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Duque: «É preciso garantir a ruptura no seio das Forças Armadas venezuelanas»

Em entrevista a uma agência espanhola, o presidente colombiano não falou da pobreza, da desigualdade, dos milhões de deslocados, dos assassinatos de dirigentes sociais no seu país. O tema foi a Venezuela.

Forças de segurança e civis na Ponte Internacional Símon Bolívar fogem da tentativa de atropelamento realizada por três elementos afecto a Guiadó
Forças de segurança e civis na Ponte Internacional Símon Bolívar fogem da tentativa de atropelamento realizada por três elementos afecto a GuiadóCréditos / RT

«Fui muito claro; mais que uma solução militar de carácter estrangeiro, hoje o que é preciso é garantir a ruptura no seio das próprias forças militares na Venezuela», disse este domingo Iván Duque, o presidente da Colômbia, numa entrevista concedida à agência Europa Press.

O chefe de Estado colombiano, que é um dos patrocinadores do golpista Juan Guaidó, que a 23 de Janeiro deste ano se autoproclamou «presidente interino» da Venezuela, referiu-se ao executivo de Nicolás Maduro nos termos já habituais para o próprio e os seus aliados da Casa Branca e do Grupo de Lima – como «ditadura atroz» e «usurpação».

Para Duque, as Forças Armadas venezuelanas podem assumir um papel importante na queda do «regime», tendo defendido que a Colômbia e demais inimigos da Venezuela bolivariana devem garantir que os militares se afastam do presidente eleito, Nicolás Maduro, e se colocam «do lado certo da História», ou seja, do golpista Guaidó a mando de Washington e da Assembleia Nacional – que se encontra em situação de desobediência jurídica, desde 2016, perante o Supremo Tribunal de Justiça.

Questionado sobre as denúncias do governo venezuelano – e também veiculadas por meios de direita – relativas a desvio de fundos e corrupção por parte da equipa liderada por Guaidó, o presidente colombiano tentou desculpar e limpar a imagem do dirigente do partido Voluntad Popular.

Também questionado sobre o posicionamento de Espanha relativamente à propalada «crise venezuelana», Duque – que tem sido reiteradamente acusado pelas autoridades de Caracas de, ao lado, de Washington, ser um dos principais promotores das tentativas de desestabilização na Venezuela – reiterou o seu contentamento pelo reconhecimento de Guaidó por parte do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e pediu aos líderes da Europa que sejam «cada vez mais fortes para precipitar a transição» na Venezuela.

Enquanto Duque viaja, dois dirigentes sociais assassinados

Enquanto Iván Duque se dedicava à promoção do golpe de Estado na Venezuela no seu périplo europeu, a dirigente social María del Pilar Hurtado Montaño foi assassinada em Tierralta, no departamento de Córdoba – a autoria do crime é atribuída ao grupo paramilitar Autodefensas Gaitanistas de Colombia. Ontem, sicários mataram a tiro Carlos Biscué, dirigente indígena Nasa e agricultor, no município de Caloto (departamento do Cauca), segundo revelou a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC).

De acordo com o movimento Marcha Patriótica e o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz), entre Janeiro de 2016 e Maio de 2019 foram assassinados 702 dirigentes sociais e 135 ex-combatentes das FARC-EP.

Ao ter conhecimento das declarações de Iván Duque, o ministro venezuelano dos Negócios Estrangeiros, Jorge Arreaza, reagiu de forma contundente na sua conta de Twitter: «Enquanto Duque viaja pelo mundo para promover golpes militares na Venezuela, na Colômbia a crise nos Direitos Humanos agrava-se dramaticamente. Volta a guerra, assassinam líderes sociais e ex-combatentes quase diriamente, produzem mais droga e mais pobreza».

Por seu lado, o presidente Maduro, ao participar nas cerimónias do Dia do Exército Bolivariano, que hoje se assinala, também denunciou as declarações do seu homólogo colombiano.

«Duque proferiu ontem declarações contra as nossas Forças Armadas; ele pretende erigir-se em comandante-em-chefe das FANB; dou autorização para responder à oligarquia de Bogotá como merece», sublinhou Maduro.

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