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O Porto do Tê

Por mais canções épicas que se escrevam sobre a mui nobre, leal mas nem sempre invicta cidade, não será fácil descrever toda a região do Porto numa única obra de arte como o fez Carlos Tê.

Rua de Santo António (actualmente, Rua 31 de Janeiro), Porto 
Rua de Santo António (actualmente, Rua 31 de Janeiro), Porto Créditos / Arquivo Municipal do Porto

Quando a minha família chegou a S. Mamede de Infesta, em agosto de 1989, o verão ia longo e as noites estendiam-se indolentes ao som alegre das crianças do novo bairro, que acabava por se diluir no silêncio do minifúndio. O recém-elevado a cidade pequeno burgo das margens do Leça acolheu-nos numa época em que os primeiros efeitos do dinheirinho da CEE já se faziam sentir. Pouco depois, quando o outono se revelou, o Muro caiu e nós mal demos pelo que estava a ficar para trás.

«Da voz de Rui Veloso saía uma chave para descodificar toda aquela linguagem nova que nos envolvera em três tempos, como uma valsa sedutora ou um twist»

Os anos 90 começavam ali, numa mistura de expectativas altas com manutenção do status quo. As lojas de eletrodomésticos gritavam «nova tecnologia a prestações», os surfistas ocupavam domínios de outras tribos, os salões de beleza renovavam as revistas, a BMW agora tinha um modelo i e a noite continuava para lá das traseiras da Fábrica dos Produtos Estrela, entre o tecno e a house, enquanto a vodka limão substituía o gin tónico ou o brandy cuja fama vinha de longe. 

Em 1990, comprámos o último disco em vinil – o Mingos & Os Samurais – e rodámo-lo até à exaustão. Havia qualquer coisa naquele álbum que nos unia, que nos levava à sua constante partilha, nas festas, nos dias soalheiros passados em casa, nos últimos momentos em que, em família, iríamos ouvir música em casa. Da voz de Rui Veloso saía uma chave para descodificar toda aquela linguagem nova que nos envolvera em três tempos, como uma valsa sedutora ou um twist. A prosódia do burgo, os hábitos domingueiros, a mistura de classes nas mesas dos cafés ou o significante das coisas em cada expressão eram a cultura popular a agitar-nos e a transformar-nos lentamente em tripeiros.

Por detrás de tudo isso estava um génio discreto que observara das mesas de outros cafés do Porto a vida cá fora. E por mais canções épicas que se escrevam sobre a mui nobre, leal mas nem sempre invicta cidade, não será fácil descrever toda a região do Porto numa única obra de arte como o fez Carlos Tê.

«o Porto ainda não tinha incorporado uma cultura visual pop anglo-saxónica. A globalização ainda não tinha batido à porta. A sua relação com os objetos de cultura era genuína e original»

Mingos & os Samurais é um retrato propositadamente anacrónico de um Porto que, naquela época, ainda resistia na Rua de Belmonte, na Rua das Flores, na Rua da Alegria, na Rua do Almada ou na Antero de Quental. Mas a cidade estendia-se pela sua periferia e a sua cultura transformava-se naquilo a que os anos 90 chamariam «azeiteiro». Remetendo-se aos meados dos anos 70, o disco idealizado pelo génio artístico e poético de Tê recupera um lugar de genuinidade numa cidade onde o cinismo do cosmopolitismo demorou a penetrar. Era uma região de bailes e de paróquias, de domingos à tarde e Nelson Nedes, de idas para Pedras Rubras para ver os aviões a aterrar, de grandes almoçaradas no Machado ou no Fernando, de democráticas francesinhas comidas entre gargalhadas e cenas de pancadaria, do amor escrito em cartas e de convites para dançar. Nada disto passa despercebido a Carlos Tê, que a nós, ali chegados, tão tenrinhos, nos ajudou a ler uma sociedade que parecia incoerente. 

