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|Análise

Fim das bets no Brasil: O povo vibra, os milionários choram

Com a proibição das apostas online é possível ver a olho nu uma verdadeira luta de classes entre quem lucra e quem perde tudo.

Créditos Ricardo Stuckert

Não é um problema recente e nem uma disputa que começou agora, o perigo das chamadas bets (plataformas de apostas) é antigo e a sua denúncia também. Entretanto, este assunto ficou novamente debaixo dos holofotes com o intensificar da ofensiva do governo Lula contra as casas de apostas online, no culminar da assinatura de uma medida provisória para a sua proibição, em vigor até Março de 2027.

A campanha eleitoral deu o gatilho para o tema avançar, que parecia caminhar lentamente até Lula manifestar, num comício, a vontade de proibir as bets. De um dia para o outro, o tabu foi quebrado e alguns dos principais interessados na manutenção do jogo de apostas vieram em sua defesa: os grandes clubes de futebol e os influenciadores.

Reconhecer o problema da Saúde à Economia

Tal como outras formas de casino e jogos de azar, as apostas online eram proibidas no Brasil até à sua legalização pelo ex-presidente Michel Temer, em 2018, e posterior regulamentação, em 2023, pelo próprio Lula. Desde então, a modalidade não apenas cresceu, como se tornou a principal causa de endividamento das famílias. De acordo com os últimos dados divulgados pelo Banco Central do Brasil, 49,9% das famílias estão endividadas. O Boletim Fiscal dos Estados avança que as famílias perderam 62,5 mil milhões de reais (cerca de 10,5 mil milhões de euros), apenas em 2025.

O dinheiro perdido, além de promover um rápido endividamento do apostador e da sua família, reduz a actividade económica do país. Com uma redução da renda familiar, consomem-se menos alimentos, serviços, entretenimento, e toda a economia é afectada. Apenas em 2025, as bets foram responsáveis por retirarem de circulação valores entre 120 e 141 mil milhões de reais (20 e 23 mil milhões de euros), o equivalente a 0,9% a 1,1% de todo o PIB do Brasil, de acordo com o estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made) da Universidade de São Paulo (USP).

Até mesmo «descontando os cerca de 9 mil milhões arrecadados directamente com as plataformas de apostas, o efeito líquido sobre as contas públicas ainda seria negativo em, no mínimo, 22 mil milhões, podendo chegar até 46 mil milhões», destaca a conclusão do estudo, citada pela Agência Brasil.

Aquando da regulamentação, em 2023, estes efeitos na redução da actividade económica já eram esperados. Em 2024, temendo a queda dos lucros, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) manifestou-se receosa e listou o crescimento das bets como um dos principais «desafios do sector no país», avançava então o portal Meio & Mensagem.

A gravidade do problema está profundamente ancorada no efeito viciante que o jogo é capaz de gerar, uma dependência que funciona como os vícios em aditivos químicos e que prende sempre o jogador a uma próxima e maior aposta. A ludopatia, como é reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), exige um acompanhamento médico com a mesma seriedade que a toxicodependência, o que significa investimentos em saúde pública acrescidos. Irritabilidade, ansiedade, culpa e vergonha são alguns dos sintomas que um jogador compulsivo pode acusar. Mesmo sem estar necessariamente associada a um consumo de um químico externo, os riscos da ludopatia são semelhantes e quem sofre desta condição tende a apresentar um risco de suicídio 15 vezes superior ao risco em não-jogadores, declara Alexandre Padilha, ministro da Saúde.

O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) avança que o impacto financeiro das apostas online no Sistema Único de Saúde (SUS) é de 30,6 mil milhões. O aumento da procura por tratamento tem sido tão elevado, que o Ministério da Saúde aumentou os atendimentos mensais por telefone de 600 para 100 mil consultas. Até à data da assinatura da medida provisória, mais de 1,3 milhões de brasileiros já haviam solicitado a auto-exclusão das plataformas de aposta, 51% por questões de saúde.

Quem lucrou, agora chora. Quem chorou, agora sorri

Ao contrário do comércio, os clubes de futebol não se mostraram contentes com a proibição das bets. Alguns dias antes do anúncio oficial, grandes equipas, como Palmeiras, Santos, São Paulo, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco, chantagearam os fãs do desporto com a publicação do manifesto «Fim do futebol brasileiro». Em causa estava o cenário entendido como apocalíptico para o desporto, caso a proibição das apostas se concretizasse.

