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Antigos presos políticos denunciam criação de um «Museu Salazar»

Um grupo de 205 ex-presos políticos enviou uma carta ao primeiro-ministro e ao presidente da Assembleia da República, em que expressam «o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um "Museu Salazar"».

Imagem do filme «Luz Obscura», de Susana Sousa Dias.
O documentário «Luz Obscura» (2017), de Susana Sousa Dias, realizado pela cineasta a partir dos arquivos da PIDE, teve como protagonista a família Pato, profundamente atingida pela repressão fascista ao longo de três gerações.Créditos

Na missiva, datada de 12 de Agosto, os subscritores, «ex-presos políticos, manifestam, em nome próprio e no da memória de milhares de vítimas do regime fascista – de que Salazar foi principal mentor e responsável –, o mais veemente repúdio pelo anúncio da criação de um "Museu Salazar" feito pelo presidente da Câmara de Santa Comba Dão», Leonel Gouveia (PS).

Também apelam à intervenção do Governo, «em conformidade com o relatório aprovado por unanimidade, em Julho de 2008, pela Comissão de Assuntos Constitucionais da Assembleia da República e com normas da Constituição da República Portuguesa», de modo a impedir a concretização de um projecto que – sublinham –, «longe de visar esclarecer a população e sobretudo as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista, se prefigura como um instrumento ao serviço do seu branqueamento e um centro de romagem para os saudosistas do regime derrubado com o 25 de Abril».

O signatários lembram que, «quando em muitos países se assiste ao renascer de forças fascistas e fascizantes, o País precisa não de instrumentos de propaganda do fascismo – que a Constituição da República expressamente proíbe –, mas de meios de pedagogia democrática que não deixem esquecer o cortejo de crimes do fascismo salazarista e preserve a memória das suas vítimas».

Os antigos presos políticos digirem-se ainda «a todos os democratas e amantes da liberdade», apelando para que «se manifestem contra a criação, nos termos em que tem vindo a ser anunciado, desse memorial ao ditador».

A missiva é subscrita, entre outros, por Álvaro Pato, António Borges Coelho, Aurora Rodrigues, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Fernando Correia, Fernando Rosas, Helena Pato, Isabel do Carmo, Jaime Serra, Jorge Seabra, Jorge Silva Melo, José Eduardo Brissos, José Mário Branco, Manuela Bernardino, Mário de Carvalho, Miriam Halpern Pereira, Modesto Navarro, Sérgio Ribeiro, Teresa Dias Coelho, Violante Saramago Matos e Vítor Dias.

Não se antevê como espaço de denúncia dos crimes e da política de Salazar

No final de Julho, o semanário Expresso anunciou que o Centro Interpretativo do Estado Novo iria abrir ainda este ano, com as obras a começarem em Agosto, sendo que a iniciativa avançou pela mão do presidente da Câmara Municipal.

A este propósito, Domingos Abrantes, resistente antifascista e ex-preso político, lembrou, em declarações ao AbrilAbril, que este objectivo está há muito em cima da mesa, por parte dos «saudosistas do fascismo», tendo acrescentado que o significado da iniciativa não pode ser menorizado. «Está em linha de continuidade com uma ofensiva que se tem vindo a intensificar de branqueamento do fascismo», alertou.

Rebatendo o argumento de que um museu sobre Salazar possa ser neutro, declarou ser «difícil imaginar que se possa tratar de um museu com vista ao esclarecimento do povo português e, sobretudo, das novas gerações em relação ao que foi o fascismo, a repressão, o obscurantismo, os assassinatos, durante 48 anos, do qual esta figura, não sendo única, é em grande parte responsável».

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