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Salários e produtividade

Com frequência se diz que os salários não podem crescer acima da produtividade, insinuando-se que, se assim for, crescem em excesso. Mas de que se fala exactamente? Têm crescido assim tanto, no mundo e em Portugal, para justificar tal alerta?

CréditosJosé Sena Goulão / Agência Lusa

A relação entre salários e produtividade é importante por várias razões. Uma delas é que se os salários reais (isto é, descontados da inflação) crescerem acima da variação da produtividade então a parte salarial (o peso dos salários na distribuição do rendimento) subirá. Será que é isso que tem acontecido?

O último Relatório Global sobre os Salários 2016-2017 publicado pela OIT analisa esta questão e insere o seguinte gráfico sobre a evolução dos índices relativos à produtividade do trabalho e aos salários reais desde 1999 (em que se parte de 100) para 36 países desenvolvidos:

A conclusão é a de que, neste período, a variação da produtividade excedeu a dos salários em cerca de dez pontos percentuais. Daqui resulta a diminuição da parte salarial. O relatório aponta consequências sociais e económicas. Nas primeiras, inclui o sentimento de frustração dos trabalhadores porque sentem que não recebem uma parte justa na distribuição do rendimento. Nas segundas, refere que um baixo crescimento salarial limita o consumo das famílias reduzindo a procura agregada na economia.

E em Portugal? Utilizando um método que se julga análogo ao da OIT, vem-nos o seguinte gráfico:

Há um ponto comum e uma grande diferença nos dois gráficos. O ponto comum: nos dois casos a produtividade cresce acima dos salários (e não menos como se poderia imaginar pelos alertas referidos), pelo que se verifica a diminuição do factor trabalho relativamente ao factor capital na distribuição do rendimento. A grande diferença está na forte queda da parte salarial após 2010 em Portugal. O relatório da OIT mostra, aliás, que Portugal está no grupo dos países europeus onde a parte salarial (embora se trata aqui da «parte salarial ajustada») mais cai no período 2010-2015.

Talvez que alguém vindo de fora (como um marciano), ao olhar para esta evolução e ao ser informado da crise da dívida, concluísse terem sido os assalariados os seus causadores (não as políticas económicas seguidas, as empresas ou a banca, a crise global de 2007-2009 ou, ainda, as opções europeias face à crise na Grécia).