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A integração impossível, o imperialismo sueco e o caos europeu

Estamos a assistir à desagregação da União Europeia através da restauração, no concreto, de memórias históricas fatais que, devido à degeneração e falência do modelo da chamada «democracia ocidental», renomeada «democracia liberal», e à profunda crise social e humanitária por ela provocada, estão a vir convictamente à superfície.

Créditos Manuel de Almeida / Agência Lusa

Se há coisa que a União Europeia tem feito muito bem, embora essa não seja, injustamente, diga-se, uma das suas atribuições programáticas, é a recuperação de todos os mais terríveis fantasmas e mitos que assombraram a história do Continente ao longo dos séculos e estiveram, até, na base das duas grandes conflagrações mundiais. Os federalistas convictos, e os imitadores que abundam apenas como oportunos artefactos de divisionismo e da propaganda, ainda se atrevem a insistir na tese de que a União Europeia tem conseguido evitar a guerra na Europa desde 1945.

Três simples observações a propósito, que nos dariam vontade de rir caso não se tratasse de guerra e de vivermos tempos de iminência de um conflito maior gerado pela própria confraria NATO/União Europeia. Pelo menos essa é a entidade que mais faz soar os tambores do militarismo.

Em primeiro lugar, quando se fala no papel da União na inexistência de guerras, o feito cinge-se apenas à sua capacidade, de que tanto se ufana, de evitar que a França e a Alemanha se envolvessem num confronto militar directo. Passemos, portanto, ao lado do envolvimento activo da União Europeia, ou através da NATO e outras interpostas entidades, nas guerras do Afeganistão, do Iraque, contra a Palestina, da Síria, da que levou à erradicação da Líbia do mapa, do Sahel. Portanto, não existe qualquer relação entre a União Europeia e a confabulação da existência de «tempos de paz» entre guerras. Se as guerras não foram ou não são territorialmente no continente, tiveram e continuam a ter sempre a mão de países europeus.

Em segundo lugar – e fica apenas uma alusão, porque o tema dá um livro, não uma simples reflexão – a União Europeia é a entidade que mais tem alimentado o clima de guerra contra a Rússia, depois de também ser directamente responsável pelas transformações na Ucrânia que deram origem ao conflito entre Kiev e Moscovo. Esta é a história real, que não corresponde, nem poderia corresponder, às mistificações de uma realidade paralela que, política e mediaticamente, tenta convencer o Ocidente das suas próprias razões.

A terceira observação, que incide sobre o enorme paradoxo dos nossos tempos, diz-nos que a existência e a actuação da União Europeia estão a provocar uma desagregação continental como há muito não existia, graças ao reaparecimento, em força, de tendências nefastas, a maioria das quais atravessaram e flagelaram o continente ao longo da história; e algumas novas, ou actualizadas, capazes, de gerar contradições até no próprio coração do império.

Sem aprofundar muito o tema, é mais do que evidente a agudização da influência nazi e neonazi, o regresso à tona de velhas manifestações de ódios étnicos, de xenofobia, de instabilidade das fronteiras, de culto dos totalitarismos de castas burguesas e aristocráticas. Sem esquecer o recurso às enraizadas fracturas religiosas como combustível para alimentar ambições políticas, étnicas, expansionistas e chauvinistas.

O complexo de Poltava

A União Europeia está a desmentir a sua própria designação e a fragmentar-se em blocos regionais. Os europeístas fanáticos, incapazes de enfrentar a realidade, alegam que o aparecimento de polos regionais a Norte e a Leste, com interesses parcialmente desligados do núcleo ocidental que deu corpo à falácia da «integração europeia», contribui para a saúde e a dinâmica da própria União.

Uma tese que não tem ponta por onde se lhe pegue, a não ser a de se considerar que estas fragmentações resultantes da afirmação de centros regionais de influência e poder contribuem, de maneira casuística, para o reforço do poder ocidental, de que a União Europeia pretende considerar-se a bandeira.

