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Movimento filarmónico a Património Imaterial 

A Câmara de Alcácer do Sal está a trabalhar na candidatura das bandas filarmónicas a Património Cultural Imaterial da UNESCO. Uma riqueza que, afirma o presidente Vítor Proença, «está para durar».  

Créditos / O Melhor Alentejo do Mundo

Com uma história de cerca de 300 anos, as bandas filarmónicas representam uma das iniciativas culturais mais importantes. A nível nacional estão identificadas cerca de 700 bandas filarmónicas nos 308 municípios. Só na cidade de Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, nos Açores, há 11. 

Já no concelho de Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, com 14 mil habitantes, existem três. Duas delas têm mais de um século de actividade ininterrupta. Na cidade, a Sociedade Filarmónica Amizade Visconde de Alcácer, há 189 anos e a Sociedade Filarmónica Progresso Matos Galamba, com cerca de 140. A terceira, reside na freguesia do Torrão. Surgiu no século XX e chama-se Filarmónica da Sociedade 1.º de Janeiro Torranense.  

Apesar da dinâmica local, Vítor Proença frisa que a candidatura do movimento filarmónico português a Património Cultural Imaterial da Humanidade da Agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO, na sigla em inglês), em que o Município está a trabalhar, não é uma candidatura de Alcácer do Sal, embora nasça da realidade musical deste concelho.

«Esta riqueza de três filarmónicas, com gerações e gerações de músicos, e a particularidade de as três terem escola de música, levou-nos a pensar que o movimento filarmónico português não estava na UNESCO (Agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Património Cultural Imaterial, mas devia ser defendido e preservado, conta ao AbrilAbril

Vítor Proença deixa claro que esta é uma candidatura do movimento filarmónico. «Não é uma candidatura dos dirigentes, é uma candidatura da música filarmónica, não é uma candidatura voltada para os corpos sociais ou fundadores, é uma candidatura voltada para os maestros, para os músicos, para as escolas de música», refere. 

Os coretos surgem em Portugal com as revoluções liberais e representam a democratização do acesso à cultura Créditos

A par das escolas, que formam milhares de jovens músicos por todo o País, as bandas filarmónicas estão associadas a uma realidade de arquitectura civil com forte significado: os coretos. Para além de objectos arquitectónicos e ornamentais, estes espaços foram idealizados para a realização de concertos e traduziram-se na abertura da arte e da música ao povo.

É num coreto que, todos os sábados, uma banda filarmónica do Mindelo, na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde, toca com os seus fatos largos, faça chuva ou faça sol. «Se conseguirmos, vamos internacionalizar a candidatura com eles», avança o edil. Em Cabo Verde, adianta, «também há um movimento filarmónico, não tão complexo, nem quantitativamente tão numeroso como aqui em Portugal, mas há». 

O «senhor UNESCO»

O anúncio da candidatura do movimento filarmónico a Património Cultural Imaterial ocorreu em Setembro de 2018, frente ao Teatro da Trindade, em Lisboa. Desde então tem seguido a bom ritmo e, assegura Vítor Proença, grande parte do trabalho de campo está feito.

«Exigiu que pudéssemos percorrer todo o País, através do nosso consultor, e, apesar de não visitar todas as filarmónicas, damos uma ideia já global do movimento filarmónico, em que encontramos bandas filarmónicas com 60 a 70 elementos e outras mais pequenitas, com 15», afirma.

O consultor convidado para a coordenação científica é Paulo Lima. O antropólogo foi responsável por uma série de candidaturas bem sucedidas, como a do fado, da arte de fabrico dos chocalhos e do cante alentejano, motivo pelo qual muitos o reconhecem como «senhor UNESCO». 

A candidatura liderada pela autarquia conta com o apoio das três bandas filarmónicas do concelho e da Fundação INATEL, cujo percurso se tem pautado pelo apoio, por exemplo, a bandas filarmónicas e ao folclore. Entre outras razões para esta parceria, Vítor Proença dá o exemplo do plano de salvaguarda: se a candidatura for bem sucedida, deve ser uma entidade de carácter nacional a geri-lo.

Municípios são o suporte

O trabalho terá que estar formalizado e entregue às autoridades nacionais até ao fim do ano. Entretanto, através da pesquisa e investigação no terreno já é possível tirar algumas ilações. A primeira, atesta o edil, é a de que as bandas filarmónicas «estão para durar».

«Há uma apetência muito grande dos jovens poderem frequentar as escolas de música», reconhece, acrescentando que as filarmónicas são convidadas para festejos de carácter religioso ou pagão, sempre com um repertório adequado. 

Um outro elemento que sobressai no percurso realizado pelo terreno é que são os municípios o suporte, quase exclusivo, do movimento filarmónico em Portugal. «São os municípios, de uma ponta à outra, que estão lá, que nunca falharam [...] e em vários casos as juntas de freguesia», insiste.

Além do elevado custo dos instrumentos musicais, como o saxofone tenor ou a tuba, também as reparações se traduzem em somas astronómicas. O presidente da Câmara de Alcácer do Sal recorda que os especialistas no arranjo de instrumentos musicais vão rareando, existindo em cidades como Lisboa, Porto, Coimbra e pouco mais. «Mas também este movimento à volta das filarmónicas é interessante», conclui.

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