Manuel Augusto Araújo vira a página da semana antes das autárquicas

O voto é também um acto cultural

Rei Lear é uma história que foi repetidas vezes contada em crónicas e romances a que o grande dramaturgo inglês deu forma definitiva e genial, irrompendo pelos bastidores da história de que o mundo só acaba por captar os efeitos exteriores.

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«Rei Lear» de William Shakespeare, Ensemble-Sociedade de Actores
«Rei Lear» de William Shakespeare, Ensemble-Sociedade de ActoresCréditosTuna / CCB

Depois da silly season em Agosto, a rentrée em Setembro, duas invenções da intelligentsia política e seus apaniguados numa tonta tentativa de sistematizarem os calendários anuais por ciclos no que são desmentidas pela realidade, pelo curso dos acontecimentos. 

Aqui e em todo o mundo os relógios da história não param, desdizem com fragor que os fogos da política, das lutas, das guerras, andem em contraciclo com os fogos estivais, como se quase se extinguissem no pico do verão e se reacendessem nos princípios de setembro. Como se o curso da história fosse de férias e as lutas sociais se acalmassem com protetores solares. Exemplos que contrariam essas visões não minguam.

No plano internacional, no continente americano, o contra-ataque da reacção e a resistência às mais diversificadas manobras, não teve pausas, basta olhar para a Venezuela, Argentina ou Brasil.

No Médio-Oriente um significativo avanço no terreno das forças sírias e seus aliados com a conquista de Deir ez-Zor colocam o Estado Islâmico à beira da derrota, mas sobretudo significam para a chamada oposição democrática o confrontar-se com a sua irrelevância, como o delegado da ONU, Staffan de Mistura, numa curiosa declaração citada pela Reuters sublinhou «a oposição será capaz de se mostrar unida e realista para admitir que não ganhou a guerra?» 

Quer dizer a eminente derrota do Estado Islâmico e da Al-Qaeda na Síria, mas também no Iraque com a anunciada queda de Raqqa, afinal também é a derrota dos «democratas» tão acarinhados pelos EUA e seus aliados. O rabo do gato da hipocrisia e cinismo político do Ocidente está cada vez mais à vista, mais gordo e mais evidente.

No Extremo-Oriente, a retórica da guerra entre a Coreia do Norte e os EUA não conhece travões, mau grado a sensatez que aí querem introduzir a China e a Rússia e mesmo o presidente da Coreia do Sul, apelando para uma solução diplomática que baixe a temperatura das tensões.

A silly season e a rentrée são passadas a ferro pela realidade, que se não entra pela porta entra pela janela.

Por cá também o foram pelas lutas dos trabalhadores que não ficaram à espera da rentrée para fazerem uma greve histórica na Autoeuropa, para lutar pelos seus direitos na Altice, na hotelaria e em muitas outras empresas.

Os partidos políticos também à silly season e à rentrée disseram nada, embora tivessem momentos mais activos como a Universidade de Verão do PSD, que este ano ficou ao rubro com a ressurreição e a assunção de múmias fazendo ouvir as suas vozes pregando no deserto das suas ideias, para dar uns safanões em políticas velhas e relhas a ver se ainda mexem, o que é sempre muito acarinhado por uma comunicação social estipendiada, como se pode medir, sem fas nem nefas, pelos tempos de antena e pelos espaços concedidos na imprensa escrita e on-line se comparados com iniciativas do PCP como a Festa do Avante!.

Feitas estas notas, algumas sugestões culturais.

Comece-se pela Festa do Avante! onde, desde a primeira edição, política e cultura persistem em se cruzar de forma consistente e sempre inovadora. Destaque-se o número 25 do Caderno Vermelho. Dois temas principais: Autárquicas 2017; 100 Anos da Revolução de Outubro.



Capa da 25.ª edição

Sendo uma revista do Sector Intelectual da Organização Regional de Lisboa do PCP, nas autárquicas o realce vai naturalmente para Lisboa. Excelentes textos de João Ferreira, cabeça de lista da CDU, «Lisboa – O Direito à Cidade», Ana Jara, «A Lisboa Pós-Salgado 2007-2017», e Filipe Diniz, «Arquitectura, Cidade, Neoliberalismo».

