Numa noite como qualquer outra, estávamos à espera que ele chegasse há algum tempo. O atraso já ia quase em duas horas. Passara uma década desde o último álbum de originais, mas ninguém se importava muito com isso. Pelo caminho havia lançado «Só» – um disco de reinterpretações das músicas ao piano – que ia sendo reproduzido até a cassete ficar encravada nos autorrádios por esse país fora, na longa e adolescente viagem dos verões, cravando na memória da paisagem canções de dor e esperança.
Foi nesse tempo que ele entrou de malas e bagagens na minha consciência. A partir de então, a sua música ficaria associada à toada desse álbum e a sua figura, de protagonista do rock português, passaria a ser a do trovador intimista, sábio vadio que nos convida à exposição das vulnerabilidades. Essa imagem iria perdurar durante muitos anos e fixar a sua marca de água na cultura popular portuguesa, diluindo-se, por fim, nesse perigoso lago da música ligeira, onde se conquista a consagração.
Mas antes disso, a estrada de Jorge Palma levou-nos por outros caminhos, mais sinuosos, menos favoráveis a esse reconhecimento. A música refletia a sua própria biografia, do exílio para fugir à Guerra Colonial às vivências e contradições do pós-25 de Abril. É essa realidade, esse tempo, que vai estar inscrita na sua música e, em particular, na sua poética. Nas três décadas que antecederam o fim do milénio, o país crescia a precisar de legendas, porque nem tudo o que vemos é real. A radiografia era urgente e quem melhor para a tirar do que um homem insubmisso, um ser livre, um maltês contemporâneo?!
Ao contrário de outros artistas, a vida de Jorge Palma era de compromisso com o que apregoava. Não era rebeldia inconsequente, era recusa em sujeitar-se às convenções de uma sociedade que voltava a pôr a cabeça de fora, que impedia uma verdadeira libertação, uma necessária emancipação dos indivíduos, reprimindo e isolando todos os que ousassem reclamar o controlo do seu próprio destino. É por isso que, pelo menos, até à década de noventa, a poética de Jorge Palma resulta da relação entre a libertação do indivíduo e a libertação social dos interesses políticos e económicos que ameaçavam as conquistas da Revolução pela qual lutara. A sua insubmissão não era, por isso, um mero exercício de rebeldia ou capricho assente no privilégio, era um ato de resistência necessário, que lhe haveria de trazer muitos dissabores.
«A música refletia a sua própria biografia, do exílio para fugir à Guerra Colonial às vivências e contradições do pós-25 de Abril.»
O génio musical de Jorge Palma, construído tanto pela formação clássica como pela sua curiosidade pela música popular – de Mozart a Beatles, de Amália a Caetano, de Dylan a Elton John, de Zeca Afonso a Léo Ferré ou a Pink Floyd – deu-nos uma primeira discografia, do início da década de setenta ao fim da década de oitenta, que vai superar os exercícios de pastiche da música internacional (tentativas espúrias de modernização) e manifestar-se como uma nova música popular cantada em português. Com as portas abertas por Sérgio Godinho ou José Mário Branco, a sua poética desafiava, também, a métrica convencional à qual parecia não haver alternativa. Na música popular portuguesa nascia então um caminho infinito de soluções líricas que até então não haviam sido exploradas.
Esse caminho não nascera de geração espontânea. Na discografia inicial, dos anos setenta, a canção de Jorge Palma ainda é esteticamente marcada pelas soluções da canção de protesto. Mas o país novo que nascia em simultâneo, com as novas vivências e até a nova linguagem, seria determinante para o artista continuar a procurar uma música mais autêntica, mais singular, mais disruptiva, que refletisse a urbanidade contemporânea.
Quando chega a década de oitenta, a proposta musical de Jorge Palma transforma-se, então, num dos mais importantes fenómenos culturais do fim do século. A riqueza musical e poética dessa obra colheria prestígio entre os seus pares e entusiasmaria não só a juventude dessa época, como outras gerações que nele encontrariam a voz do seu tempo sentimental. Talvez por isso, nos dias que se seguiram à sua morte, os testemunhos sejam tão semelhantemente auto focados. De «Acto Contínuo» a «Bairro do Amor», a vida popular e sentimental dos que cresciam desamparados no meio de grandes transformações sociais, retrocessos, desilusões e sonhos inquebráveis estava toda descrita neste manifesto contemporâneo que Palma tinha sintetizado em canções.
Mas ao mesmo tempo que o seu estilo seduzia uma juventude sem voz, a denúncia daqueles tais interesses, mais ou menos ocultos, resultaria também na sua marginalização pelas elites. Essa marginalização foi uma bandeira para os que viam na sua insubmissão um exemplo de coragem que prometiam seguir, para sempre. Com a chegada dos anos noventa, entre o fim da União Soviética, o agravamento normalizado do Imperialismo estadunidense e a invasão comercial da indústria do entretenimento, o mundo estava a mudar, resignando-se à imposição social do capitalismo, e a marginalização de Palma aprofundou-se. O estatuto de «vulto da cultura portuguesa», que tanto se proclamou na hora da sua morte, não existia. Palma era um «marginal», um «indigente», um «lírico embriagado». As suas canções, muito lindas, sim senhor, eram coisas de artista irreverente, utópicas, desligadas da «realidade». O poeta errante, que se exilou durante o fascismo português, que tocou no metropolitano de Paris, que participou nas sessões de canto livre pelo país fora no dealbar da Revolução, que viajou pelo mundo, que denunciou na sua música a hipocrisia, a ambição egoísta, a futilidade, a violência e o obscurantismo da sociedade capitalista, propondo soluções concretas de humanidade, solidariedade, camaradagem e progresso, era votado ao desprezo e à ridicularização.
