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Sobre as práticas artísticas

Gravura de Jorge Pé-Curto na Imargem, Arte de Rua em Love All Colours II na LAC, Leonor Vieira na SCALA e obra de Manuel Cargaleiro na Oficina de Artes.

Exposição «LOVE ALL COLOURS II» no Laboratório de Actividades Criativas-LAC, em Lagos.
Exposição «LOVE ALL COLOURS II» no Laboratório de Actividades Criativas-LAC, em Lagos.Créditos / Laboratório de Actividades Criativas-LAC

Genericamente, poderemos considerar que os artistas plásticos, assim como outras áreas de intervenção artística que privilegiam o espaço da prática e experimentação artística para a criação, vêm-se por vezes confrontados com a incompreensão por parte do público em geral, que obviamente tende a valorizar a experiência estética apenas quando a obra está em contacto com os espectadores, ou seja, numa exposição. É um erro pensar que um artista plástico apenas necessita de apoio para expor, esquecendo que todo o processo que chega à obra exposta necessita de meios e materiais para a sua criação. A criação artística, nos dias de hoje, não é apenas mais especializada e complexa como exige um conjunto de meios e equipamentos que nem sempre estão acessíveis à grande maioria dos artistas. Torna-se assim importante apoiar e incentivar a criação de mais espaços, equipamentos e projectos destinados à prática artística, facilitando o seu acesso tanto a artistas como à população em geral, para todas as idades, contribuindo assim também para a formação de públicos.

A Imargem - Associação de Artistas Plásticos do Concelho de Almada, é uma associação sem fins lucrativos, fundada em 1982 pelos artistas Francisco Bronze, Jorge Pé Curto, Pedro de Sousa, Louro Artur, José Zagallo, Carlos Canhão, Lourdes Sério, Ângela Luzia e Vítor Ferreira. Cerca de 200 artistas passaram pela Imargem, destacando Alberto Gordilho, Álvaro Carneiro, Cecília Guimarães, Ilda Bragança, José Azevedo e Rogério Amaral, entre tantos outros. Actualmente a Imargem conta com cerca de 50 artistas plásticos que participam regularmente nas suas actividades. Um dos projectos da Imargem é a «Galeria de Arte Imargem», onde ocorrem 15 exposições por ano, individuais e colectivas, organizadas pela Imargem ou por outros projectos com que a associação desenvolve parcerias. Além deste projecto, a Imargem organiza outras exposições em Almada, a Exposição Anual Imargem com os artistas da Imargem (desde 1982) e a colectiva Pluralidades na Oficina de Cultura de Almada (desde 1994), onde participam artistas da Imargem e de outras associações convidadas. Na Imargem tem-se vindo a promover também a Formação Artística em Pintura, Cerâmica, Desenho, Gravura e Teoria de Arte, onde se iniciam e desenvolvem diversas práticas artísticas e outros eventos como o Arte Em Festa (2015-2018) e a Bienal de Desenho de Almada–Prémio Pedro de Sousa (2016 e 2018) em que têm participado cerca de centena e meia de artistas de todo o país.

«Exposição de Gravura» de Jorge Pé-Curto na Imargem, em Almada. Créditos

Na Galeria de Arte Imargem1 inaugura, sexta-feira, dia 25 de Outubro, pelas 21h, a «Exposição de Gravura» de Jorge Pé-Curto, que poderá ser visitada até 12 de Novembro. Jorge Pé-Curto é um artista que desenvolveu actividade em cerâmica, pintura, cartaz e gravura, mas seria na escultura, nomeadamente na pedra, que viria a centrar o seu trabalho. Expõe desde 1972, com regularidade, em diversas galerias e tem desenvolvido obras de arte pública por todo o país, podendo observar-se esculturas de Pé-Curto em diversos espaços públicos de Almada, no Seixal, Montemor-o-Novo, Belver, Ferreira do Alentejo, Alfândega da Fé, Penafiel e Setúbal, entre muitos outros.

«Jorge Pé-Curto, cultor da mais fina ironia, mostra-nos como se esbatem fronteiras, se realizam insólitas simbioses e como, pelo poder das metáforas, podemos aceder a mundos tendencialmente melhores» como refere o crítico de arte Edgardo Xavier (2000). Numa entrevista à RTP realizada por Raquel Santos2 em 2006, o artista Pé-Curto afirmou que o conteúdo da maior parte da sua obra é de raiz literária, interrogando sempre o papel do homem no mundo, perante a natureza e a sociedade. Através da sua actividade criativa, este artista não procura apenas o resultado estético e formal, mas também que as suas obras comuniquem algo ao espectador, dando importância aos temas e às suas mensagens. A presente exposição de gravura é assumida por Pé-Curto como o «resultado de uma prática que recentemente veio a ganhar relevo significativo no meu percurso artístico». O artista refere ainda no texto desta exposição que a ligação da técnica da gravura com a escultura «faz todo o sentido, a construção da matriz exige do artista desafios semelhantes aos que encontra no domínio dos materiais» da escultura.

