Com o Senado a ver quantos direitos ia tirar aos trabalhadores argentinos, um enorme dispositivo policial, nas imediações do Congresso, levava a efeito, em versão ampliada, um espectáculo que o executivo de Milei tem repetido noutras mobilizações – nomeadamente a dos reformados e pensionistas, às quartas-feiras.
Jactos de água, balas de borracha, bastões, gás lacrimogéneo e gás pimenta a convencer os trabalhadores de que a reforma debatida – a que chamam «esclavagista» – era para ser acatada.
O espectáculo desta quarta-feira incluiu a aprovação no palácio legislativo (por 42 votos contra 30) do projecto de reforma, que agora segue para o Congresso dos Deputados, e, segundo refere a TeleSur, fez pelo menos 300 feridos entre os manifestantes, além de dezenas de detidos.
Uma batalha pelos direitos no asfalto quente
A marcha na tarde estival de Buenos Aires foi enorme, apesar das divergências, há muito patentes, no seio do mundo sindical, com a Confederação Geral do Trabalho (CGT) a pedir «responsabilidade» aos deputados e a recusar-se a convocar uma greve, como o fizeram algumas das estruturas que integram a Frente Sindical.
Sem greve geral, a marcha viu-se interrompida de forma abrupta pela acção policial precisamente quando podia engrossar, uma vez que muitos trabalhadores se iriam juntar a ela no final da jornada de trabalho.
Segundo refere o Tiempo Argentino, o enorme dispositivo policial começou a carregar contra o grosso da manifestação já passadas as 16h30 (hora local), depois de um grupo isolado e não identificado ter arremessado objectos, levantando suspeitas de acção de agentes infiltrados.
Uma reforma que espreme ainda mais os trabalhadores
Duas horas e meia antes, as ruas do centro de Buenos Aires tinham começado a encher-se de trabalhadores, apesar do calor intenso, e a praça tornou-se um mar de cartazes e bandeiras que falavam, por vezes com humor e ironia, sobre as razões para ali estar.
«Diz adeus às horas extraordinárias que se estão a ir embora», lia-se num cartaz, enquanto outro alertava: «Com o banco de horas, despede-te da tua família», e outro dizia ainda: «Retirar os direitos laborais viola a Constituição Nacional», refere a fonte.
Alguns trabalhadores escolhiam as sombras possíveis, mas não se evadiam a denunciar a modernidade libertária do governo de Milei. Luis, um metalúrgico de Quilmes, disse: «Se podem pagar o salário em esparguete ou fraccionar as férias, tudo o que estão a fazer é dar mais liberdade ao patrão para nos espremer ainda mais.»
«Moderno era o meu pai, que podia tirar férias»
Por seu lado, Susana, uma professora vinda de Liniers, declarou: «Milei está a vender a Argentina. Estamos cada vez pior; os miúdos têm de comer em refeitórios populares e os pais estão a perder os seus empregos.»
Também ao Tiempo Argentino, Gabriel Espósito, delegado da ATE (Associação Trabalhadores do Estado), afirmou: «Estamos a lutar para deitar abaixo esta reforma que nos faz retroceder cem anos. É mais um capítulo de um projecto que quer ver a classe trabalhadora de joelhos».
Já Cristian, operário da indústria láctea em Sunchales, respondia às alegações do governo de que a reforma pretende «modernizar» as relações laborais: «Moderno era o meu pai, que podia tirar férias. É preciso estar na rua para a travar.»
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