Grande agitação tem percorrido as sociedades nos debates sobre a chamada Inteligência Artificial (IA). Há um evidente e conveniente exagero provocado pela IA, a começar pela própria designação. Inteligência porquê, quando nas diversas propostas de IA não intervêm quaisquer sinapses pelo que a IA, por exemplo, foi e é incapaz de projectar e desenhar teares mecânicos ou transformar o vapor de água numa fonte de energia ou promover a fissão nuclear, seja para fins pacíficos ou militares. A outra face desses janus nosso contemporâneo é a IA ter entrado para não sair do nosso quotidiano, tal como a electricidade transformou a indústria, a robotização o mundo do trabalho, a Internet os hábitos culturais.
A IA, cruzando tecnologia de formas antes inimagináveis, está a ser utilizada pelo pensamento liberal agora dominante para se instalar no nosso dia-a-dia, de forma visível e invisível, com o objectivo de condicionar a leitura e interpretação da realidade procurando orientar o que se escuta, vê, lê, o que consumimos material e intelectualmente. Se de facto a IA, acelerando e facilitando a automatização de muitas tarefas, potencia a capacidade de as investigações, as decisões serem mais informadas até mais criativas, paralelamente tende a ser aplicada pelo chamado neoliberalismo para anular o homem novo, moderno, humanista, crítico, dialéctico e marxista por indivíduos contaminados por mecanismos psíquicos do que se pode classificar como um potencial e paradoxal fascismo de fachada democrática que a degradação dos processos sociais actuais procuram impor para os tornarem indiferentes à dimensão política da existência, que tem por referência o gozo solipsista dos objectos técnicos que são a rogatória das mercadorias da cultura de massas.
Hoje, com grande amplitude nas mais variegadas formas, como ontem nas suas formas mais arcaicas e primitivas, usa-se a IA para proclamar a modernidade pelas tropas dos liberais económicos nos mais diversos patamares, dos apelidados empreendedores aos seus próceres e vassalos académicos, mais os seus serventuários políticos populistas encartados ou travestidos que recrutam sobretudo na pequena burguesia para que apoiem essa turba-multa que é a face pior do sistema neoliberal para que as vítimas do sistema votem contra o sistema sem perceberem que estão a votar contra si próprias. Os que hoje se alumbram com a IA, como antes ficavam fascinados pelos avanços tecnológicos, é porque a encaram como ferramenta para aumentar a produtividade, usada não como um factor angular progressista, mas como instrumento para agravamento da exploração da força de trabalho, das mais-valias com a consequente corrupção dos direitos universais.
A brutal quantidade de dados que a IA colecciona e processa são essenciais para que as ciências exactas sejam mais rápidas e eficazes, embora se deva sublinhar que muitas das tecnologias aceleradas pela IA não correspondem a uma procura efectiva fomentando uma quantidade desproporcional de infra-estruturas, servidores de dados, minerações digitais, enormes centrais eléctricas para responder a essas exigências. A face positiva da IA é que nunca como hoje tudo é muitíssimo mais acelerado. Um diagnóstico médico é mais rápido e preciso, a base logística da investigação científica mais rigorosa, qualquer equação matemática por mais complexa que seja revela resultados quase imediatos, a inteligência e a criatividade humanas ficaram mais libertas e capacitadas. A face negativa, por via da IA, é a procura e aplicação de algoritmos panópticos perseguidos pelos tecnocratas reaccionários de Silicon Valley dos grandes monopólios cibernéticos dominados por bilionários e big techs que concentram grande poder de mercado e que tal como novos senhores feudais da idade contemporânea diligenciam sobrepor as suas leis às leis do direito internacional e dos direitos nacionais interferindo com as soberanias e a independência das organizações supranacionais e nacionais.
«Os que hoje se alumbram com a IA, como antes ficavam fascinados pelos avanços tecnológicos, é porque a encaram como ferramenta para aumentar a produtividade, usada não como um factor angular progressista, mas como instrumento para agravamento da exploração da força de trabalho, das mais-valias com a consequente corrupção dos direitos universais.»
