A estranha presença aguardava-se depois de, nos comentários à primeira volta das eleições, Bernardo Ferrão ter afirmado em antena que já tinha convidado o antigo líder da IL e actual eleito ao Parlamento Europeu pelos liberais. A confirmação de que Cotrim, suspeito de assédio sexual, vai estar a comentar em horário nobre na SIC Notícias, já a partir deste domingo, parece transmitir uma urgência de varrer esta sombra para debaixo do tapete.
Não obstante o caso ainda não ter ido a julgamento, e Cotrim ter direito à presunção de inocência, dar-lhe palco transmite um péssimo sinal às mulheres que vivem na violência do silêncio. Mas, para a liderança da SIC Notícias, isso pouco importa. Segundo justificou Bernardo Ferrão ao Observador, a voz política do admirador de Milei, que na campanha viralizou por assumir eventual apoio a Ventura, «marca no actual jogo de forças» e «vai enriquecer as noites da SIC Notícias com análise relevante e conhecedora do país e do mundo».
Num panorama televisivo em que as ideias neoliberais se propagam a cada espaço de comentário, que diferença pode fazer Cotrim de Figueiredo, além de promover o movimento político que acabou de criar? O «liberal moderno», que se popularizou pela argumentação contra a «cultura de tachos», até pode esforçar-se por dar um ar fresco às políticas que defende, só que o progresso não passa por aí. Aliás, o resultado das políticas que Cotrim defende, o Estado mínimo, a privatização de sectores estratégicos, como a energia ou as telecomunicações, a degradação dos serviços públicos e o desmantelamento de estruturas do Estado, está hoje bem evidentes nas insuficiência do Governo na resposta às populações e às autarquias na sequência das intempéries que atingiram o nosso país.
Tal como os argentinos, que têm estado na rua a lutar contra uma reforma laboral violenta, vendida, tal como cá, com o apanágio de assim se modernizarem as relações de trabalho. Em relação ao pacote que o Governo de Luís Montenegro tem sobre a mesa, Cotrim aconselhava o Governo a ir «tão longe, até onde achar razoável» e a «não ceder às primeiras pressões». Talvez aqui resida a pertinência do comentário televisivo do ex-líder da IL.
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