidos contra a parede de cimento, sob o olhar atento de agentes armados.

Foi a partir desse episódio que o encenador Marco Martins começou a pensar o espectáculo. Durante meses, o projecto foi aguardado por muitos como um momento de resposta simbólica àquela cena que ainda permanecia fresca na memória colectiva, em que a autoridade policial pareceu ensaiar um exercício de demonstração de força que piscava o olho aos que acreditam que a desordem do país tem um responsável inequívoco: o imigrante.

Dir-se-ia, portanto, que esta produção artística vinha repor alguma medida na balança. E, de certa forma, veio. Marco Martins procurou alguns dos homens e mulheres que estiveram naquela operação, sentou-se com eles, ouviu-lhes as histórias e trouxe-as para dentro do teatro. O espectáculo constrói-se, assim, como uma sucessão de narrativas de vida que poderiam ter começado em muitos lugares diferentes do planeta e que acabam por se parecer entre si de uma forma desconcertante: pobreza, violência, sonhos e a ideia obstinada de que talvez do outro lado do mundo exista um lugar onde seja possível viver com dignidade e oferecer aos filhos um ponto de partida menos duro do que aquele de onde se partiu.

A língua e a cultura pesam, e ninguém negará que essas diferenças tornam estas pessoas mais facilmente «outrificáveis», mais distantes, mais vulneráveis ao olhar de quem opta por explicar o desalento do presente com a existência de um culpado estrangeiro. Mas se retirarmos as palavras que não compreendemos e ficarmos apenas com a estrutura das histórias, veremos que não são assim tão diferentes das histórias de tantos portugueses que também partiram, ou partem ainda, levando na mala aquilo que cabe entre o medo e a esperança.

No entanto, como acontece tantas vezes com o teatro que se aproxima demasiado da vida, as perguntas começaram a multiplicar-se. Numa cena particularmente forte, o actor Rodrigo Tomás pergunta repetidamente, àqueles imigrantes com quem partilha o palco, «quem é que te contratou?», e a actriz Rita Cabaço responde: «nós sabemos quem o contratou». Será apenas uma referência ao texto de Henrik Ibsen ou uma suspeita lançada sobre a própria arquitectura do discurso público, sobre quem beneficia do facto de as coisas serem desta forma?

Umas cenas antes, como que cortando a narrativa que nos levava a conhecer as várias personagens em cena, Rita Cabaço explode, aponta o dedo à plateia e fala de cumplicidade colectiva, mas não é evidente a quem se dirige aquele gesto. Ao público sentado nas cadeiras confortáveis do CCB? Ao país inteiro? Ou aos responsáveis políticos que, ao longo de décadas, foram construindo este lugar estranho onde convivem a necessidade económica de imigração e a ligeireza moral de a transformar em bode expiatório?

Talvez a resposta seja todas essas coisas ao mesmo tempo. Mas isso não impede outra pergunta, mais incómoda, de se instalar: por que razão ficamos tão satisfeitos com este tipo de retroalimentação moral, este circuito fechado onde pessoas que partilham valores semelhantes se encontram para confirmá-los umas às outras, saindo depois com a consciência um pouco mais leve, como quem cumpriu um ritual cívico antes de regressar ao conformismo confortável do quotidiano?

«A quem batemos palmas afinal? À coragem de quem contou a sua história? À habilidade artística de quem a encenou? Ou à nossa própria capacidade de escutar durante duas horas aquilo que, lá fora, raramente nos dispomos a ouvir?»

 

É difícil afastar a sensação de que muitos dos que ali estavam já pensavam aquilo que o espectáculo lhes veio dizer. Talvez fosse mais urgente, mais perturbador e provavelmente mais útil, que este trabalho – meritório, sensível e necessário – pudesse ser visto por aqueles que realmente acreditam que o imigrante é o inimigo: por aqueles que não entram nas salas do Centro Cultural de Belém, mas habitam lugares como a rua do Benformoso e outros bairros onde esta realidade é muito mais concreta.

Se este espectáculo fosse realmente pensado para aqueles portugueses que vivem nesses bairros onde a convivência com a imigração é diária – e onde muitas vezes germina um ressentimento que não é difícil de compreender – talvez fosse necessário acrescentar mais algumas camadas à conversa. Para quem espera meses por uma consulta no centro de saúde, para quem não encontra vaga na creche para os filhos ou para quem atravessa situações de pobreza sem ver chegar apoios sociais minimamente dignos, o mal-estar não nasce do nada. E nesse caso talvez fosse preciso explicar melhor a quem serve afinal a importação de mão-de-obra imigrante, que ao mesmo tempo a intimida e a mantém num estado de permanente vulnerabilidade: para que tenha mais medo, para que aceite salários mais baixos e menos direitos, e para que, através desse mecanismo, também arraste para baixo os trabalhadores portugueses numa espiral de exploração cada vez mais generalizada. No fim de contas, uns e outros são exactamente a mesma coisa: pessoas que vivem de vender a sua força de trabalho. Se este espectáculo fosse realmente para esses, talvez tivéssemos de nos dar ao trabalho de os ouvir.

E há ainda uma última questão: como podem assistir a este espectáculo aqueles de quem o espectáculo fala? Quantos dos imigrantes que partilharam histórias de vida poderão sentar-se na plateia e vê-las devolvidas sob a forma de teatro, quando o preço de entrada e a breve duração de quatro récitas tornam essa possibilidade quase simbólica? A quem batemos palmas afinal? À coragem de quem contou a sua história? À habilidade artística de quem a encenou? Ou à nossa própria capacidade de escutar durante duas horas aquilo que, lá fora, raramente nos dispomos a ouvir?

É possível que cada espectador tenha saído com uma resposta diferente. Mas suspeito que, para a grande maioria, o caminho de regresso tenha sido relativamente curto: a porta abre-se e, pouco depois, estaremos de novo instalados no rame-rame das nossas indignações circunstanciais e selectivas, aquelas que começam com uma notícia na televisão ou com uma manchete do Público e terminam assim que surge o assunto seguinte.

Talvez seja essa a verdadeira ironia do título Um Inimigo do Povo: não sabemos bem quem ele é, nem se estamos realmente dispostos a lutar contra ele, até porque pode muito bem estar sentado na cadeira ao lado da nossa, com um daqueles convites que nunca faltam a quem circula pelas salas de espectáculo e pelos cargos de poder.

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