Os gigantescos monopólios cibernéticos de que são exemplo a Alphabet (Google), Meta (Facebook), Microsoft, Apple, Amazon, empresas privadas que prosperaram e prosperam parasitando as investigações e conhecimentos científicos do complexo militar-industrial-tecnológico-financeiro norte-americano, com um intenso tráfico de contratos de defesa, fluxos de dinheiro e recursos entre indivíduos e instituições, com sucessivos casos de duvidosa ética e mesmo de corrupção, actuam em conluio com os objectivos geoestratégicos da Casa Branca de que actualmente a face mais visível e activa é a Palantir Technologies Inc, criada em 2004 por um investimento conjunto de Peter Thiel, Alex Karp e Joe Henderson e da CIA, através da companhia In-Q-Tel, empresa de capital de risco que investe em empresas de tecnologia, com o único propósito de manter as várias agências de inteligência americana equipadas com as mais recentes aptidões da informação para expandir a vigilância governamental que colecta uma enorme base de dados sensíveis de cidadãos estadudinenses e fora dos EUA, sobretudo por meio de inteligência artificial.
Originalmente são todas apresentadas como prestadores de serviços promotoras da imagem de liberdade de expressão e irrestrita ilusão tecnológica, efusivas apoiantes de movimentos culturais, das mais diversas plataformas e ONG passam rapidamente a actuar no terreno como se assiste, organizando e impulsionando as revoltas coloridas e as primaveras árabes, desaguando todas em agendas com tiques fascistoides, a expressão mais selvagem do humanismo liberal, um despenhadeiro de ineficácias que é a possível e melhor ideologia da actual sociedade burguesa.
A promiscuidade e confluência entre privados e a Casa Branca sempre protagonizaram cenas transformistas de engraxar o empreendedorismo liberto das amarras do Estado, quando de facto o Estado é o seu activo suporte, ontem como hoje, como comprovam as viagens de Sam Altman, o CEO da OpenAI e impulsionador do Chat GPT, pelos corredores e gabinetes de Washington com uma proposta aparentemente muito generosa: a criação, por parte do governo dos Estados Unidos, de um fundo financeiro público para que os cidadãos possam partilhar dos benefícios proporcionados pela inteligência artificial, o que Donald Trump, sempre muito activo no seu estilo gangster sem luvas brancas a enriquecer a si próprio, a sua famiglia e o seu bando de oligarcas e autocratas, apoia sem restrições, fazendo esse truque de o Estado arcar com as dezenas de milhões de dólares de prejuízos da OpenAI no último trimestre, com uma projecção de os prejuízos somados até finais de 2030 atingirem os 200 mil milhões de dólares. O trivial para os liberais todo-o-terreno sempre muito excitados com o menos Estado desde que o Estado cubra os prejuízos do que agora enfaticamente intitulam de anarco-capitalismo, as virtudes da exploração neoliberal sem limites nem fronteiras.
Outra negatividade são os efeitos da IA no mundo do trabalho, embora curiosamente se façam mais sentir junto dos colarinhos brancos, cujo trabalho do topo à base é mais fácil de automatizar que o trabalho dos colarinhos azuis, da reprodução ao controlo. As áreas mais afectadas são as ciências humanas. A normalização e banalização dos textos académicos solicitados às diversas plataformas da IA, se por um lado merecem ser imediatamente rejeitados pelos professores quando sujeitos ao seu escrutínio, por outro são a norma da mediania instalada pelo pensamento dominante para desarmar qualquer veleidade verdadeiramente transformadora.
Confrangedor é assistir ao estado de sítio das school of business, em inglês para sublinhar o cosmopolitismo bacoco dos liberarotes todo-o-terreno que decalcam e repetem fórmulas dos cortes sequenciais do capitalismo por exigências e urgências de o salvar das suas crises, do liberalismo clássico, nacional-socialismo ao actual neoliberalismo com os mais drásticos tiques reaccionários, como se tem assistido sobretudo no continente americano com as políticas económicas de Pinochet retomadas por Kast, em curso com Trump, Milei, Noboa, anunciadas por Espriella e Fujimori.
A extrema curiosidade é que, com a gigantesca quantidade de dados apropriados e coleccionados pela IA, essa gente de colarinho branco engomado aspergido pelas fragrâncias mais na moda, são praticamente dispensáveis por não passarem de repetidores medíocres esmagados e passados a ferro pelas tecnologias da IA que, sublinhe-se mais uma vez e todas as vezes que forem necessárias, aceleram a agenda autocrática dos tecnocratas de Silicon Valley e satélites que constroem quantidades inusitadas de servidores de dados, centrais eléctricas, minerações digitais etc., com uma obsessão no crescimento do PIB em abstracto não considerando a correcção dos seus desvios em relação às formas sociais de desenvolvimento que o PIB por Paridade de Poder de Compra (PPC) de algum modo corrige, integrando nesses cálculos as diferenças nos preços de bens e serviços entre os países. Obsessão também pelo crescimento do capital próprio, real e fictício, desses megapólios tecno-feudais cujas esferas financeiras estão viciadas nas drogas tóxicas dos derivados e futuros de um capitalismo extractivo que alimenta a construção de infra-estruturas malbaratadas e de enorme escala que procuram condicionar as superestruturas, os meios de vida biofísicos e mentais.
