UE, o eufemismo de capitalismo

Pintaram de azul uma bandeira e salpicaram-na com estrelinhas amarelas, usaram a Ode à Alegria como hino, mas a roupagem não esconde o nome verdadeiro da UE: capitalismo.

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A simples ideia da aplicação de sanções a países, por força de supostas dificuldades orçamentais, é perversa. Mas no âmbito da União Europeia (UE) é mais do que isso: é a denúncia oficial da verdadeira natureza deste espaço político e económico, e da propaganda que tem servido para enganar milhões de cidadãos por todos os países.

É perversa porque contraria o mais elementar bom senso: se um país tem dificuldades orçamentais e económicas, como é suposto melhorar com a diminuição da margem de opções e com obrigações ainda mais estritas para o cumprimento das metas de défice orçamental? Mas é também perversa porque assenta numa ideia política vil e falsa: a de que os portugueses gastaram demais, de que viveram acima das suas possibilidades.

A possibilidade de sanções económicas contra Portugal não tem por base qualquer matéria orçamental objectiva, nem tampouco se prende com a economia nacional. É antes uma medida política, resultado da natureza da própria UE, natureza essa que conduz inexoravelmente à degradação das condições de vida dos trabalhadores de todo o espaço da UE e à concentração da propriedade e da riqueza a uma escala continental.

Aos que sempre nos apontaram a União Europeia como solução para o desenvolvimento, para o progresso, para a cooperação e a paz, é altura de exigir que se posicionem face aos desenvolvimentos e face aos resultados actuais daquilo que sempre nos venderam como uma maravilha.

É que esses, vindos de onde quer que venham, ou são iludidos ou são ilusionistas.

Aos iludidos lúcidos, certamente não tardará a desilusão.

Aos iludidos deslumbrados, acaso perdure o deslumbramento, é já religião.

Aos ilusionistas, resta-nos derrotá-los.

Mas a realidade, o aumento da exploração, o empobrecimento e o desemprego nunca derrotaram quem se alimenta disso mesmo. Os grandes grupos económicos que lucram com a política a que cinicamente chamam «austera» são os mesmos que se banqueteiam na riqueza pilhada aos países estrangulados por uma dívida que não contraíram, como Portugal, são os mesmos que ostentam obscenamente a podridão da opulência enquanto os povos lutam pelo pão, e não dependerá deles, nem dos seus títeres, a superação dos problemas com que estamos confrontados aqui e por toda a UE.

A «austeridade» não é rigor, é desleixe criminoso para um punhado de poderosos e fome e miséria para milhões. A «austeridade» é o assalto descarado aos direitos dos trabalhadores, o desvio da riqueza produzida por quem trabalha para os braços dos que sempre viveram do trabalho dos outros.

A derrota desta política só depende dos que são por ela prejudicados e não dos que tiram proveito dela. Pintaram de azul uma bandeira e salpicaram-na com estrelinhas amarelas, usaram a Ode à Alegria como hino, mas a roupagem não esconde o nome verdadeiro da UE: capitalismo.

E alegria é coisa muito restrita no capitalismo: é que nunca dá para todos.