O manifesto em defesa das plataformas pretendia, em tom alarmista e indignado, convencer os adeptos de que as apostas são indispensáveis para a manutenção do desporto. E a afirmação até tem algum sentido, já que as equipas de futebol no Brasil e no mundo se tornaram profundamente dependentes do patrocínio dos jogos de azar. Esta realidade, recente e evitável, foi sendo construída a partir da substituição do patrocínio da indústria e da banca por casinos online e apostas desportivas. O próprio Mundial de Futebol de 2026 foi completamente tomado pelas casas de apostas, patrocinando directamente o evento ou indirectamente as emissoras de televisão e streaming, durante a transmissão das partidas.

Soma-se à indignação o facto de o manifesto tentar convencer o leitor de que se trata de um documento sóbrio de instituições preocupadas e ponderadas, que até reconhecem algum grau de risco da prática do jogo. Identificam a solução para o vício numa legislação mais robusta, que onere o poder público das «medidas de protecção, fiscalização, educação e prevenção», mas que impeça o mesmo poder público de travar o mal pela raiz, proibindo as apostas.

Outros largamente patrocinados pelas bets e que agora se mostram amargurados nas redes sociais são os influenciadores digitais. Há toda uma gama de influenciadores, que, à semelhança do que é feito em Portugal, dão publicidade às casas de apostas em troca de avultados valores. Criadores de conteúdo, dos mais variados nichos, que se tornaram milionários da noite para o dia a propagandear a milagrosa «renda extra» que invariavelmente leva os seus próprios seguidores à falência. Ironicamente, o sector da publicidade tradicional (que vende bens de consumo e serviços) foi-se afastando dos influenciadores demasiado ligados à propaganda de bet, tornando alguns exclusivamente dependentes desta prática, à semelhança do caso do futebol.

Desde 25 de Setembro, aquando do anúncio da medida provisória, estes influenciadores têm publicado vídeos num tom desesperado, questionando-se sobre o futuro, agora que a sua única fonte de rendimento cessou. Muitos resolveram aproveitar o momento para quebrar uma fachada apolítica que mantinham para então anunciar o voto em Flávio Bolsonaro. Assim como os clubes, um grupo de influenciadores patrocinados pelas apostas juntou-se na publicação de mais um manifesto em defesa do jogo «#NósApostamosNoBrasil».

Entretanto, nem as equipas de futebol, nem os influenciadores estavam à espera da resposta que os adeptos e a sociedade civil dariam aos seus manifestos. Enquanto um lado protegia os seus rendimentos, à custa da saúde física e financeira das pessoas, o outro via, pela primeira vez desde 2018 a possibilidade de acabar finalmente com um flagelo silencioso e vergonhoso que acometia a população. Dados da Instituto Democracia em Xeque (DX) revelam que a proibição das bets foi «o maior evento político das redes [sociais] do ano», maior do que o escândalo do envolvimento dos ministros do Supremo Tribunal Federal no Banco Master. Só nos três primeiros dias após o anúncio foram registados 2,5 milhões de publicações e 40 milhões de interacções sobre o tema nas redes sociais monitorizadas, e 52% eram em sentido favorável à proibição.

Apesar do crescimento de dois pontos percentuais de Lula na última sondagem do BTG/Nexus, não é possível atribuir inteiramente à medida contra as bets, já que o assunto coincidiu com outro que também tomou os noticiários: a associação de Flávio Bolsonaro a uma iniciativa para alterar o status da Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. Entretanto, segundo a sondagem Quaest, a proibição das bets é aprovada por 62% do eleitorado. Fazendo da repercussão em favor da proibição tão eloquente que o próprio Flávio Bolsonaro precisou se manifestar publicamente pela proibição dos jogos da modalidade de casino, porém manteve-se contra a proibição das apostas desportivas.

Quase podemos dizer que quando as bets, através dos influenciadores, proclamam «#NósApostamosNoBrasil», estão a afirmar uma meia verdade. Desde a sua entrada no Brasil, que apostavam o futuro dos cidadãos e o rumo do país. Admira que quem sempre apela à «moderação e ao jogo com responsabilidade» não saiba reconhecer quando perdeu e quando deve arcar com as responsabilidades dos seus actos.

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