Dois blocos que têm vindo a afirmar-se a Norte e a Leste do Continente reflectem, porém, muito mais divergências do que factores de união. São todos contra a Rússia – o principal factor de convergência enquanto for possível agitar, de maneira minimamente credível, graças a esforços de propaganda que não resultarão eternamente, o velho fantasma da ameaça moscovita – outrora soviética, hoje putinista. 

«A União Europeia está a desmentir a sua própria designação e a fragmentar-se em blocos regionais.»

A guerra na Ucrânia tem «colado» estas uniões, mas não pode prever-se a evolução do quadro quando for encontrada uma solução para este conflito. Nestas condições, uma inércia previsível da «ameaça russa» fragilizará as razões de união  e fará vir ao de cima as abundantes divergências. É um facto que alguns dos países envolvidos nestas uniões não estão apaziguados com as fronteiras actuais, têm velhas e sangrentas contas a ajustar com os vizinhos, cultivam correntes de superioridade étnica e ainda sonham até com tempos de grandezas imperiais.

Esfarelando-se o argumento de «todos com a Ucrânia» banderista poderão manifestar-se as enraizadas contradições entre blocos e, chegados a esse limite, então adeus União Europeia, nada a salvará porque nem como pilar do império será necessária. Outros desempenharão essa tarefa sem necessitarem sequer de invocar o cada vez mais débil e esquecido pretexto da «defesa da democracia».

Os dois blocos em evidência são o Intermarium, que pretende tornar-se insubstituível no alegado papel de defender o fundamentalismo xenófobo anti-russo (o Ocidente e o império apenas são para aqui chamados de maneira colateral) nos mares Negro e Báltico. Trata-se do renascimento da estratégia contra a Rússia (então União Soviética) montada por Josef Pidulsky, ditador polaco entre guerras, para unir a Polónia, a Lituânia, os sectores banderistas ucranianos e com pretensões a envolver também a Estónia e a Letónia. 

O Intermarium nasceu como uma ideia de conspiração e guerra e o seu reaparecimento reproduz esse padrão com toda a fidelidade. Integra a Polónia, a Ucrânia banderista, a Lituânia e surge vocacionado para funcionar sob protecção alemã, pretendendo ainda estender-se à totalidades dos Estados bálticos ex-soviéticos e à Geórgia. Um bloco assim estratificado cumpre as normas estratégicas estabelecidas pela administração Trump para a implantação de um «cordão sanitário» contra a Rússia. O ponto mais fraco desta associação é a guerra pela liderança operacional do bloco entre a Polónia e a Ucrânia ocidental, uma divergência histórica muito enraizada por razões de domínio territorial e, sobretudo, de carácter racista, agravadas pelas recentes homenagens de Kiev e Zelensky a genocidas banderistas, ideólogos da superioridade rácica ucraniana em relação aos polacos e que praticaram acções de extermínio de comunidades com esta origem. Há um evidente mal-estar entre Varsóvia e o banderismo de Kiev, apenas (mal) disfarçado pelas exigências da coligação de guerra contra a Rússia.

Menos afectado por circunstâncias divisionistas está o Bloco Viking, já institucionalizado no contexto europeu, assente num «acordo comum de defesa» como ponto de partida. A chamada «integração europeia» assume cada vez mais o seu carácter militarista e belicista, como se comprova. 

Os subscritores desse pacto são a Suécia, a Dinamarca, a Noruega, a Islândia e a Finlândia. Um bloco assim definido assenta como uma luva na ideia de «cordão sanitário» lançada por Trump, tem um papel estratégico essencial no controlo do Báltico (Dinamarca, Suécia e Finlândia), com extensão de importância insubstituível ao Mar do Norte e, sobretudo, ao Oceano Ártico. O Bloco Viking extravasa ostensivamente a União Europeia (minimizando-a neste contexto) através do alargamento à Islândia, à Noruega e à própria Groenlândia, que apesar de colonizada pela Dinamarca escolheu ficar de fora da vassalagem a Bruxelas. No imediato, o Bloco Viking pode funcionar também como um amortecedor das ambições de Trump sobre a grande ilha, desde que esta cumpra os objectivos estratégicos pretendidos pelo império no controlo do Ártico e como base militar nas operações contra a Rússia.

