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A memória e o arquivismo na arte contemporânea

Partindo da ideia/conceito de trabalho, pretende-se reactivar «a memória do espaço de trabalho, fabril e industrial» no Centro de Arte Oliva. QuARTel da Arte Contemporânea. «Ver de Fazer» e Cerâmica em Almada.

TRABALHO CAPITAL # ENSAIO SOBRE GESTOS E FRAGMENTOS Vista geral da exposição-instalação no Centro de Arte Oliva, 2019
TRABALHO CAPITAL # ENSAIO SOBRE GESTOS E FRAGMENTOS Vista geral da exposição-instalação no Centro de Arte Oliva, 2019 CréditosPaulo Mendes / Archive Studio/Pedro Figueiredo

O Centro de Arte Oliva1, situado em S. João da Madeira, ocupa um espaço onde existiu a antiga fábrica Oliva, fundada nos anos 20 do século passado e extinta em 2010. É um centro de arte contemporânea e assume-se trabalhar regularmente com projectos de arte bruta/outsider. Resumidamente, arte bruta, segundo o seu teórico e impulsionador, Jean Dubuffet (1901-1985), é «uma operação artística inteiramente pura, crua, reinventada no conjunto de todas as suas fases pelo seu autor, somente a partir dos seus próprios impulsos». Em Portugal, devido a algumas interpretações incorrectas da tradução e interpretação do termo Arte Bruta, optou-se por utilizar «Arte Outsider», como refere a Associação Portuguesa de Arte Outsider2.

No Centro Oliva está actualmente a Exposição-Instalação «Trabalho Capital # Ensaio Sobre Gestos e Fragmentos» comissariada pelo artista-curador Paulo Mendes, a partir da Colecção Norlinda e José Lima, e pode ser visitada até 13 de Outubro. Nesta exposição-instalação participam mais de cem artistas nacionais e internacionais, consagrados e emergentes. Paralelamente aos trabalhos de Arte Contemporânea estão também vídeos de visitas realizadas durante o processo de produção e entrevistas com diversos operários que trabalharam na Fábrica Oliva, assim como todo o arquivo histórico da Oliva. Este projecto tem a duração de um ano, desenvolve-se desde Março e esta exposição constitui a sua primeira fase, vindo posteriormente a acontecer uma nova fase, a partir de Novembro.

Vista geral da performance de Manuel Santos Maia na inauguração da exposição-instalação no Centro de Arte Oliva, 2019. Fotografia: Paulo Mendes Archive Studio / Pedro Figueiredo CréditosPaulo Mendes / Archive Studio/Pedro Figueiredo

Segundo Paulo Mendes, partindo da ideia/conceito de trabalho, pretende-se reactivar «a memória do espaço de trabalho, fabril e industrial» e convocar «a memória histórica, social e política da Oliva, confrontando-a com o nosso tempo e o actual espaço expositivo». Outra das pretensões do comissário é «aprofundar, na sua pesquisa, diferentes ferramentas da antropologia, história ou arqueologia, através da pesquisa de terreno ou da documentação em arquivo. Neste projecto convidamos o público, os criadores e investigadores a explorar a dimensão cultural do espaço físico pós-industrial»3

Não é a primeira vez que Paulo Mendes desenvolve projectos de intervenção artística em antigas fábricas, como fez em “UrbanLab” na Fimai, sector X da zona industrial da Maia (2001), em “Terminal” no Hangar K7, Fundição de Oeiras (2005), em Guimarães, por altura da Cidade Europeia da Cultura “CCC - Collecting Collections and Concepts” no sector G da fábrica ASA (2012) e agora “Trabalho Capital - Ensaio sobre gestos e fragmentos”, na fábrica Oliva (São João da Madeira, 2019). Conceito ampliado não só dos modos de expor, em que a obra intervém e subverte mas também, como refere Luís Ribeiro, «Paulo Mendes constrói as suas exposições como lugares de manipulação de ideias e de conflito de interesses, destruindo a ideia da exposição como lugar neutro de divulgação»4.

Exposição de Rui Algarvio ‘Assomada’ na galeria QuARTel da Arte Contemporânea de Abrantes, em 2019 Créditos

A partir do período do pós-guerra, nos anos dos anos 60 do séc. XX começam-se já a configurar práticas e procedimentos artísticos próximos de outras áreas, como a história e a antropologia social, levando Hall Foster a chamar a atenção para um «impulso arquivista» nas artes, embora não lhe reconhecendo nada de original, «considera que a arte arquivista, pelo seu carácter próprio, foi suficientemente prevalecente nos primeiros anos do séc. XX para que se lhe garanta o direito a ser apreciada como forma artística autónoma». Hall Foster, também refere que, quanto ao seu formato, a arte arquivista tende para a instalação, «em que o artista apresenta material encontrado (imagem, objecto, texto) com fontes que são familiares e provenientes da cultura de massas, ou arcanas, obras “recuperadas com uma intenção de saber alternativo ou de contra-memória”»5.

