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Ao contrário do que afirmou ontem o Governo regional, Edgar Silva acusa

«A situação não estava controlada»

Edgar Silva acusa o Governo regional de atrasar o pedido de ajuda e de afirmações irresponsáveis no decorrer do incêndio no Funchal. Três mortos e mil deslocados. Situação repete-se depois de 2010 e 2012.

 

Incêndio no Funchal, 8 de Agosto de 2016
Incêndio no Funchal, 8 de Agosto de 2016Créditos

O balanço feito até agora do incêndio que deflagrou no Funchal é de três mortos, um desaparecido, dois feridos graves, um dos quais evacuado para Lisboa, 147 ligeiros, muitas habitações destruídas, um hotel de cinco estrelas ardido. Contabiliza-se ainda, até ao momento, cerca de 1000 deslocados, o Hospital dos Marmeleiros evacuado, os armazéns industriais queimados e as unidades fabris devastadas.

O Governo da República enviou para a Madeira uma equipa constituída por dez elementos do Grupo de Intervenção de Protecção e Socorro da GNR, dez da Força Especial de Bombeiros, dez voluntários e cinco elementos do INEM, para auxiliar os meios já mobilizados pelo Governo regional. Tendo em conta o alastramento do incêndio, juntaram-se a estes mais 40 especialistas em fogos urbanos e mais quatro dezenas de bombeiros. Ao todo, serão cerca de 110 os elementos enviados para reforçar os meios de combate aos incêndios na Madeira.

Paulo Cafôfo, presidente da Câmara do Funchal, nesta madrugada, deu informações sobre os deslocados. «Temos cerca de mil deslocados de casas e hotéis, são residentes e turistas. Cerca de 600 estão no Regimento de Guarnição n.º 3 (Exército), 300 estão no estádio dos Barreiros e 50 no centro cívico de São Martinho», afirmou à Lusa, considerando ser «impossível» fazer a contabilização do número de edifícios ardidos.

Na Madeira, foi activado o Plano Regional de Emergência e declarada a situação de contingência, o que significa a mobilização total dos meios disponíveis. O presidente do Governo regional, Miguel Albuquerque, em conferência de imprensa, mostrou-se preocupado com o turismo, afirmando que existem «situações graves», mas, no seu entender, não pode ser criada «uma situação de culto do alarmismo, visto que a Madeira é uma terra turística e é necessário manter alguma serenidade».

Por volta das 18h de terça-feira, as chamas, que andaram todo o dia nas zonas mais elevadas do Funchal, desceram à cidade. Ao início da noite, os incêndios começaram a atingir prédios na baixa da cidade. A população entupiu as estradas para fugir do fogo e gerou-se uma situação caótica. Existem ainda incêndios a lavrar noutros concelhos da ilha.

Meios insuficientes na Madeira e pedido de ajuda tardio

O AbrilAbril falou com Edgar Silva, deputado do PCP na Assembleia Regional da Madeira, que denunciou a intervenção do Governo Regional e da Câmara Municipal do Funchal no grave problema dos incêndios.

Segundo o deputado, tudo indicava, tendo em conta as temperaturas altas e os ventos, que a situação iría piorar e que teria de haver preparação. No entanto, segundo afirma, os governantes repetiram na tarde de ontem que «a situação estava perfeitamente controlada», tendo inclusivamente «rejeitado o apoio dos Açores e do continente, afirmando que a Madeira teria os meios logísticos e humanos necessários para fazer face à situação».

Edgar Silva afirma que a situação não estava controlada, «já estava caótica», e que já era imperioso «mobilizar meios extraordinários». A ajuda chegou, assim, «tardiamente», apenas nesta noite. Já ontem Edgar Silva afirmara à Lusa que «se tivessem sentido de responsabilidade [teriam pedido] uma intervenção atempada de reforços a nível nacional para responder a esta calamidade», sublinhou Edgar Silva.

Refere ainda que a região não estava preparada como devia, nomeadamente desde os incêndios de 2010 e 2012, altura em que os governantes prometeram que «não voltaria a acontecer» e que iam ser tomadas medidas de prevenção e reforço dos meios de combate aos fogos. Edgar Silva acusa que «quase tudo ficou por fazer» nesta matéria.

Os incêndios no país

Quanto aos incêndios activos no resto do país, em declarações à Lusa, o adjunto de operações da Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), Carlos Guerra, adiantou que os distritos de Aveiro, Viana, Braga e Porto são esta manhã os que mais preocupam os bombeiros, em Portugal continental, com incêndios de grandes dimensões como os de Águeda, Arouca e Vila Nova de Cerveira, que sofreram alguns reacendimentos devido ao vento. Obrigaram durante a noite à retirada de pessoas de várias aldeias.

Segundo o adjunto operacional da ANPC, a estratégia adoptada pelos comandantes no terreno passa por defender primeiro as aldeias, as pessoas e as habitações.

«Houve algumas habitações nas aldeias periféricas onde tivemos de retirar pessoas das casas, mas não ardeu nenhuma habitação. O pior evitou-se», sublinhou. No que diz respeito a vítimas, Carlos Guerra adiantou que algumas pessoas foram hospitalizadas, mas devido a intoxicações e por exaustão, sem gravidade.

No que diz respeito ao combate aos fogos, o primeiro-ministro, António Costa revelou à imprensa outras medidas: «Gostaria de dizer também que tomámos a decisão de accionar o pré-alerta para o mecanismo europeu de protecção civil, assim como o acordo bilateral com a Federação Russa, tendo em vista a eventual necessidade de accionar meios, caso durante o próximo fim-de-semana e feriado, dia 15, venhamos a ter uma situação que justifique».

Ao todo, no período entre 1 e 8 de Agosto, registou-se um total de 1775 incêndios.

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