Um tribunal de apelação britânico afirmou que é coerente descrever o sionismo como uma ideologia racista, uma vez que «promove o estabelecimento de um Estado para apenas uma raça», e acrescentou que também pode ser descrito como «colonial e imperialista».
«É coerente descrever como “racista” uma ideologia [o sionismo] que promove o estabelecimento de um Estado [neste caso, Israel] para apenas uma raça [judeus] num território que anteriormente albergava um grande número de pessoas de uma raça diferente [palestinianos]», declarou o tribunal numa sentença proferida esta terça-feira.
«Tal ideologia, que defende a migração de membros do primeiro grupo para o território com o apoio de uma potência imperial para desalojar uma população indígena, também poderia ser coerentemente descrita como colonial e imperialista», lê-se no texto, citado pelo portal Middle East Eye.
A sentença do Tribunal de Apelação Laboral (EAT, na sigla em inglês) confirmou a decisão de um tribunal laboral que em 2024 sustentou que o despedimento do professor David Miller pela Universidade de Bristol, em 2021 – por comentários que expressavam os seus posicionamentos anti-sionistas –, configurava uma discriminação directa ilegal.
A universidade recorreu. No entanto, esta terça-feira, o EAT refutou essa contestação, afirmando que em 2024 o tribunal «não tinha errado em nenhuma das suas conclusões sobre a responsabilidade», incluindo a sua constatação de que as «crenças filosóficas« de Miller sobre o sionismo estavam «protegidas» por lei.
Uma vitória e um precedente legal
Miller, professor de Sociologia Política cujas investigações se centram em poder, lobbying e propaganda, foi despedido da Universidade de Bristol em Outubro de 2021, por má conduta grave, na sequência de uma forte campanha sobre as críticas públicas e comentários que fez sobre o sionismo, Israel e organizações pró-israelitas.
Na decisão de 2024, o tribunal laboral considerou que Miller tinha sido despedido por comentários que expressavam as suas crenças anti-sionistas, que defendeu como crenças filosóficas protegidas pela Lei da Igualdade de 2010.
Depois de conhecida a sentença do tribunal, esta terça-feira, Miller referiu-se a ela como «uma vitória para o movimento anti-sionista» e disse que a «campanha de pressão» contra ele se tinha «virado contra os seus autores de forma espectacular».
«É uma humilhação pública para o regime sionista genocida, cujos agentes na Grã-Bretanha coagiram a Universidade a despedir-me e depois a arrastaram para este recurso inútil», declarou Miller na sua conta de Twitter (X).
Em resposta à decisão do tribunal, o académico disse ainda que o seu caso permitiu criar «um precedente legal vinculativo», significando que «nenhum vice-reitor poderá alguma vez despedir legalmente um académico ou suspender um estudante simplesmente por identificar o racismo estrutural, o colonialismo e o imperialismo inerentes ao projecto sionista».
«Esta vitória pertence ao movimento global pela libertação da Palestina e pelo desmantelamento definitivo do sionismo», destacou.
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