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Rússia/Ucrânia: razões de um conflito

O conflito na Ucrânia envolve um conjunto de operações militares de grande complexidade, empreendidas pela Federação Russa a pretexto da prometida integração da Ucrânia na NATO, da política de genocídio dos povos russos na região de Donbass e da nazificação da sociedade.


 

O batalhão Azov, apoiado pela NATO e pelas lideranças da UE e dos EUA, e tratado pelos
O batalhão Azov, apoiado pela NATO e pelas lideranças da UE e dos EUA, e tratado pelos "mainstream media" ocidentais como «nacionalistas ucranianos» ou «admiradores de Stepan Bandera», usa o símbolo nazi "Wolfsangel" na sua bandeira e uma das tropas de choque preferidas do governo de Kiev, no Leste como no resto do país.Créditos / twitter

A Ucrânia tem o terceiro maior exército da Europa, a seguir à Federação Russa e à França. São 250 mil militares no activo, a que se juntam 405 mil militares da Guarda Nacional e Milícias, dispersos pelas 24 províncias, numa população de 42 milhões de habitantes, dos quais cerca de 9 milhões são russos (20%), maioritariamente concentrados no Leste e Sul do país.

Estamos a falar de um país com um território que corresponde a duas vezes a Alemanha e com cidades com dois e três milhões de habitantes. Toda esta complexidade deve ser tida em consideração, o que não está a acontecer.

A cobertura dos meios de informação de massas à escala mundial sobre os acontecimentos na Ucrânia não tem precedentes ao nível da mentira e da hipocrisia e na deturpação e dissimulação da própria realidade.

É uma informação controlada pelas agências de desinformação que, através de um trabalho preconcebido e estudado de intoxicação das consciências, têm em vista dar credibilidade à sua versão unilateral dos factos e, desta forma, ameaçam grave e extensamente a capacidade dos cidadãos de compreenderem com objectividade a real situação em toda a sua complexidade.

Veja-se a repetição exaustiva das situações e dos protagonistas e a sua identificação como «os bons» e «os maus»; a exploração das emoções e sentimentos das pessoas; o culto do militarismo, o chauvinismo, o ódio pela Rússia e pelos povos russos e o anticomunismo raivoso, numa mistura sem nexo, mas deveras explosiva.

É assim que, através de uma visão unilateral, simplista e redutora dos acontecimentos, são ocultadas as correlações históricas entre partes beligerantes e os fenómenos políticos que determinaram a decisão política de avançar com a acção militar.

Após a desintegração da União Soviética, em 1991, o grande capital – com os seus interesses defendidos pelos EUA, NATO e União Europeia – avançou para o domínio dos novos países, envolvendo-os e pressionando-os para aderirem à NATO e à UE, numa perspectiva de cerco à Federação Russa, de recuperação capitalista e de saque das suas riquezas. Assim sucedeu com a Ucrânia.

Foi neste contexto que Washington desenvolveu uma estratégia no sentido de transformar este grande país numa arma de arremesso contra a Rússia.

Um dos passos na consolidação desta estratégia deu-se em 2008, na Cimeira da NATO, realizada em Bucareste (Roménia), onde foi admitida uma futura integração da Ucrânia e da Geórgia neste bloco militar agressivo e de desestabilização a nível mundial.

O reforço das relações políticas com os EUA, a NATO e a UE foi acompanhado de um rápido desenvolvimento da cooperação militar, com a presença de consultores militares, reequipamento das Forças Armadas e participação em manobras militares da NATO, invariavelmente junto às fronteiras da Rússia, no Mar de Azov, ou na região do Donbass, onde as populações pró-russas há muito reclamavam a independência face a Kiev.

A situação agravou-se após o golpe de Estado de 2014, na chamada «Primavera Laranja» da Praça Maidan, que depôs de forma violenta o presidente Victor Ianukovich. Milícias armadas de extrema-direita e organizações para-militares de carácter nazi tiveram um papel destacado no desenlace destes acontecimentos.

O governo que saiu deste conflito – após eleições fraudulentas de que o PC da Ucrânia foi excluído – tem um carácter fascista. O partido Svoboda, de extrema-direita, passa a ocupar altos cargos no Estado ucraniano, incluindo o cargo de vice-primeiro ministro.

Exemplo flagrante deste carácter fascista foi a legalização (e integração no Ministério do Interior) do Batalhão Azov, organização para-militar neonazi, indiciada em crimes de guerra e de genocídio contra as comunidades russas do Sul e Leste da Ucrânia.

As incursões e limpezas étnicas nas regiões separatistas, por parte da Guarda Nacional e do Batalhão Azov, foram responsáveis por cerca de 15 mil mortes, segundo as estimativas da ONU.

A extrema-direita e organizações assumidamente neonazis passaram desta forma a ter significativa representação no Governo e no Estado e uma presença politicamente influente na própria sociedade ucraniana.

São evidentes as linhas de preparação, por parte do Departamento de Estado dos EUA, da NATO e da UE para a guerra, facto que permite compreender a natureza e razões deste conflito e as opções políticas que o determinaram.

Não existem adjectivos que possam caracterizar com rigor a hipocrisia, a mentira e o grau de instrumentalização dos povos, por parte dos círculos reaccionários do capitalismo mundial, sobre a natureza e o enquadramento deste conflito.

Na verdade, onde estavam a solidariedade e os apoios das instituições internacionais e dos países quando os EUA, a NATO e a UE desencadearam guerras de agressão contra a Jugoslávia, o Iraque, a Síria, a Líbia, o Afeganistão, etc., sendo responsáveis por centenas de milhares de mortos, por milhões de refugiados e pela destruição de infraestruturas políticas, económicas e sociais desses países?

No que à situação militar diz respeito, é notório o recurso a elementos de desinformação e acção psicológica de massas, desinformação vertida directamente pelas agências americanas. É impressionante a forma simplista como os jornalistas destacados retratam a situação no terreno, apesar da complexidade e da imensidão do teatro de operações, num conflito pela ocupação do terreno e em que se nota uma preocupação de evitar ao máximo a perda de vidas civis (os cercos a Kiev e a outras cidades, por exemplo).

É por demais evidente, em milhares de imagens transmitidas, a ausência de uma estratégia de resistência escalonada, que tenha o envolvimento das Forças Armadas ucranianas e dos altos escalões da hierarquia militar, o que pode significar a inexistência de um comando militar unificado, o que, a confirmar-se, terá consequências políticas em termos da solução para este conflito.

Após se calarem os tambores da guerra, da histeria e da falsificação alimentada pelos media, a história se encarregará de trazer à luz do dia aquilo que de grave para a humanidade se estaria a preparar na Ucrânia, transformada em balão de ensaio de estratégias perigosas e obscuras, com a complacência da social-democracia e das instituições internacionais.

Uma experiência secular levou há muito o nosso povo a concluir que «o pior cego é aquele que não quer ver».

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