Cientistas e investigadores argentinos mobilizaram-se esta quarta-feira frente ao Obelisco portenho, tal como noutras cidades, para exigir ao executivo de Javier Milei que cumpra a Lei do Financiamento Universitário e alertar para a profunda crise que o sector atravessa.
A jornada de mobilização foi convocada para denunciar o desmantelamento geral do sistema científico no país austral. Dados do sector indicam que nem durante da «fuga de cérebros» implementada por Carlos Menem as verbas destinadas ao sector foram tão baixas.
Nem o então ministro da Economia, Domingo Cavallo – que mandou uma cientista do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (Conicet) ir «lavar pratos» –, chegou tão longe. Em 2003, refere o Página 12, a percentagem do PIB destinada à Ciência e Tecnologia foi de 0,17%, enquanto hoje é 0,14% – a mais baixa de que há registo.
Desde que Milei está no poder, perdem-se em média quase oito postos de trabalho ligados à Ciência e Tecnologia. Um relatório do Grupo de Economia, Política e Ciência aponta para 6400 postos de trabalho destruídos, 2051 dos quais no Conicet, 884 no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), 861 no Instituto Nacional de Tecnologia Industrial (INTI), 292 na Comissão Nacional de Energia Atómica.
Além disso, o Serviço Meteorológico Nacional deixou de fora 319 trabalhadores e a Secretaria da Ciência passou por um processo de «reorganização» que envolveu a destruição de 265 postos de trabalho.
Despedimentos, precariedade, baixos salários
Recentemente, no Conicet não foram renovadas as bolsas de pós-doutoramento a 379 investigadores formados no país. Rocío, uma das afectadas pela medida, denunciou a situação: «Fomos despedidos há alguns dias porque a renovação do nosso contrato foi negada. Isto provoca uma interrupção nas nossas carreiras, a perda de oportunidades de investigação e demonstra a ausência da ciência neste governo.»
Ao processo de «esvaziamento geral» do sector, junta-se a situação de precariedade, de baixos salários e de perda de poder de compra dos cientistas e investigadores nos últimos anos, o que obriga muitos deles a procurar um segundo e até um terceiro empregos para conseguirem subsistir.
Não somos terroristas
Em Buenos Aires, cientistas e investigadores leram um comunicado em que denunciaram o «ataque letal» ao sector e responderam a Milei, que na semana passada lhes chamou «terroristas disfarçados de estudantes, terroristas disfarçados de professores, terroristas disfarçados de investigadores».
Antonella Santin, com uma bolsa de doutoramento do Centro de Estudos Urbanos e Regionais, disse que «a produção de conhecimento está ligada ao bem comum». «Nós não investigamos para nós mesmos, em termos individuais. É preciso colectivizar a luta porque é uma questão de soberania; o ataque à ciência é um ajuste estrutural que visa concentrar lucros e redistribuir miséria», acrescentou.
Sheila Suárez, bolseira de doutoramento na Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires (UBA), aufere pouco mais de um milhão de pesos (580 euros), paga 730 mil pesos (424 euros) de renda e tem de sobreviver com o resto.
Sheila estuda a polarização do discurso e defende que a retórica violenta do presidente contra a comunidade científica e académica «responde a um modelo de país». «Tudo o que fomenta o pensamento crítico é atacado por Milei. Ele quer que as notícias falsas circulem rapidamente, e aquilo que a ciência e o jornalismo fazem – verificar a informação – é para ele trabalho do inimigo», disse ao Página 12.
Paralisação nacional para defender a ciência e a educação
No texto conjunto, os promotores da mobilização denunciam que o governo está há quase dez meses (296 dias) a incumprir a Lei do Financiamento Universitário, aprovada no Congresso e cujo cumprimento foi decretado pelos tribunais.
Também denunciam que os «libertários» não acataram a medida cautelar que decreta a actualização dos salários e bolsas, nem executaram o acordo firmado com vista a garantir fundos para o funcionamento dos hospitais universitários.
Neste sentido, os sindicatos do sector anunciaram uma paralisação entre os próximos dias 18 e 22 de Agosto, que inclui uma jornada de «visibilização» a 19, quando passam 300 dias da aprovação da lei.
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