Há um ano que o anúncio de despejo tem tirado o sossego a duas repúblicas estudantis de Coimbra. Em Julho de 2025, a República Baco e a República das Marias do Loureiro, que partilham o mesmo edifício, foram «informalmente» avisadas da existência de um relatório técnico que apontava «problemas estruturais» no prédio, que motivava a «desocupação num prazo muito curto», relatam os estudantes da Baco, num comunicado a que o AbrilAbril teve acesso.
A «informalidade» é explicada pela Marias do Loureiro nas suas redes sociais: «representantes da Universidade de Coimbra (UC) e dos Serviços de Acção Social da UC» terão pressionado os residentes a «abandonar o edifício antes do início do ano lectivo», «sem qualquer documento legal» que justificasse a medida.
Posteriormente disponibilizado às repúblicas, o tal relatório técnico revelava «o estado de abandono de um imóvel público que, durante anos, não recebeu a manutenção necessária por parte da sua proprietária», afirmam as Marias do Loureiro. Afirma, no entanto, que o documento «não esclarecia» a urgência de abandono do edifício.
A falta de um plano de requalificação
Em reuniões com a Acção Social da UC, os residentes pediram esclarecimentos sobre as intenções da universidade, exploraram alternativas de alojamento e solicitaram o plano de requalificação do edifício e seus respectivos prazos, visto que para além de habitação estudantil, as repúblicas de Coimbra integram a singular vida estudantil e comunitária da cidade, classificada como património da UNESCO desde 2013. Em resposta, a universidade reconheceu que «não existia ainda qualquer projecto de requalificação para o edifício», como também nenhum «financiamento garantido para a realização das obras», expõem as Marias do Loureiro.
Sem plano de requalificação, previsão da duração das obras ou garantia de realojamento no decorrer das intervenções, as duas repúblicas recusaram-se a assinar o acordo de suspensão de contrato, apresentado pela UC em Agosto. A partir desta recusa, a UC «cessou completamente este tipo de contacto», restringindo a comunicação ao recebimento de e-mails. Foi por este meio que os residentes ficaram a saber que lhes «seria retirado o apoio de entrega de bens alimentares», relata a República Baco.
Em datas próximas à recusa do acordo, foi solicitada uma vistoria da Protecção Civil. Ainda que a visita só tenha acontecido em Abril de 2026, os estudantes contam que o relatório da visita nunca lhes foi facultado. «Nunca tivemos acesso às suas conclusões», relatam as Marias, que seguem sem conhecer os fundamentos técnicos do despejo.
Uma «ruptura contratual» artificial
De acordo com as Marias, desde Setembro de 2025 que a Universidade de Coimbra passou a «devolver os valores das rendas» pagas pelos estudantes, deixando de lhes «encaminhar as contas de água e electricidade» para pagamento. Uma situação que «criou o risco de interrupção de serviços essenciais» além de configurar, de acordo com a gestão da república, «uma tentativa de criar artificialmente condições para uma futura ruptura contratual» do imóvel. E a ruptura veio.
Em 15 de Julho de 2026, as duas repúblicas receberam oficialmente do escritório de advogados que representa a UC a denúncia do contrato de arrendamento. A decisão considerada «particularmente grave» pela República das Marias, expõe que a UC «optou por substituir o diálogo por um litígio judicial», num processo que ainda contou com a «autorização do Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia».
As repúblicas como espaços de resistência
A República das Marias do Loureiro classifica toda a situação como «assédio imobiliário», agravado pela crise da habitação que o país enfrenta. «Em Coimbra, encontrar um quarto a preço acessível tornou-se praticamente impossível para muitos estudantes», o que torna ainda mais indispensável a oferta das repúblicas.
Ambas as repúblicas denunciam a «incoerência» de apagar espaços de cultura, tradição e memória que deveriam ser protegidos. A República Baco, a segunda mais antiga da cidade, tem mais de 92 anos e desde 1972 está sediada naquele edifício do Largo São Salvador, honrando o seu contrato de arrendamento. Aquando da compra do edifício pela UC nos anos 90, a República das Marias do Loureiro passou também a co-habitar o espaço, já lá vão 33 anos.
As repúblicas anseiam a resolução da situação em conjunto com a Universidade de Coimbra e com aqueles que estejam interessados para que possam «sobreviver e continuar com o seu legado e papel activo na criação, manutenção e preservação da vida e tradições estudantis de Coimbra».
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