«O Intermarium nasceu como uma ideia de conspiração e guerra e o seu reaparecimento reproduz esse padrão com toda a fidelidade. Integra a Polónia, a Ucrânia banderista, a Lituânia e surge vocacionado para funcionar sob protecção alemã, pretendendo ainda estender-se à totalidades dos Estados bálticos ex-soviéticos e à Geórgia.»

Apesar do peso económico da Noruega, a Suécia assume o comando do Bloco Viking. Uma Suécia que renegou qualquer ilusão sobre a «experiência social-democrata», a falácia de um capitalismo com uma veia social entranhada, a partir do fatídico dia 28 de Fevereiro de 1986, data do assassínio, até hoje não esclarecido, do primeiro-ministro Olof Palme, que aconteceu quando este se preparava para uma viagem histórica à União Soviética. Desde esse dia nada foi como até então e as transformações políticas foram arrasadoras para o sistema «social-democrata». O Partido Social Democrata tornou-se neoliberal, o partido governamental «Moderados» é de direita neoliberal e os neofascistas chamam-se «Democratas da Suécia», além de serem plenamente admitidos como sujeito nos jogos de poder e na área governamental.

Estas grandes alterações trouxeram gradualmente à superfície, sobretudo a partir do momento em que se deu a adesão à NATO e em que as dores dos banderistas de Kiev foram assumidas pela NATO e a União Europeia, as velhas contas que o histórico expansionismo sueco acha que tem de acertar com Moscovo.
No quadro do Bloco Viking e do «cordão sanitário», a Suécia vai agora participar operacionalmente no controlo da fronteira da Finlândia com a Rússia, 217 anos depois de as tropas suecas ocupantes comandadas pelo rei Carlos XII terem sido derrotadas na Batalha de Poltava (hoje Ucrânia) pelas tropas russas de Pedro o Grande e forçadas a regressar a casa com pouco mais de cinco centenas de soldados. Acabou nessa humilhação o período expansionista sueco, o chamado Império Sueco, que permitiu a Estocolmo, a partir do século XVII, dominar a Finlândia, a Estónia, a Livónia, a Íngria (tomada à Rússia em 1617) e outras possessões em redor do Báltico.

«O Partido Social Democrata tornou-se neoliberal, o partido governamental "Moderados" é de direita neoliberal e os neofascistas chamam-se "Democratas da Suécia", além de serem plenamente admitidos como sujeito nos jogos de poder e na área governamental.»

Esta espécie de regresso ao passado com o reaparecimento de tropas suecas nas fronteiras russas poderá ser um ninho de provocações e servir os interesses de quem, dentro da União Europeia, explora os caminhos para uma grande confrontação.
Carlos XII da Suécia chegou a manter, até 1700, uma fortaleza e uma pequena cidade a que chamou Narva em território russo, no do qual o vitorioso imperador Pedro o Grande construiu S. Petersburgo a partir de 1703.

Depois de perder Narva, Carlos XII foi derrotado pelas tropas russas em Poltava (1709), tentou aliar-se com o vizir otomano, que lhe deu guarida mas acabou por traí-lo, e acabou as grandes aventuras imperiais às mãos do exército norueguês

Foi na Rússia que se iniciou a derrocada do império sueco; é agora, à cabeça do Bloco Viking, que a monarquia sueca (com uma família real, os Bernardotte, «importada» de França no século XIX) parece decidida a acertar contas com a Rússia, sonhando ainda com quase dois séculos e meio de domínio perdido.

Existe, porém, um outro lado da moeda: estamos a assistir à desagregação da União Europeia através da restauração, no concreto, de memórias históricas fatais que, devido à degeneração e falência do modelo da chamada «democracia ocidental», renomeada «democracia liberal», e à profunda crise social e humanitária por ela provocada, estão a vir convictamente à superfície para restaurar algumas das piores tendências que marcaram a história continental. A desde sempre inviável «integração europeia» parece trazer no bojo mais uma versão do enraizado e militarista caos europeu.

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