Mas essa aparente incoerência de um Porto onde, por exemplo, a burguesia era obrigada a viver no meio da classe operária, não era senão um ato de resistência. Dos Carvalhos ao Mindelo, o Porto ainda não tinha incorporado uma cultura visual pop anglo-saxónica. A globalização ainda não tinha batido à porta. A sua relação com os objetos de cultura era genuína e original. Por outro lado, não havia escolha. Se se queria ter uma banda e não se frequentavam os salões da cidade, havia muito baile para fazer, muito local de ensaio improvisado, muito arraial de facho para levar. 

Nesse Porto, esse grande Porto onde todos acabamos por dizer que vivemos, o anel de rubi e o vestido que ela prometeu tirar não eram uma caricatura da parolice, mas uma imagem da ternura – essa ternura que só um mundo que ainda não foi contaminado por modelos de entretenimento massificados consegue ter. 

«Depois do Mingos veio o cinismo e, lentamente, fomos dizendo adeus a um lugar que nunca mais seria o mesmo e que acabaria por sucumbir às aparências, como se, para inglês ver, não tivesse já passado fominha»

Quando o disco saiu em 1990, esse Porto ainda existia. No meu bairro, onde no outono cheirava a café moído e terra húmida, havia um homem, ainda jovem, que usava um bigode farto e uma tatuagem de guerra; um outro, aos domingos, lavava o carro na rua ao som do Roberto Carlos. Nas festas de aniversário havia comida em abundância, em casas muitas vezes com telhados de zinco, e dançava-se a lambada ou, em slow, A Paixão (segundo Nicolau da Viola). Nas mesas dos cafés ninguém julgava ninguém, a autoironia era mais frequente do que a snobeira e liam-se jornais como o Comércio e o Janeiro. Por vezes, em rara intriga, ainda se falava de um bufo da Pide que vivia no fundo da rua ou no sorumbático «retornado» que ainda vestia caqui e bebia Logan aos sábados à tarde. Apesar de todas as tragédias, a vida continuava e com banda sonora.

Mingos era, por isso, um símbolo desse fim de semana eterno que se vivia há, pelo menos, duas ou três décadas, e de pessoas que se queriam divertir com o corpo todo. Era um disco onde se dizia «não precisamos da vossa MTV para nada», porque ali nós tínhamos aquilo que se espera de nós: uma cultura que vamos construindo e transformando, que vamos enfeitando com a imaginação e que representa a nossa relação coletiva. Depois do Mingos veio o cinismo e, lentamente, fomos dizendo adeus a um lugar que nunca mais seria o mesmo e que acabaria por sucumbir às aparências, como se, para inglês ver, não tivesse já passado fominha. 

«Recuperar Mingos & Os Samurais em 2021 não é, por isso, uma nostalgia vã de uma época em que eu ainda era criança, mas relembrar que podemos ser muito mais do que este produto importado»

Há uma particularidade na produção deste disco, ainda que involuntária, que o marca profundamente. Mingos é um disco com som de casino, de music hall. Os arranjos para as guitarras e sintetizadores, a mistura da bateria – tudo isso – está bastante datado. Não muito depois, Abrunhosa lançaria Viagens, numa produção de estúdio que mudaria a música portuguesa para sempre (muito graças a um outro portuense visionário – Mário Barreiros). Até nisso, o Mingos é um disco de fim de época, como se o século tivesse, na verdade, terminado ali.

Recuperar Mingos & Os Samurais em 2021 não é, por isso, uma nostalgia vã de uma época em que eu ainda era criança, mas relembrar que podemos ser muito mais do que este produto importado; que podemos continuar a estremecer com o rock’n’roll e as mesas de bilhar; que podemos espreitar a procissão na quaresma enquanto compramos cavacas; que podemos beber um copo num karaoke na Maia na noite de Natal; que podemos, enfim, descobrir no nosso bairro, todos os dias, essa ternura e permitimo-nos gostar de viver sem o peso de ter de parecer algo que alguém espera de nós. 

Muitos de nós ainda praticamos este Carlos Têismo em nossas casas. Mas é importante trazer a cultura popular para a rua; devolver-nos à cultura popular como um filho pródigo. 

O autor escreve ao abrigo do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90)

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