Passar para o conteúdo principal

|Bangladesh

Trabalhadores da indústria têxtil no Bangladesh lutam por melhores salários

Centenas de fábricas do sector têxtil foram encerradas nos últimos dias, no meio de uma greve em que os trabalhadores reclamam aumentos substanciais e protestam contra salários de fome.

Dezenas de milhares de operários do sector têxtil do Bangladesh vieram para as ruas nos últimos dias, reclamando um salário mínimo de 30 mil takas (cerca de 215 euros), face aos actuais 12 500 takas (89 euros), referiu a agência Europa Press.

As manifestações centraram-se sobretudo no cinturão industrial da capital, Daca, nomeadamente em Ashulia, Gazipur e Mirpur, onde os trabalhadores em greve tentaram bloquear vias de acesso à capital bengali.

As forças policiais recorreram a gás lacrimogéneo e a granadas atordoantes para dispersar os protestos, e efectuaram dezenas de detenções (os números variam consoante as fontes).

Salários de fome

À Al Jazeera, Laili Begum, operária têxtil de 37 anos, disse que já não consegue manter os seus dois filhos na escola e que há dias em que é difícil pôr comida na mesa.

«Mal conseguimos fazer uma refeição decente por dia. Esta manhã, comemos apenas arroz tufado e uma mistura de petiscos [conhecida como «Bombay mix»]. Não houve nada para o almoço. Temos passado fome, na esperança de conseguir uma refeição decente esta noite. Ontem foi a mesma coisa. É assim que sobrevivemos agora», disse.

Begum, uma trabalhadora de costura experiente na Virtual Bottoms Limited – fábrica de vestuário pronto a vestir localizada perto de Daca –, ganha cerca de 15 mil takas (107 euros) por mês, chegando a auferir entre 18 mil e 20 mil takas (129-143 euros) quando faz horas extraordinárias.

«O meu filho está tão magro que se pode contar cada costela no seu peito. Que mais posso fazer?», disse.

Greve no segundo maior exportador de vestuário do mundo

Begum faz parte dos cerca de quatro milhões de trabalhadores em fábricas de vestuário no Bangladesh, metade dos quais são mulheres.

Depois da China, o país sul-asiático é o segundo maior exportador de vestuário do mundo e um fornecedor fundamental para marcas de moda globais como H&M, Zara, Levi Strauss, Walmart e Primark.

O sector do vestuário representa mais de 80% das receitas de exportação do país, que atingiram os 34,6 mil milhões de euros no último ano fiscal. No entanto, as pessoas que costuram essas roupas dizem que os seus salários já não são suficientes para cobrir as despesas básicas.

Com 170 milhões de habitantes, o Bangladesh apresenta os salários mais baixos do mundo entre os países produtores de vestuário. Esta situação, agravada pela inflação crescente e pela subida do custo de vida, levou os trabalhadores a fazer greve e a sair à rua no sábado passado e nos dias que se seguiram, exigindo um salário mínimo (30 mil takas) que é mais do dobro do actual.

«O governo só faz promessas»

No domingo, Begum participou num dos protestos que tiveram lugar na região de Jamgora, na zona industrial de Ashulia (arredores de Daca).

A Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário do Bangladesh (BGMEA, na sigla em inglês) informou que, só no domingo, as manifestações interromperam as operações em 529 fábricas, envolvendo quase um milhão de trabalhadores.

Nesse dia, o governo bengali anunciou a criação de uma comissão salarial composta por seis membros para analisar as reivindicações dos trabalhadores. Mas isso não impediu os trabalhadores do sector têxtil de voltar às ruas nos dias seguintes.

Na região de Gazipur, a norte de Daca, os trabalhadores bloquearam a auto-estrada Daca-Tangail e incendiaram vários veículos. Também se registaram confrontos com a polícia no distrito vizinho de Mirpur.

«O governo só faz promessas», disse Begum à Al Jazeera. «Não nos disseram quando os salários serão aumentados e quanto será esse aumento», acrescentou.

A inflação come os salários

Rasel Khan, um trabalhador de 30 anos do sector do vestuário em Ashulia, disse à Al Jazeera que os seus rendimentos mensais entre 18 mil e 20 mil takas (129-143 euros), incluindo horas extraordinárias, já não são suficientes para sustentar a sua família – que inclui a mulher e o filho, a mãe e o irmão mais novo.

Com o aumento exponencial do custo de vida, Rasel acumulou uma dívida de cerca de 100 mil takas (716 euros) para fazer frente às suas despesas. «É impossível sustentar uma família com este rendimento hoje em dia. Os preços continuam a subir, e precisamos de pedir dinheiro emprestado apenas para sobreviver», afirmou.

A última revisão do salário mínimo no sector têxtil ocorreu em Dezembro de 2023. Desde então, os preços têm continuado a subir, com os dados oficiais a indicarem uma inflação anual de 8,34% em Setembro.

Begum conta que paga 3500 takas (25 euros) de renda por uma única divisão, que partilha com a mãe e os filhos. O seu pai, que vive na aldeia onde a família residia, no distrito central de Sirajganj, também depende do rendimento dela.

Relata que utiliza papel descartado e outros materiais para cozinhar, pois não tem condições para comprar uma botija de gás, que custa cerca de 2200 takas (16 euros).

Governo pede aos trabalhadores que regressem às fábricas

No dia seguinte ao início dos protestos, o primeiro-ministro, Tarique Rahman, convocou uma reunião de emergência com altos funcionários do seu executivo, enquanto o ministro do Interior, Salahuddin Ahmed, se reuniu, na segunda-feira, com os proprietários de fábricas têxteis, assegurando-lhes que seria definido um novo salário mínimo através de negociações.

Por seu lado, o ministro do Trabalho, Ariful Haque Choudhury, instou os trabalhadores a retomar as suas actividades laborais, afirmando que a comissão responsável pelos salários iniciaria as suas deliberações em breve.

Representantes da Associação de Fabricantes e Exportadores de Vestuário do Bangladesh também pediram aos trabalhadores que regressem aos postos de trabalho e que «permitam que o processo de revisão [salarial] prossiga», por entre ameaças de retaliação.

Segundo refere a fonte, o representante sindical na comissão, Babul Akhter, também exortou os trabalhadores a a regressarem ao trabalho, mas exigindo que as alterações salariais entrem em vigor já em Janeiro de 2027, bem como a reintegração dos operários despedidos, a libertação dos detidos nos protestos e a retirada das acusações formuladas contra eles.

Tópico

Contribui para uma boa ideia

Desde há vários anos, o AbrilAbril assume diariamente o seu compromisso com a verdade, a justiça social, a solidariedade e a paz.

O teu contributo vem reforçar o nosso projecto e consolidar a nossa presença.

Contribui aqui