Palma e o seu público não pareciam muito preocupados. A marginalidade era o elemento mais estimulante e sedutor, o dispositivo que anunciava uma vaga de resistência e contracultura, contra a corrente do tempo. Por esses anos, Palma juntou um grupo de amigos a que chamou Palma’s Gang, com elementos dos Xutos & Pontapés e dos Rádio Macau, como que mostrando que não estava só. A banda acabaria por se dissolver naturalmente e o músico voltaria à estrada sozinho, ao piano e à guitarra. Com concertos cancelados, interrompidos ou com horas de atraso, a especulação sobre a sua profunda decadência começava a tornar-se conversa de café. Já não era só o álcool. Era Palma a mergulhar nessa realidade crua e terrível que assolava uma geração inteira adormecida na ponta das agulhas, num dos mais destrutivos períodos da sociedade portuguesa.
«Palma e o seu público não pareciam muito preocupados. A marginalidade era o elemento mais estimulante e sedutor, o dispositivo que anunciava uma vaga de resistência e contracultura, contra a corrente do tempo.»
Sem gravar um único disco de originais em anos, a caricatura do artista decadente despertava uma espécie de curiosidade mórbida. Durante anos, as conversas sobre Palma incidiam naquele concerto em tal sítio em que chegara ao palco aos tombos, em que se enganara nas letras ou no instrumento mais apropriado (como se isso existisse, sequer). As histórias amontoavam-se e entrava-se quase num campeonato cruel de insólitos. Ao mesmo tempo, havia sempre uma história de alguém que estivera com Palma algures na Costa Alentejana, numa noite de verão – cenário idílico para canções idílicas que alimentam a fantasia (lembro-me, por exemplo, de Fátima, canção de «O lado errado da noite», o meu disco preferido, a par de «Asas e penas»). Eram histórias que se repetiam, quase como mito urbano, que se confundiam com a sua própria música e com a ideia de errância que gostava de cultivar.
Era esse o Palma que chegava até nós naquela noite em que o atraso era normalizado, perdoado, compreendido, mesmo que apenas por meia centena de jovens estudantes que reconheciam na figura de Palma a beleza de ser livre – o lado certo da noite. Com o passar dos anos, esse sonho de liberdade acabaria por abandonar muito desse público. Vestiram fato e gravata e trocaram a liberdade da insubmissão pela resignação. Substituíram o projeto de emancipação que Palma havia proposto pela nostalgia do devaneio adolescente, da irreverência da juventude. Sucumbiram à batota.
Nos anos que se seguiram, Palma voltaria aos discos, sem um vestígio de mudança de ideias. Ali estavam a ciência e o conhecimento como ferramentas transformadoras, a solidariedade e a amizade, a camaradagem, a teatralidade e a vida – sempre a vida como objetivo maior da nossa existência. Com o tempo foi-se apaziguando e o reconhecimento público transformou-o, então, nessa «figura maior da cultura portuguesa», no «nome incontornável». Trouxe novos músicos para a sua banda de apoio, deu espetáculos maiores e tornou-se num músico consagrado. Celebrou os amigos e os filhos e nunca abandonou a estrada. A sua música começou a chegar a um público muito mais amplo, mas também muito mais alheado do significado concreto das palavras, muito mais atordoado pelo «estatuto para impressionar o mundo», e que entoava, com ligeireza, as canções de Lisboa. Pelo seu percurso e pela forma como tantas vezes foi tratado, há uma certa náusea inevitável que muitas das proclamações fúnebres não deixam de provocar.
«Substituíram o projeto de emancipação que Palma havia proposto pela nostalgia do devaneio adolescente, da irreverência da juventude. Sucumbiram à batota.»
Se há uma derrota em tudo isto é esse desligamento das palavras insubmissas e a divisão de um público que outrora fora cúmplice. Isso não ajuda nada. Não ajuda mesmo nada. Porque a música do Palma teve sempre como objetivo a aproximação, a superação dos passos divergentes, a escolha consciente dos passos de cada um, numa estrada comum para a construção do destino comum. E se essa é a sua herança, então aqueles que não se deixaram derrotar têm o dever de manter vivo esse projeto de liberdade e solidariedade; esse projeto de fraternidade, de paz e humanidade que está dentro de cada um de nós e do nosso empenho em encontrar o caminho até ao outro – esse projeto de vida, que na última década marcou profundamente a sua criação e intervenção. As suas últimas palavras públicas fazem esse apelo. Elas são políticas, porque toda a sua música é política, na forma humana de nos encontramos e construímos uma estrada juntos. Se nos despedimos do Jorge Palma, desse nosso camarada, desse nosso irmão, não temos de nos despedir uns dos outros. Temos a obrigação de dizer sempre ‘té já e de voltarmos uns para os outros como quem volta para a casa que foi sempre sua. Não há maior insubmissão do que essa.
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