« As áreas mais afectadas são as ciências humanas. A normalização e banalização dos textos académicos solicitados às diversas plataformas da IA, se por um lado merecem ser imediatamente rejeitados pelos professores quando sujeitos ao seu escrutínio, por outro são a norma da mediania instalada pelo pensamento dominante para desarmar qualquer veleidade verdadeiramente transformadora.»
A IA, ao contrário do propagandeado nos estábulos dos unicórnios por possessores, tecno-entusiastas, treinadores, jóqueis, apostadores, é o avesso da super-inteligência é a instalação mecanizada da mediania. Tem uma extensíssima base estatística que se ancora em amplas bases de arquivos digitais codificados em valores médios normalizados purgados do que poderia introduzir a diferença, considerada por esses critérios uma anormalidade. É a vocação normalizadora da estatística, a métrica da capacidade de trabalho colectiva que anula o que desde sempre distinguiu o humano, a sua capacidade de trabalhar a cultura, o espírito científico moderno como somas dinâmicas e activas de sabedorias, dos conhecimentos do fazer e saber fazer que impulsiona o salto de tigre que faz saltar e avançar a humanidade e a história para o futuro, como Walter Benjamin expôs nas suas Teses sobre o Conceito de História1.
A IA, ao hierarquizar e classificar imagens, acções, linguagem, (LLM, Largue Lagrange Modela), impõe modelos algorítmicos, produz automações de tarefas que anteriormente pareciam impossíveis, são uma enorme vantagem e revolucionam muitas áreas da actividade humana com a contrapartida de uma procura contumaz de codificação dos comportamentos sociais e culturais, conhecimentos, preconceitos que são amplificados e categorizados.
Onde isso é mais palpável e visível é nas áreas culturais. A Inteligência Artificial (IA) com a sua capacidade de colectar informação é uma ferramenta estratégica na valorização, preservação da cultura, actualizando e transformando a gestão de patrimónios e a criação artística. Organizações como a UNESCO e instituições culturais destacam o potencial da IA para digitalizar acervos, realizar restaurações precisas de obras de arte, superar barreiras linguísticas através de traduções automáticas, ampliando o acesso global a expressões culturais. O lado negativo está exactamente na expansão das suas positividades.
As traduções automáticas, por mais perfeitas que sejam, são incapazes de explorar tanto o idioma original com o idioma para onde é vertido. A mediocridade da mediania é a sua imagem de marca. Nunca a IA conseguirá ter a criatividade de um Aquilino Ribeiro ao transpor para português o Dom Quixote de La Mancha de Cervantes2, ou o Arranca - Corações de Boris Vian por Luiza Neto Jorge3, ou também de Luiza Neto Jorge e Manuel João Gomes, as Novas Impressões de África de Raymond Roussel4 alguns de muitos exemplos exemplares, passe o pleonasmo, das limitações da IA. Noutras áreas das artes e letras, o uso da IA não ultrapassa os pastiches, o fazer à maneira de, sem qualquer chama inventiva e criativa. Onde é naturalmente mais activa é nas canções pop, da música internacional nos sentimentos e anglo-saxónica na forma o que facilita os dez minutos de abanar o capacete na multiplicidade de festivais prontos a usar e a esquecer.
As restantes incursões da IA, tentativas de romances, poesias, guiões de filmes, etc., são frustrantes por mais maquilhagens de marketing que se usem, por mais que os crivos críticos estejam embotados. O seu uso é especulativo como o da MuseNet, da OpenAI, que gera composições musicais com padrões de harmonias, ritmos e estilos guardados em milhares de arquivos MIDI, em que se reescrevem músicas ao estilo de um compositor ou mesclam-se Bon Jovi e Chopin, idiotices estéticas kitsch para alimentar o tédio de uma sociedade entediada em que já nada surpreende, mas que procura lucrar com os enfados de vidas sem horizontes. As novas obras visuais ou literárias são realizadas copiando estilos de artistas consagrados o que esteticamente não tem qualquer interesse além o de gerar valores monetários substanciais como os obtidos pelo grupo colectivo francês Obvious com algoritmos GAN (Generative Adversarial Networks – Redes Adversativa Generativa) que transformam a modelagem generativa, facilitando o desenvolvimento de modelos e algoritmos capazes de criar dados de alta qualidade e realistas. Resolver desafios de complexidade de cálculos em modelos de deep learning em tarefas como classificação de imagens e reconhecimento de fala, gerar novos dados, incluindo imagens ou texto realistas.
