|Sofia Lisboa

Benedita e a Beleza de Matar Comunistas

Por vezes, a realidade apresenta-se de forma tão crua que dispensa interpretações. Basta ouvir. Foi isso que aconteceu com a intervenção de Margarida Bentes Penedo na última Assembleia Municipal de Lisboa.

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Mais do que uma declaração política, foi um esclarecimento. Um daqueles raros momentos em que o poder da força bruta diz, sem rodeios, ao que vem.

Quem a ouvisse, sem contexto, poderia pensar que os lisboetas decidiram, em pleno uso da sua vontade democrática, entregar a gestão da Cultura à extrema-direita. «Agora é a nossa vez, habituem-se», afirmou. Como se a cidade tivesse sido chamada a sufragar esse programa, como se tivesse havido um debate claro, frontal, sobre o que significa colocar a política cultural ao serviço de uma lógica de exclusão e ajuste de contas. Mas não. Formalmente, a Câmara de Lisboa ainda não é dirigida por uma coligação com a extrema-direita, ao contrário do que a deputada do Chega parece confessar.

Por outro lado, o cinismo com que a deputada afirma que nos devemos habituar poderia levar-nos a crer que também o programa eleitoral de Carlos Moedas defendia que os equipamentos culturais deveriam ser expurgados de qualquer projeto que desse visibilidade a grupos marginalizados ou à memória da resistência antifascista. Mas não foi isso que foi a votos. O que foi a votos foi outra coisa, porque é sempre outra coisa: «cultura para todos», «um teatro em cada bairro», «apoio ao tecido associativo», «uma cidade viva que não se esgota em grandes eventos», porque este é um executivo que «não pode ser acusado de se render à lógica da montra». Foi essa promessa que se apresentou aos eleitores. Foi esse horizonte que mobilizou votos. E, no entanto, é outro programa que agora se executa – um programa que nunca foi claramente sufragado, mas que surge, afinal, como o verdadeiro.

E aqui começa a segunda ilusão que importa desmontar: a de que democracia é apenas votar. Votar, e depois aceitar o que vem mesmo que seja o que afinal só estava escrito nas entrelinhas. Votar, e depois assistir à substituição silenciosa do programa sufragado por outro, não declarado, mas – dizem-nos agora – perfeitamente conhecido. Como se a responsabilidade da fraude recaísse, não sobre quem a comete uma e outra vez, mas sobre quem nela acredita, uma e outra vez.

«Deviam saber melhor», parece ser a mensagem. Como se o eleitorado tivesse a obrigação de adivinhar o que não foi dito. Como se existisse um programa oculto, pairando sobre cada eleição, que todos conhecem mas ninguém assume, excepto quando chega o momento de exercer o poder.

E quando esse momento chega, não há espaço para interpelar, questionar, exigir coisa nenhuma. Não há explicações a dar, nem legitimidade a reconhecer à participação cívica que se organiza em petições, movimentos ou protestos. Tudo isso é descartado com um gesto de desdém, como fez, na mesma assembleia, o vice-presidente da Câmara, Gonçalo Reis, aborrecido com tanta carta aberta: não adianta, porque tudo o que se está a decidir sem dar justificações é perfeitamente normal. A política faz-se assim. Sempre foi assim, a «esquerda» faz a mesma coisa, acrescentam com um ar cínico, como se não estivessem fartos de almoçar e jantar com essa «esquerda» com quem vão trocando de cadeiras. E agora, «agora é a nossa vez».

«A pergunta retórica pretende encerrar a discussão. Mas o que ela verdadeiramente faz é outra coisa: estabelece, à frente de todos, uma equivalência que dificilmente pode passar despercebida: neste cenário, eles são os fascistas.»

 

Há, pelo menos, uma honestidade brutal nesta posição. Ao contrário de outros tempos, em que estas práticas se escondiam sob camadas de linguagem institucional, hoje os eleitos da extrema-direita dizem-no sem pudor. A cultura não é um direito, nem um espaço de pluralidade: é um instrumento. E, como tal, não será financiada se «se opõe» a quem governa a cidade. A regra é simples, directa, e dispensa eufemismos. Podem sempre tentar viver da bilheteira…

E, no entanto, a clareza não impede o absurdo – por vezes, até o expõe com maior nitidez. No mesmo registo, Margarida Bentes Penedo procurou ilustrar o seu argumento com um exemplo que, longe de o sustentar, acaba por revelar o que nele está implícito: «imaginem que a esquerda estava no poder e um grupo de teatro experimental fazia uma peça chamada "Lourenço ou Benedita e a beleza de matar comunistas". Estava-se mesmo a ver o financiamento, não estava?»

A pergunta retórica pretende encerrar a discussão. Mas o que ela verdadeiramente faz é outra coisa: estabelece, à frente de todos, uma equivalência que dificilmente pode passar despercebida: neste cenário, eles são os fascistas.

E o mais inquietante, no fim das contas, não é sequer aquilo que está a ser dito. É o silêncio de quem ouve tudo isto sem se dar ao trabalho de se distanciar. A passividade de quem ocupa o poder executivo, a ausência de contraditório, a normalização do discurso. Porque, como bem lembra o povo, quem cala consente. E esse silêncio não é neutro. É o espaço onde se reconstrói a velha ordem das coisas – a do poder entendido como propriedade natural de alguns, legitimado pela força, pelo dinheiro e pelo controlo simbólico.

Neste quadro, votar de quatro em quatro anos surge quase como uma concessão. Um ritual necessário para manter a aparência, uma formalidade que sustenta o edifício enquanto, por dentro, os seus fundamentos se vão esvaziando. E talvez seja por isso que esse direito permanece intocável: porque é o último que pode cair sem que tudo o resto tenha já desaparecido.

A questão, então, impõe-se: o que estamos dispostos a aceitar como democracia? Um sistema onde se vota, mas não se decide? Onde se promete uma coisa e se executa outra? Onde a participação política se esgota no boletim de voto, e tudo o que vem depois é absolutamente irrelevante?

Queríamos discutir políticas culturais. Queríamos discutir prioridades, modelos, escolhas. Queríamos, no fundo, fazer política, no sentido mais elementar do termo. Mas parece que isso é democracia a mais para a democracia em que vivemos. 

Pelo menos por enquanto.

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