Bem prega Frei Tomás... ou como sacar acima das suas possibilidades

Investimentos para melhorar a produtividade das empresas? Com o «nosso dinheiro»? Não. Para isso há os fundos comunitários do Portugal 2020, que os governos (este e todos os anteriores) distribuem generosamente pelo grande capital nacional e estrangeiro.

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CréditosTiago Petinga / Agência Lusa

Nada como realmente. «Dividendos agravam dívida das cotadas», assim titulava o insuspeito Jornal de Negócios, um esclarecedor artigo.

«As cotadas nacionais abriram os cordões à bolsa este ano para pagar dividendos. Mas essa maior generosidade foi um dos factores que levaram a um aumento da dívida líquida dos primeiros seis meses do ano. Subiu mais de 8%, aumentando em mais de 2.000 milhões de euros para 26.300 milhões, tendo em conta as 14 empresas do PSI-20 que já prestaram as informações financeiras. (…) Distribuíram cerca de 2.200 milhões de euros, mais 20% que no ano anterior. E isso pesou na evolução da dívida.»

A notícia dá depois exemplos: EDP, mais 1000 milhões de euros; Navigator, mais 100 milhões; EDP Renováveis, mais 355 milhões; REN, mais 100 milhões.

Registe-se que a informação não é propriamente uma novidade. Tal já aconteceu em anos anteriores, mesmo quando o país estava sob a ditadura da Troika e do governo PSD/CDS, com trabalhadores e pensionistas a serem roubados nos seus rendimentos.

Mas é elucidativo e pedagógico, conhecidas as «preocupações» do grande capital, bem patentes nas recentes e profusas entrevistas do Presidente da CIP, com os seus lacrimosos choradinhos em torno da subida do Salário Mínimo. Da sua resistência feroz a qualquer subida salarial. Sempre em nome da defesa da sacrossanta competitividade nacional para o crescimento das exportações. Ou seja, do «interesse nacional» deles.

E o que dizer das sábias e desinteressadas palavras do Presidente do Fórum para a Competitividade, Ferraz da Costa, que arrasta a cassete dessas lamúrias há décadas. Nem mais um cêntimo para salários! Redução da TSU, já. Acabar com a «rigidez laboral»! Primeiro a competitividade, as exportações, os lucros. Depois os empregos, os salários! A conhecida lebre da corrida de galgos…

Pois… mas parece que as grandes empresas, contrariamente à generalidade das PME e das famílias, não estão a reduzir o seu endividamento! Está a aumentá-lo! E não contraem mais dívidas, para suportar investimento e assim melhorar/modernizar/ampliar a capacidade produtiva nacional!

Não é por acaso que a produtividade agregada (valor médio das produtividades dos sectores da actividade privada) se mantém estagnada. Não há investimento privado. Logo, não há novos equipamentos e tecnologias. Não há inovação. Não se melhora a gestão nem a organização do trabalho.

Investimentos para melhorar a produtividade das empresas? Com o «nosso dinheiro»? Não. Para isso há os fundos comunitários do Portugal 2020, que os governos (este e todos os anteriores) distribuem generosamente pelo grande capital nacional e estrangeiro.

«Sim, endividam-se para pagar mais dividendos, mais remuneração aos accionistas, aos donos do capital.»

Sempre sobrarão umas migalhas para as PME e necessidades públicas. Mas cuidado, diz o grande capital. O Estado está sentado à mesa do orçamento e a comer demais desses fundos… que todo, é pouco para nós! O nosso apetite é pantagruélico! É por isso que precisamos também de novas reduções do IRC, e etc… para que não precisemos de nos endividar para pagar bons dividendos!

Sim, endividam-se para pagar mais dividendos, mais remuneração aos accionistas, aos donos do capital. Ou seja, pagam um volume de dividendos superior aos lucros arrecadados. Onde aconteceu isso? Com «gestores de topo» e «empresas modelo».

Na Sonae Capital: lucros, 18,7 milhões de euros, os accionistas vão receber 25 milhões. Nos CTT: lucros, 62,2 milhões de euros, vão distribuir aos accionistas 72 milhões – deve ser por isso que os serviços postais estão cada vez melhores!

Um aumento dos dividendos superior ao aumento dos lucros! Não querem esmolas, aumentos indexados à taxa de inflação ou da evolução do IAS. Não! Mais 20% nos dividendos. Por extenso: vinte por cento!

Se isto não é viver, ou melhor, sacar «acima das possibilidades», o que será? Lata! Uma grande lata quando na praça pública despejam tecnocráticos ou moralistas discursos sobre a necessidade da moderação salarial e de acabar com a «rigidez da legislação laboral».

Mas também põe a nu a cumplicidade activa de quantos agentes políticos dão cobertura a políticas de desvalorização salarial, nomeadamente travando a necessária subida do Salário Mínimo Nacional para 600€, ou insistem na redução da TSU, ou resistem à obrigatória reversão das malfeitorias feitas nas leis do trabalho pelo anterior governo.

Certo e sabido. Lá virão os «sábios», com a necessidade de bem remunerar o capital para atrair o capital e os capitalistas… Para melhorar a produtividade e a competitividade não é preciso. Bastarão os baixos salários dos trabalhadores portugueses! É por isso que não se pode reformar a legislação laboral, garantir a contratação colectiva e os direitos (constitucionais) dos trabalhadores.

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