Nada de novo imediatamente aproveitado pelas leiloeiras num mercado de artes em que o dinheiro é a forma e o fim. Há experiências literárias e cinematográficas com guiões e actores deepfakes em que a IA cria novas imagens, textos, músicas, vídeos que parecem ser realizados por humanos mas são gerados a partir de modelos de aprendizagem automáticos LLM (Machine Learning y Large Language Models LLM) padrões e estruturas alicerçados em grandes conjuntos de dados que a capacidade tecnológica aumenta a cada hora que passa em que a IA suicida a expressão cultural, ameaça a soberania cultural, a diversidade e os direitos criativos, com o uso não consentido de dados e obras, amalgama e homogeneíza as culturas, concentrando-as em grandes plataformas tecnológicas, amplifica as brechas Norte-Sul concentrando as infra-estruturas e os modelos nos países economicamente mais poderosos, enquanto paralela e simultaneamente facilita a conservação, reconstrução e documentação do património cultural, impulsiona a alfabetização digital de museus e centros culturais, facilita a conservação e a documentação de patrimónios incluindo idiomas em risco de desaparecimento.
Esses são os grandes paradoxos da IA na cultura em que a procura criativa tende a afundar-se num zero absoluto, em que o que passa a existir são modas repetitivas travestidas de um requentado novo. A banalização, a mediocridade das virtudes de se ficar sentado a meia haste é o que a IA garante e promete contra Eppur si muove dos Galileus que fizeram e fazem sonhar o mundo para o fazer pular e avançar como na Pedra Filosofal de Gedeão.
Utilizando qualquer das IA, Chat GPT (Open AI), Claude (Anthropic), Meta Ai (Meta), Google Gemini ou Microsoft Copilot, qualquer um, por maioria de razão os autocratas proprietários dessas plataformas, ficam a saber que os conceitos de infra-estrutura e superstrutura são um dos mais valiosos contributos de Marx e Engels para o materialismo histórico, para a compreensão do papel do Estado, sua caracterização e para o combate teórico contra as concepções idealistas da organização da sociedade. Marx assinalou na Para a Crítica da Economia Política: «com a transformação do fundamento económico, revoluciona-se, mais devagar ou mais depressa, toda a imensa superstrutura. Na consideração de tais revolucionamentos tem se distinguir sempre entre o revolucionamento material nas condições económicas da produção, o que é constatável rigorosamente como nas ciências naturais e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas; em suma, ideológicas pelas quais os homens tomam consciência deste conflito e o resolvem».5
Marx e Engels utilizaram a metáfora de um edifício em que a infra-estrutura seria a base onde se ergueria a superstrutura, o que gerou o equívoco de que a luta de classes se poderia circunscrever às lutas na infra-estrutura que teriam efeito mecânico na superstrutura. Uma simplificação que Engels, numa carta a Joseph Bloch, desmonta com grande rigor: «Segundo a concepção materialista da história, o momento em última instância determinante na história, é a produção e reprodução da vida real. Nem Marx nem eu alguma vez afirmámos mais. Se agora alguém torce isso afirmando que o momento económico é o único determinante, transforma aquela proposição numa frase que não diz nada, abstracta, absurda.
A situação económica é a base, mas os diversos momentos da superstrutura – formas políticas da luta de classes e seus resultados: constituições estabelecidas pela classe vitoriosa uma vez ganha a batalha, etc, formas jurídicas, e mesmo os reflexos de todas estas lutas reais nos cérebros dos participantes, teorias políticas, jurídicas, filosóficas, visões religiosas e o seu ulterior desenvolvimento em sistemas de dogmas – exercem também a sua influência sobre o curso das lutas históricas e determinam em muitos casos preponderantemente a forma delas.»6
Nesta citação de Engels, fica evidente a importância da relação dialéctica entre infra-estrutura e superstrutura, a sua importância na luta de classes, pelo que se deve questionar a importância da IA na infraestrutura, seu impacto na superstrutura e nos processos de condicionamento que se procuram impor pelo pensamento dominante no oposto do que se deveria fazer, pelo que é necessário responder, em primeiro lugar, a uma pergunta que não parece suscitar grande interesse: a quem pertence realmente a inteligência artificial e quem tem, portanto, o direito de a governar e de enriquecer com ela? Uma pergunta que obriga a responder previamente a outra questão fundamental e que, por mais surpreendente que possa parecer, não tem resposta satisfatória na economia contemporânea: qual é a natureza económica da inteligência artificial? Qual é a sua matéria-prima? O que lhe confere capacidade e inteligência? O que confere o principal valor à IA é o conhecimento acumulado por milhões de seres humanos ao longo de séculos, com o qual os seus modelos são treinados.
