Canto XLV

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

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Este nunca está satisfeito, Bartolomeu Cid dos Santos
Este nunca está satisfeito, Bartolomeu Cid dos SantosCréditosBartolomeu Cid dos Santos

Canto XLV

Com a usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva suas faces,
com usura
homem algum terá paraíso pintado na parede da sua igreja
herpes et lux
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projecta-se do inciso,
com usura
homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas
pintura alguma é feita pra ficar
nem pra com ela conviver
só é feita a fim de vender
e vender depressa
com a usura, pecado contra a natureza,
sempre  teu pão será rançosas côdeas
o teu pão será de papel seco,
sem trigo da montanha, sem farinha forte
com usura uma linha cresce turva
com a usura não há clara demarcação
e homem algum  encontra sua casa
O talhador não talha a sua pedra
o tecelão não vê o seu tear
COM USURA
não vai a lã até `feira
os carneiros não dá ganho com usura
a usura é uma peste, usura
torna romba a agulha nas mãos da virgem
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura
Duccio não veio via usura
Nem Piero della Francesca, Zuan Bellini não pela usura
nem foi pintada «La Calumnia» assim.
Fra Angelico não veio via usura; nem Ambrogio Praedis
Não veio igreja de pedra talhada
Com a incisão: Adamo me fecit
Nem via usura  Santo Trófimo
Nem via usura Santo Hilário,
A usura oxida o cinzel
Ela enferruja o ofício e o artesão
Ela corrói o fio no tear
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
O azul é necrosado pela usura,
não se borda o carmesim
A esmeralda não encontra o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de cortejar
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Eléusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens da usura

in CANTOS, Erza Pound, tradução José Lino Grunewald

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