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Raquel Castro descobriu que Gil Vicente tem «aura»

Raquel Castro regressa à escola, desta vez com Gil Vicente, um aluno adormecido e uma pergunta incómoda: se fosse hoje, quem seria levado na barca do inferno? O AbrilAbril esteve à conversa com a criadora, que reconheceu a aura da peça quinhentista. 

Créditos / AbrilAbril

Há um aluno problemático em quem a escola já não acredita. Leonardo está na última fila da sala de aula, adormece durante a leitura integral do Auto da Barca do Inferno, mas aparece-lhe o mui importante Gil Vicente, que quer que ele acorde. O autor «acha que a sua peça merece uma segunda oportunidade», e que Leonardo também.

Esta é a premissa de Sumário: Auto da Barca do Inferno, segundo espectáculo (ver caixa lateral) da série Teatro Escolar da companhia Razões Pessoais, pensado para professores e alunos, que se estreia esta quinta-feira, 8 de Outubro, na Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II (TNDM), em Lisboa. 

Ao texto dramático de Gil Vicente, que lhe serviu de matéria-prima, Raquel Castro juntou várias inquietações e uma certeza: foi, e continua a ser, na escola (ou a partir dela) que quase todos contactámos pela primeira vez com o teatro. A partir daí, a criadora sentiu vontade de olhar para a forma como o teatro continua a ser dado em sala de aula. Mas também para a forma como a Escola Pública, extenuada pela falta de investimento, muitas vezes não consegue agarrar quem foge dos padrões pré-definidos, como no caso de Leonardo, o que faz com que muitos alunos a vejam como um «purgatório».

«Quisemos criar aqui uma história paralela e a que encontrámos foi a de um aluno que adormece na sala de aula, está desinteressado, sente que a escola desistiu de si, mas, através deste encontro com Gil Vicente, acontece ali qualquer coisa e ele volta a ganhar alguma confiança e faz-nos um longo desabafo sobre a escola se calhar não servir algumas coisas que era bom poder servir», descreve Raquel Castro ao AbrilAbril, após um ensaio aberto à imprensa. A autora reconhece a existência de uma «lógica punitiva», com a escola a ter dificuldade em segurar quem não está ao nível considerado necessário, quem é disruptivo. «É uma coisa hiper real e uma inquietação que eu acho que é importante partilhar e pensar sobre ela», acrescenta.

Sobre o facto de a Escola Pública insistir nos mesmos textos dramáticos, ao longo de várias gerações, considera, não só, que os conteúdos programáticos «são um bocadinho desactualizados», como reprova a subsistência de ideias desactualizadas. «Há outras coisas que se dizem ou que se pensam sobre o teatro, a mais gritante, de nos manuais dizerem que o texto dramático só é completo se for representado, que é uma ideia completamente ultrapassada. Como se o teatro ou o texto dramático não pudesse existir fora do teatro ou do espectáculo», desabafa Raquel Castro.

Créditos AbrilAbril

No campo da resistência a textos escritos numa linguagem que hoje parece encriptada, a actriz, encenadora e dramaturga admite a importância de «dar a entender a professores e alunos que, à parte das dificuldades, estas peças podem-nos dizer muita coisa», sendo por isso fundamental olhar para elas à luz da realidade dos nossos dias para tentar criar aproximações.

«O que é que a peça nos diz hoje? Como é que podemos olhar para ela hoje? Que temas é que estão lá? Quem seriam estas pessoas se fosse hoje? É ler com os olhos de hoje», em vez de «estar a tentar fazer como era antigamente», explica Raquel Castro. Aqui entra o desafio da peça protagonizada por Ana Valente, Bernardo Gavina, Pedro Baptista e Rita Brütt, que Raquel Castro apimentou com questões que assolam o nosso tempo, como a guerra, o genocídio em Gaza, o fascismo ou as desigualdades. «Acima de tudo, tentou-se falar das coisas que a peça traz. E depois, sim, falar de quem é que iria na barca [do inferno] hoje em dia», sublinha, frisando que o resultado é «uma amostra», «não está toda a gente».

Créditos AbrilAbril

Interpretar Gil Vicente a partir da realidade de hoje não significa apagar o contexto em que a peça foi escrita, adverte a autora. «Eu não concordo que se apaguem palavras de livros, acho isso absurdo. Mas, naturalmente, acho que temos o nosso contexto também. E na mesma podemos julgá-lo e não querer aprovar, mas a verdade é que há um contexto para as coisas. Não podemos falar de uma peça que tem 500 anos sem saber que ela tem 500 anos, tal como o Frei Luís de Sousa», frisou.

Brincar com a linguagem

Nas aproximações ao quotidiano para tentar descodificar Gil Vicente e uma das obras mais reconhecidas da literatura portuguesa, Raquel Castro propõe uma brincadeira com a linguagem. «Aura» (carisma), «cringe» (constrangedor, vergolha alheia) ou «suss» (suspeito) são alguns dos termos ouvidos nesta sala de aula e que deixariam Gil Vicente tão à toa como quem tenta interpretá-lo durante a leitura do Auto da Barca do Inferno. O exercício é proposto pela magistral Rita Brütt (que interpreta o papel de professora), não obstante o incrível desempenho do restante elenco.

Raquel Castro reconhece que, no caso de Gil Vicente, «a maior barreira é mesmo a questão da linguagem», numa altura em que os mais novos continuam a transformar a que usamos. «A pessoa não percebe o que é que lá está e desliga, é muito encriptado», constata.

A uma semana da estreia de Sumário: Auto da Barca do Inferno, e apesar de ainda haver coisas «por afinar», a encenadora mostrava-se satisfeita com o resultado, na expectativa de que se repita a experiência alcançada em 2024, com TPC: Frei Luís de Sousaaaa.

«Foi inacreditável. Adoro o espectáculo, adoro ver com turmas. Sente-se um espírito de missão, e a recepção também foi muito boa», recorda.

Créditos AbrilAbril

O espectáculo Sumário: Auto da Barca do Inferno estará em cena no TNDM, entre 8 e 31 de Outubro, com sessões para escolas, às quartas e quintas-feiras. A partir daí, conta Raquel, terá uma «digressão enorme até Março» do próximo ano (ver caixa acima), no âmbito do programa Próxima Cena, do Teatro Nacional D. Maria II, em localidades de baixa densidade populacional.

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