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Efeméride

O dia do lobo uivante

Podia ter sido mais um servo dos campos de algodão do Mississipi. Fugiu para se tornar um dos monstros dos blues. Morreu em 10 de Janeiro de 1976, fez ontem 42 anos. Senhoras e senhores, Howlin’ Wolf.

West Point Howlin' Wolf Blues Trail Marker, West Point
West Point Howlin' Wolf Blues Trail Marker, West PointCréditosBy Growthalliance (Own work) / [CC BY-SA 3.0]

Escapou da plantação aos 13 anos de idade e do que seria uma vida de servidão para caminhar «entre os lobos» e se transformar numa das maiores figuras dos blues e do rock n’roll. Howlin' Wolf, nascido Chester Arthur Burnett em Junho de 1910 no Mississipi, rompeu esse ciclo que o atiraria inevitavelmente para os campos de algodão tal como havia feito com os seus pais, para fazer dos blues a sua estrada de vida até àquele dia 10 de Janeiro de 1976, quando deixou o mundo dos vivos para entrar no reino dos imortais. Celebremos então os blues e a vida deste trovão que ainda hoje ressoa entre as paredes da casa que Howlin' Wolf construiu.

Howlin' Wolf é daquelas figuras maiores que a vida, misto de lenda e realidade, que só podia existir nesse universo mágico repleto de criaturas demoníacas e crenças fantasmagóricas, de pactos de sangue e de álcool e de estradas vazias a perder de vista, como é o universo dos blues. Provavelmente, a única ligação a esse imaginário existiria apenas no mundo das estórias assustadoras que o seu avô lhe contava em criança, que o faziam fugir a chorar e lhe garantiram assim a alcunha, posta pelo avô, que o acompanhou por toda a vida.

É um dos nomes centrais dos blues do Delta do Mississipi, com uma música marcada pelo ritmo das plantações, pelas suas raízes no folk , essencialmente acústico e tradicional. Wolf conseguiu o que à sua época era uma extravagante raridade, viver da música e dos blues. Quando no início da década de 50 rumou à cidade ventosa de Chicago para se transformar numa lenda da mítica Chess Records – que então já assinava artistas maiores como Muddy Waters e o compositor de serviço Willie Dixon –, Wolf já tinha conquistado alguma fama local e trabalho regular. Como ele passou a vida a dizer, «fui o único bluesman a deixar o Delta no seu próprio carro».

Em Chicago a sua carreira continuou a brilhar no céu dos blues e a própria face da história da música negra mudaria para sempre. A electricidade da grande cidade chegou às guitarras e nada ficou igual. Os blues explodem e com eles a rivalidade entre duas figuras maiores do Delta, Muddy Waters e Howlin' Wolf. E com eles, duas visões da música em colisão, a tradição do Mississipi na música de Muddy Waters, um antigo apanhador de algodão, e as composições inovadoras, arrojadas e desconcertantes de Wolf, o jovem aventureiro que trazia a sua própria visão dos blues do Delta.

Ainda hoje, 42 anos após a sua morte, quando falamos de blues o nome de Howlin' Wolf é incontornável. O lobo destemido, que lançou o seu uivo à volta do mundo, foi referência e influência maior dos nomes da geração do rock que a partir da década de 60 veneraram e se inspiraram na música deste gigante de metro e noventa e 125 quilos. Dos Rolling Stones aos The Doors, passando pelos Cream e Eric Clapton, todos eles beberam e se apropriaram de canções e dos gestos do gigante Howlin' Wolf. A sua figura, os gritos da sua harmónica, a voz rouca vinda das profundezas do Mississipi, a sua criatividade e originalidade apaixonaram a geração do Rock e transformaram a música tal como a conhecemos. E o seu uivo, que não deixa de ecoar, é a demonstração de que mais do que sede de sangue é a sede de vida dos homens que faz o mundo pular e avançar. E na verdade, para isso não precisamos de muito, apenas uma colher cheia basta.


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