Sobre a Revolução de Outubro, textos também excelentes de vários autores não só sobre a enorme explosão criativa e de liberdade criativa desse tempo exaltante nas artes, cinema, teatro, música, poesia, literatura, mas também nas ciências, tecnologia, matemática, como é sublinhado no editorial de Manuel Gusmão: «A revolução cultural que a Revolução de Outubro também é, marca a capacidade de actuar de forma criadora uma construção antropológica a partir de realizações artísticas, cientifícas e culturais. O seu carácter inaugural permite compreender o valor que é atribuído ao longo destes cem anos e o valor quase utópico que no quadro da teoria comunista é reservado ao sonho social de que todoo cidadão deve ser uma artista.»

O Caderno Vermelho 25, em Lisboa está à venda na banca de livros do Centro Vitória do PCP, na Avenida da Liberdade, uma porta aberta aos lisboetas que não devem perder a oportunidade de o adquirirem para umas horas de leitura que não são um desbarato de tempo.

Nos livros, o grande destaque vai para As Veias Abertas da América Latina de Eduardo Galeano, finalmente publicado em Portugal pela Antígona, Editores Refractários. É a denúncia esclarecida e implacável sobre cinco séculos de exploração e pilhagem do continente americano desde os primeiros conquistadores europeus às multinacionais norte-americanas.

Contra a exploração do homem pelo homem e da redução do mundo a um mercado, Eduardo Galeano, com uma escrita luminosa e empolgante, faz uma acusação de como os mandantes da exploração capitalista, seus serventuários e cúmplices, da fase primitiva à actual, dominam os países do sul impondo-lhes um mundo onde os fazem entrar pelas pequenas e estreitas portas dos fundos mas em que devem acreditar, acreditando nas virtudes da liberdade de comércio e na livre circulação dos bens, embora seja uma mentira que faria o nariz do pinóquio ultrapassar todas as galáxias, em que têm que honrar dívidas que lhes são impostas por mais desonrosas que sejam, em que são obrigados, para sobreviver, a atrair investimentos por mais indignos que sejam, que são coagidos a subsidiar. 

Um mundo controlado pela livre concorrência dos mercados que nada tem de livre, bem pelo contrário tem rédea bem curta, mais que comandada por quem tudo desregula a seu favor com manipulações de mão de ferro fazendo crescer vertiginosamente desigualdades e dependências. Mercado mundial onde, mesmo quando ainda não tinha essa característica mas já caminhava sem detença para a globalização, tudo se compra tudo se vende, mesmo países.



As Veias Abertas da América Latina difunde informações pouco conhecidas ou mesmo desconhecidas. São muitos os temas, todos confluem para expor sem contemplações a obstinada rotina da desgraça em que estão mergulhados esses países. Um livro essencial para se compreender a história passada mas também as tramas das lutas em curso no continente americano, centro e sul, dramas que também se vivem noutras paragens, mesmo em países ditos desenvolvidos.

 

Muitos e bons livros de autores nacionais e estrangeiros, anunciam-se. Sublinhe-se as reedições e alguns inéditos que irão dar corpo às obras completas de Agustina Bessa-Luís (Relógio d’Água), Fernanda Botelho (Abysmo), David Mourão-Ferreira, Ruy Belo, Eugénio de Andrade e Mário Cesariny Vasconcelos (Assírio e Alvim), Luís de Camões (E-Primatur) e dos estrangeiros, Roberto Bolaño (Quetzal).

Um grande destaque para Rei Lear de Shakespeare, no Centro Cultural de Belém, nos dias 8 e 9 pelo Ensemble-Sociedade de Actores, com encenação de Rogério de Carvalho. É uma história que foi repetidas vezes contada em crónicas e romances a que o grande dramaturgo inglês deu forma definitiva e genial, irrompendo pelos bastidores da história de que o mundo só acaba por captar os efeitos exteriores.

Uma história sobre a questão do poder em que o saber e a arte de governar de que o Rei Lear tinha dado provas se destroem quando, no fim da sua vida e preparando a sua sucessão, se deixa arrastar pela vaidade pessoal e se entrega às paixões e à egomania, provocando uma tragédia de incomensuráveis proporções que o devoram e devoram o seu reino.

