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Morreu E. M. de Melo e Castro, pioneiro da poesia visual em português

O poeta, ensaísta e artista plástico, pioneiro e figura grada da poesia experimental, faleceu aos 88 anos. Desprezou a ditadura salazarenta e saudou a poesia em liberdade da Revolução de Abril.

E. M. Melo e Castro no Clube Português, em São Paulo, Brasil, a 25 de Janeiro de 2014, entre a professora emérita Elza Miné (E) e a artista Maria dos Anjos Oliveira (D), directora cultural da instituição
E. M. Melo e Castro, ao centro, em 2014Créditos / Clube Português

O poeta, ensaísta e artista plástico português E. M. de Melo e Castro morreu sábado à noite em São Paulo, Brasil, país onde vivia há mais de vinte anos. O anúncio, segundo a agência Lusa, foi feito nas redes sociais pela filha, a cantora Eugénia de Melo e Castro.

Foi um dos nomes centrais da poesia visual em Portugal, fosse como poeta, como crítico ou como ensaísta, tendo sido reconhecido desde cedo por investigadores e críticos.

Teve um papel decisivo na emergência da poesia concreta, experimental e visual em Portugal, realizando múltiplas experiências com diversos materiais e suportes, nas quais esbateu a fronteira entre literatura e artes visuais, tanto fixas como em movimento.

A sua produção literária e artística foi acompanhada de uma notável «teorização sistemática sobre a linguagem e as tecnologias de comunicação».

Figura marcante no meio literário e artístico das décadas de 60 a 90, prosseguiu, nas décadas marcadas pela viragem do século e seguintes, a investigação e o espelhamento, no seu trabalho, das relações entre a arte e o desenvolvimento tecnológico, tendo sido autor de um conjunto de obras pioneiras que recorreram ao vídeo e computador para produção literária.

E. M. de Melo e e Castro, como assinava, participou em diversas exposições individuais e colectivas, em livrarias e galerias, tanto em Portugal como no estrangeiro, por vezes sob a forma de espectáculos e happenings em que integrou música, leitura poética e projecções de imagens.

Entre elas destaque-se a histórica exposição Alternativa Zero - Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea (1977), na Galeria Nacional de Arte Moderna, em Belém, Lisboa.

A sua obra faz parte de colecções de arte contemporânea, como as da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação de Serralves.

Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro nasceu na Covilhã, em 1932, em família «de espírito progressista e filantrópico» ligada à indústria de lanifícios local, segundo o blogue Cidade da Covilhã.

Licenciou-se em engenharia têxtil pela Universidade de Bradford, em Inglaterra, em 1956, o que não deixaria de influenciar o seu percurso posterior, mas foi ao cruzamento experimental entre poesia e artes visuais que dedicou a sua vida.

Escreveu desde 1950 mas é com a publicação da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa (Moraes, 1959), em colaboração com a escritora e pedagoga Maria Alberta Menéres (1930-2019), sua companheira, que se torna figura de proa entre os autores emergentes na literatura portuguesa.

A publicação em 1962 do livro Ideogramas constituiu um «marco fundador» do experimentalismo na literatura e na arte portuguesas.

Participou nos primeiros números da revista Poesia Experimental (Po.Ex), em 1964 e 1966, publicação pioneira na exploração de «transtextualidades».

E. M. de Melo e Castro publicou com regularidade poesia e ensaio, realizou videopoemas e performances.

Com a publicação da antologia Trans(a)parências – Poesia I, 1950-1990 (1990) recebeu o Grande Prémio de Poesia Inaset/Inapa de 1990 e com o ensaio Voos de Fénix Crítica (1995) recebeu o Prémio Jacinto do Prado Coelho, da Delegação Portuguesa da Associação Internacional dos Críticos Literários.

Deixou Portugal para se estabelecer no Brasil e, em 1998, doutorou-se em Letras pela Universidade de São Paulo. Foi professor no Instituto Superior de Arte, Design e Marketing (IADE) e na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo.

Em 2006, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves apresentou O Caminho do Leve, uma exposição retrospectiva (retroactiva) da sua obra, viajando da poesia concreta e experimental à infopoesia, passando pela videopoesia e pela criação de imagens fractais, com uma selecção de obras representativas de quase cinco décadas de trabalho.

Uma significativa parte da obra poética e ensaística de E. M. de Melo e Castro encontra-se online no Arquivo Digital da Po.Ex - Poesia Experimental Portuguesa.

A 10 de Junho de 2017, Dia de Portugal, foi agraciado com a Ordem do Infante D. Henrique, grau de Comendador.

Da poesia reprimida à poesia em liberdade

O movimento da poesia experimentalista em Portugal, e E. M. de Melo e Castro em particular, foi radicalmente antisalazarista, ou melhor, antisalazarento, como declarou em entrevista feita por Raquel Monteiro, em 2006, na Fundação de Serralves:

«[...] no campo da literatura, ninguém se dava ao luxo de ser a favor do Salazar porque era ser contra si próprio, era uma situação contra natura. Aquele regime era um regime desnaturado. Não era nada. E por isso o salazarismo não era um tema. Ninguém se lembrou de escrever poemas concretos ao Salazar, nem contra nem a favor. Agora, a Poesia Experimental portuguesa teve um papel muito importante na desconstrução do discurso salazarista ou salazarento, como nós dizíamos.»

Ou como manifestou em entrevista a Ernesto de Sousa, para a RTP, já em Janeiro de 1975: «o contexto antes do 25 de Abril é que estava desligado da verdadeira criatividade do homem».

E. M. de Melo e Castro, como tantos poetas, acolheu a Revolução de Abril com entusiasmo e sublinhou, em textos literários e intervenções públicas, a riqueza da criatividade popular na revolução, nomeadamente na expressa pictoricamente nas paredes, fossem murais ou simples palavras de ordem.

Em «Pode-se escrever com isto» (1977), uma separata da Fundação Calouste Gulbenkian extraída do nº 32 (Abril de 1977) da revista Colóquio Artes, escreveu:

«[…] a liberdade é condição indispensável para o exercício da escrita. A escrita nas paredes é pois um facto altamente revelador da liberdade de um POVO e uma manifestação colectiva da força comunicativa da sua vontade. […] A energia contida sob a opressão explodiu subitamente e o País, nas estradas, nas cidades e nas aldeias, ficou repleto de inscrições quase de um dia para o outro. […] Assim Portugal se transformou num enorme Poema visual que todos os dias, durante dois anos, se transformou, porque todos podiam escrever, e escreviam; porque todos sabiam ler e liam.»

O poeta tinha 84 anos quando, em 2016, publicou o poema «Abismo», onde escreveu: [...] serei/ o que fiz/ na vida/ que quis/ ?

Poderia ter-se autorespondido: foi.

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