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Câmara de Coimbra abre portas ao espólio de Louzã Henriques

O executivo conimbricense aprovou por unanimidade um voto de pesar pelo falecimento de Manuel Louzã Henriques, figura grada da cidade e da região, e dispõe-se a acolher o espólio do médico e etnólogo.

Aspecto do lançamento do livro «Manuel Louzã Henriques - Algures com meu(s) irmão(s)», de Manuela Cruzeiro e Teresa Carreiro, no Conservatório de Música de Coimbra, a 24 de Junho de 2013.
Aspecto do lançamento do livro «Manuel Louzã Henriques - Algures com meu(s) irmão(s)», de Manuela Cruzeiro e Teresa Carreiro (2013). CréditosCarlos Micaêlo / Blogue Guitarra de Coimbra (V)

A Câmara de Coimbra vai retomar negociações com a família de Louzã Henriques para acolher e divulgar o espólio que o médico e etnólogo reuniu ao logo da vida, anunciou esta semana o presidente do executivo conimbricense, segundo a Agência Lusa.

A informação foi prestada pelo presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado (PS), ao apresentar, no início da reunião quinzenal do executivo, a proposta de um voto de pesar, aprovado por todas as bancadas, pela morte de Manuel Louzã Henriques – médico psiquiatra, resistente antifascista e antigo preso político, músico, etnólogo, figura grada da cena cultural coimbrã.

Os primeiros contactos entre Louzã Henriques e a Câmara Municipal foram interrompidos devido à morte do psiquiatra no dia 29 de Julho passado, com 85 anos, pelo que «infelizmente, não se concluiu esse processo», disse Machado, naquela que foi a primeira reunião após o sucedido, acrescentando, no entanto, que «vamos de modo adequado desenvolvê-lo».

O autarca, que é também presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses, salientou que Louzã Henriques, militante do PCP desde 1958, oriundo da Serra da Lousã, «foi um cidadão de Coimbra e da região, abnegado, batalhador e antifascista», com uma obra pública, designadamente nas áreas cívica e cultural, «merecedora do reconhecimento da Câmara Municipal de Coimbra».

Também os vereadores Francisco Queirós (PCP) e Madalena Abreu (PSD) intervieram para reforçar a homenagem a Louzã Henriques e a importância das suas colecções, sobretudo de natureza etnológica, incluindo centenas de instrumentos musicais, e no domínio da arqueologia industrial, com um acervo que abrange máquinas de costura, máquinas de escrever e aparelhos de som de várias épocas, como grafonolas e rádios antigos, entre outros objectos.

O autarca comunista, que apoiou a continuação do diálogo com os herdeiros do médico «para exposição pública do vasto espólio cultural» do médico, defendeu ainda que fosse «auscultada a vontade dos familiares» de Louzã Henriques tendo em vista «o reconhecimento público desde cidadão na toponímia da cidade».

Manuel Louzã Henriques mantinha fortes ligações à Lousã, de onde era natural seu pai, Diamantino Henriques, em cuja casa e quintal a Câmara local instalou o Museu Etnográfico Dr. Louzã Henriques, acolhendo colecções únicas em Portugal, designadamente de arados, cangas e carros de bois, propriedade do patrono e família.

O «leão da Liberdade»

Manuel Louzã Henriques nasceu a 6 de Setembro de 1933 no Coentral, concelho de Castanheira de Pêra. A partir de meados da década de 1940 viveu e estudou na cidade de Coimbra, onde concluiu o curso de Medicina (1959) e a especialidade de Psiquiatria (1961).

Membro da República Palácio da Loucura quando frequentava a Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC), envolveu-se desde jovem na luta política antifascista, o que lhe valeu várias prisões, a tortura e o conhecimento das prisões políticas do Aljube, de Caxias e de Peniche.

Depois do 25 de Abril, o médico psiquiatra a quem a ditadura proibira o exercício da medicina em hospitais públicos e obrigara à clandestinidade política desenvolveu uma intensa participação na vida pública democrática em muitas campanhas e iniciativas ligadas ao progresso político e cultural do país.

Personalidade notável da cultura coimbrã, esse «leão da Liberdade» – como recentemente lhe chamou o médico e amigo Jorge Seabra [ver caixa] – foi, nas palavras de Fernando Martinho, escritas para um livro em sua homenagem, publicado por ocasião do su 80.º aniversário, um «ilustre psiquiatra apaixonado pela Antropologia e Etnografia, formador de gerações de psiquiatras, senhor de uma cultura que se diria enciclopédica, melómano e músico, piloto-aviador, jogador de râguebi, generoso e solidário, militante clandestino do seu PCP de sempre. A ninguém, como a Louzã veste tão bem a consigna que Marx também fez sua: “nada do que é humano me é estranho”».

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