O LAC – Laboratório de Actividades Criativas é uma associação cultural sem fins lucrativos, formada em 1995 por um grupo de indivíduos com actividade em diversos sectores da cultura (Escultura, Pintura, Cerâmica, Música, Arquitectura, Cinema, Museologia, Defesa do Património), com o objectivo principal de dinamizar e promover a criação artística na região com especial incidência na zona do Sudoeste Algarvio, ocupando o espaço da antiga cadeia de Lagos. O LAC tornou-se, desde 2001, numa estrutura de acolhimento artístico, permitindo albergar anualmente projectos individuais e colectivos, em áreas tão diversas como a música, a pintura, a escultura, e/ou outros projectos de cariz alternativo e não comercial. Em 2008, implementa o PRALAC – Programa de Residências Artísticas do LAC e começa a dinamizar exposições, performances, concertos no seu espaço, na promoção dos artistas residentes, mas também em parcerias com diferentes entidades de âmbito regional e nacional. Ao nível da formação desenvolve Cursos Anuais, com actividades de Dança e Expressão Plástica, e promove oficinas e workshops técnicos das diversas áreas artísticas, tendo protocolado actividades com as turmas de Artes das Escolas Secundárias Gil Eanes e Júlio Dantas, ambas de Lagos. Desenvolve diversos projectos internacionais, como ARTURb - Artistas Unidos em Residência, ROOTS e KICK IN THE EYE.

Na associação LAC3 podemos visitar a exposição Love All Colours II, com a participação dos artistas AliasB-ToyCzarnobylJorge CharruaJorge PereiraMário BelémMr ThomsErnest NassimoRené Mayer “Rmyr” e  Stefan Winterle, até 9 de Novembro. Esta exposição resulta da selecção de trabalhos do acervo do LAC em parceria com a OD Gallery , sediada em Amesterdão, Holanda. A OD Gallery refere na apresentação da exposição que «a LAC é conhecida pelas suas colaborações com renomeados artistas internacionais de rua, muitas vezes antes de serem conhecidos pelo grande público. Eles oferecem-lhes residências de artistas, dando a oportunidade de poderem desenvolver e avançar a sua carreira fora do mercado de arte. Como parte da residência, todos os anos os artistas da LAC transformam a cidade de Lagos num enorme museu de arte de rua. Nesta exposição, unimos forças com a LAC. Juntos, criámos uma exposição com uma grande variedade de obras de arte dos artistas de rua do futuro.»

Sugerimos também, para a próxima quinzena, a visita à exposição de artes plásticas O Teatro é Tudo de Leonor Vieira na SCALA4, em Almada, até dia 1 de Novembro. Tudo começa com a recolha de material abandonado, em lixeiras, no mar, nos resíduos domésticos, em espaços de obras ou oferecido por amigos, passando depois por um processo criativo utilizando ferros, arames, cera de abelha, papel, tecidos, colas, argilas, pasta de papel, tintas acrílicas e de óleo, e assim surgem «os meus “bonecos”», como lhe chama a autora, em esculturas, instalações, quadros e «layers». Segundo o texto de Leonor Vieira, o tema da exposição O Teatro é Tudo é dedicado «a todos os actores que perderam a vida e foram censurados pelo fascismo, pelos actores que lutaram pela liberdade da voz e do acto e a todos os actores da actualidade».

Exposição na Oficina de Artes Manuel Cargaleiro no Seixal. Créditos

A Oficina de Artes Manuel Cargaleiro5, situada na Quinta da Fidalga na Arrentela é um equipamento cultural do município do Seixal inaugurado em 2014, sendo o edifício de autoria do arquiteto Álvaro Siza Vieira e é dedicado a Manuel Cargaleiro, autor de obras emblemáticas de pintura em azulejo como a fachada do Instituto Franco-Português de Lisboa ou os painéis da estação do metro de Champs Elysées-Clémenceau, de Paris. Em Novembro a Oficina de Artes terá uma nova exposição, que irá substituir a que tem ocupado o seu espaço expositivo desde 2016, «A Essência da Forma» com obras de Cargaleiro e de Siza Vieira, promovendo a arte contemporânea e em particular a obra de Cargaleiro, com trabalhos seus de pintura em azulejo, cerâmica e pintura. Sobre o seu trabalho de criação artística Manuel Cargaleiro refere: «... sou ceramista mesmo quando faço pintura a óleo. Não consigo imaginar uma coisa sem a outra. As minhas duas práticas, claro que se influenciam mutuamente...»6. Este equipamento cultural no Seixal desenvolve ainda com regularidade diversas oficinas de criação artística, promovendo a prática das artes junto dos mais novos e população em geral.

  • 1. Galeria de Arte Imargem - Rua Torcato José Clavine, Nº19 Piso 03, 2800-710 Almada. Horário: segundas das 10h00 às 14h30, quartas das 10h00 às 13h00 e das 14h00 às 17h00 e quintas das 16h00 às 20h00.
  • 2. Entrevista a Jorge Pé-Curto, escultor, realizada por Raquel Santos, RTP, 2006.
  • 3. LAC - Largo Convento Sra. da Glória, 8600-660 Lagos. Horário: quarta-feira a domingo (11h00 > 19h00 CEST).
  • 4. SCALA-Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada – Rua Conde de Ferreira (Ex-Delegação Escolar) Almada. Horário: Quarta, Quintas e Sextas entre as 15h e as 17h. Contacto: 965350257.
  • 5. Oficina de Artes Manuel Cargaleiro - Avenida da República 2571 Arrentela 2840-741 Seixal. Horário: Terça a domingo, das 10 às 17 horas. Encerra aos domingos, feriados e segundas-feiras.
  • 6. In LASCAUT, Gilbert (2003). Manuel Cargaleiro: Lisbonne-Paris, 1950-2000: peintures/pinturas. Paris: Éditions Palantines.

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