O teatro de Shakespeare, mais do que para ser lido é para ser visto e ouvido, tem aqui uma excelente oportunidade de o ver e ouvir. No entanto, também o poderá ler numa excelente tradução feita e anotada por Álvaro Cunhal, editada pela Caminho.

Orfeu, é um dos mitos gregos nucleares que se repercurte até aos nossos dias e das mais diferentes formas, até no filme de Pedro Almodóvar, Fala com Ela. O CCB organizou um ciclo «O Mito de Orfeu na Literatura e no Pensamento», concebido e organizado por Miguel Santos Vieira, em que se sublinha a persistência e a diversidade com que esse mito percorre a cultura ocidental, tendo sido extensamente usado por poetas, filósofos e músicos.

Um ciclo em que assiste a uma vasta e bem cuidada panorâmica sobre a música inspirada pelo Mito de Orfeu, através dos séculos em que são desmontadas algumas das suas mais surpreendentes tramas. As sessões são ilustradas com excertos áudio-vídeo das obras musicais e músico-teatrais mais representativas.

O ciclo iniciou-se na Sala Sophia de Mello Breyner Andresen no dia 4, tem sessões nos dias 11 e 25 Setembro e 2 de Outubro. Em 18 Setembro, decorre na Sala Luís de Freitas Branco, sempre às 18 horas.

Na Fundação Gulbenkian, até 2 de Outubro, «Escultura em Filme», com curadoria de Penelope Curtis. É uma exposição surpreendente pelo fascínio que a escultura clássica, completamente afastada do ensino das artes, continua a exercer sobre os artistas contemporâneos sobretudo na fotografia e no cinema.

Os artistas, que não são fotógrafos nem realizadores de cinema, usam tanto a fotografia como o vídeo nos seus trabalhos de artes visuais e performativas para fazer leituras minuciosas e sedutoras da escultura clássica que integram esta exposição.

São sete jovens artistas, Anja Kirschner (1977) e David Panos (1971), Fiona Tan (1966), Mark Lewis (1958), Rosa Barba (1972), Lonnie van Brummelen (1969) e Siebren de Haan (1966) que visitam museus da Europa para nos dar um novo olhar sobre esculturas do passado solidamente ancoradas na intemporalidade que vence a sua imobilidade.

A colecção das obras de Miró, em posse do Estado por nacionalização do BPN que as tinha adquirido, podem ser vistas na sua íntegra no Palácio da Ajuda, o que não aconteceu no Porto por limitações de espaço. O que está bem presente nesta exposição de Miró, com obras de várias técnicas e temporalmente muito distantes, de 1924 a 1983, em que as conexões que se procurem são muito dispersas, é uma evidente irregularidade e errância entre elas, e não serão as sete obras não expostas em Serralves que irão alterar essa circunstância.

De algum modo, até paradoxalmente, este conjunto de obras torna mais evidente o modo como desde sempre o pintor se apropriou dos automatismos introduzidos pelos surrealistas para os recuperar nas formas abstractas, tendo sempre por horizonte uma deriva das propostas sobre cor iniciadas com Cézanne e Matisse, o que acaba por conferir relevância e interesse a esse acervo que tem todos os defeitos de uma aquisição feita por atacado.

Um investimento como qualquer outro sem nenhum critério estético ou histórico que a determinasse. Deve ser lembrado que este património estava para ser vendido em leilão pelo governo PSD/CDS, em atitude simétrica aos dos seus parceiros políticos que a compraram. Tudo gente para quem a cultura só existe como negócio e por vezes como verniz para tapar os buracos do seu oco pretenciosismo intelectual. As excepções são uma raridade extremamente rara.

No Porto, hoje dia 8 de Setembro, às 22h, um concerto aberto ao público na avenida dos Aliados, Mão Morta & Remix Ensemble. Uma revisitação dos temas mais icónicos da mais icónica banda de rock alternativo. Uma viagem pelo universos muito sugestivos da lírica de Adolfo Luxúria Canibal. Um concerto que certamente será um sucesso, com arranjos musicais de Telmo Marques e direcção musical de Pedro Neves.

Uma semana que vai acabar no abrir oficial das portas às campanhas eleitorais das autárquicas, que já andam nas ruas por todo o País. Uma boa altura para recordar que o voto não é só um acto político. É também um acto cultural onde mais se afirma a cidadania.

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