Essa é a sua verdadeira matéria-prima. Ninguém pediu permissão para a utilizar, nem ninguém paga por ela, apesar de estar sujeita à contumaz subversão diligenciada pelos reaccionários tecno-oligarcas de Silicon Valley que dela se querem apropriar para reelaborar e sintetizar de forma automática e industrializada médias estatísticas para impor, com uma pressão financeira desabalada, uma publicidade equívoca e desgovernada, uma proletarização universalizada do trabalho intelectual, o conforto de um universo de virtudes medianas, em que nada se repete pelo que se torna inenarrável, em que como escreveu Kundera na Insustentável Leveza do Ser: «tudo está já perdoado e por isso cinicamente permitido».
«A quem pertence realmente a inteligência artificial e quem tem, portanto, o direito de a governar e de enriquecer com ela? Uma pergunta que obriga a responder previamente a outra questão fundamental e que, por mais surpreendente que possa parecer, não tem resposta satisfatória na economia contemporânea: qual é a natureza económica da inteligência artificial?»
É a última ruína do universo capitalista neoliberal, que procura torná-lo imutável, irrevogável, só plasticamente moldável para garantir uma possível eternidade em que a dignidade, a ética, o humanismo se afundam sem perdão, na realidade a ordem política fascista que, apesar de não ter a mínima consistência filosófica, é legitimada política e metafísicamente por Heidegger, depois de umas fracas e primeiras críticas ao nazismo, o que é cuidadosamente obliterado pelos seus seguidores ou críticos com névoas argumentativas mais espessas que as pintadas por Turner para não mancharem a sua aura filosófica.
A matéria-prima da IA é o património intelectual e cultural de toda a humanidade, pelo que outra questão central, a verdadeira questão central, é a que Karl Marx colocou nas Teses sobre Feuerbach, subtancializada na Tese 11, «Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo».7 A IA, com a sua extraordinária capacidade de colectar dados, pode, deve dar um fortíssimo impulso a essa transformação, ao pensamento dialéctico marxista, o que assombra as gerações burguesas, a frivolidade da antropologia burguesa totalitária em transição para o neo-fascismo, pela anexação brutal do outro, do mundo, pelo que a pretendem usar como uma ferramenta de normalização desperdiçando e inutilizando todas as suas potencialidades, daí a actual extrema importância de reavivar a Tese 11 de Marx sobre Feuerbach, porque a dissociação da filosofia da política torna-a um ornamento em que os debates por mais interessantes, por vezes até produtivos, percam legitimidade e racionalidade no agir, despenhando-se no decorativismo anti-intelectual do pós-modernismo, nos antípodas da dialéctica marxista que é a maior afirmação da dignidade intelectual do saber na modernidade.
- 1
Walter Benjamin, «Sobre o Conceito de História» in O Anjo da História, Obras Escolhidas de Walter Benjamin, vol 4, pp 9-34, Assírio e Alvim, 2010
- 2
Cervantes, Dom Quixote de La Mancha, versão Aquilino Ribeiro, Bertrand Editora, 1954, reedição 2025
- 3
Boris Vian, Arranca-Corações, tradução Luiza Neto Jorge, Editorial Estampa, Livro B, 1974, reedição Relógio d'Água 2011
- 4
Raymond Roussell, Novas Impressões de África, tradução Luiza Neto e Jorge-Manuel João Gomes, Editora Fenda 1988, reedição Editora VS, 2019
- 5
Karl Marx, Para a Crítica da Economia Política, Obras Escolhidas Marx/Engels em três tomos, Tomo I, P. 552, edições Avante!
- 6
Friedrich Engels, Carta a Joseph Bloch, «Obras Escolhidas Marx/Engels» em três tomos, Tomo III, P. 547-549, edições Avante!
- 7
Karl Marx, Teses sobre Feuerbach, «Obras Escolhidas Marx/Engels» em três tomos, Tomo I, Pps 13-16, edições Avante!
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