No Centro Oliva poderemos ainda ver duas exposições permanentes. Uma é a «Colecção de Arte Moderna e Contemporânea - Norlinda e José Lima», colecção que compreende aproximadamente mil e duzentas obras de arte onde estão representados cerca de duzentos e cinquenta artistas portugueses e duzentos e trinta artistas internacionais, nas áreas da pintura, escultura, desenho, fotografia, instalação, filme e vídeo. Esta colecção foi iniciada em 1980 e foi a razão de se ter criado o centro Oliva em 2013 em S. João da Madeira. A outra exposição que está disponível ao público no Centro Oliva é a «Colecção de Arte Bruta/Outsider — Treger/Saint Silvestre», incluindo uma grande variedade de técnicas e materiais, desde pintura, desenho, escultura, cerâmica, tapeçaria, fotografia, mecanismos eléctricos, objectos recuperados e materiais atípicos como matérias orgânicas.

Inauguração da Exposição «Ver de Fazer 23» na Oficina de Cultura, em 2019 CréditosFrancisco Palma /

Outra das propostas para a próxima quinzena, será uma visita às instalações da Galeria Municipal «QuARTel da Arte Contemporânea de Abrantes – Colecção Figueiredo Ribeiro»6, que em 2013 ocupou o edifício do antigo Quartel dos Bombeiros Municipais e em 2016 recebeu o acervo da colecção de Fernando Figueiredo Ribeiro, colecção que integra mais de um milhar de obras de artistas portugueses das últimas décadas. Este equipamento compreende três espaços distintos. Os pisos 0 e 1, como área de exposições, e o piso-1 destinado a actividades diversas, como expressão plástica, workshops e promoção de pequenos eventos de carácter artístico, cultural e pedagógico. Além das obras da colecção Figueiredo Ribeiro, poderemos ver no espaço da Galeria QuARTel uma exposição temporária de Rui Algarvio, «Assomada», até dia 12 de Outubro. Acerca desta exposição diz-nos Andreia César que « o acto de assomar-se, na obra de Rui Algarvio, parte assim de uma síntese subjectiva de vários elementos, reconhecíveis segundo o género da paisagem, para repensar a pintura enquanto conceito e meio na contemporaneidade.

Exposição de Cerâmica «era talvez um sonho... (ser futuro)» de José António Silva na Galeria de Arte Imargem, em 2019 CréditosEugenio Paccelli /

Sugerimos também a visita à exposição «Ver de Fazer 23», que decorre em Almada na Oficina de Cultura7 até 6 de Outubro. «Ver de Fazer» é um projecto anual do Ateliê de Artes da Escola Secundária Anselmo de Andrade, desenvolve-se há 23 anos, começou por ser organizado no espaço-sede da Imargem e veio posteriormente a ser realizado no espaço municipal Oficina de Cultura. «Nesta mostra participam professores, ex-professores e ex-alunos que têm construído um percurso artístico manifesto, iniciado neste projecto de ateliê», contribuindo também deste modo para a dinamização artística local. No âmbito do projecto «Ver de Fazer» e no mesmo local da exposição está também programado um colóquio com o tema «O significado da arte» no dia 3 de Outubro, quinta-feira, às 21h, moderado por Luís Miranda e Rui Silvares. Ainda em Almada, poderá ser visitada a Exposição de Cerâmica "era talvez um sonho... (ser futuro)", de José António Silva, na Galeria de Arte Imargem8, até 1 de Outubro.

  • 1. Centro de Arte Oliva. Rua da Fundição, 240, 3700-119 S. João da Madeira. Horário: Terça-feira a domingo, das 10h30 às 18h; Últimas quintas-feiras de cada mês, das 20h às 22h, com excepção de Julho e Agosto.
  • 2. Associação Portuguesa de Arte Outsider.
  • 3. Texto de Paulo Mendes.
  • 4. Luís Ribeiro, texto na revista online Arte Capital.
  • 5. Ruth Rosengarten, Entre Memória e Documento: A viragem arquivística na arte contemporânea, 2012. Edição Museu Colecção Berardo, p. 20-21. Citações de Hall Foster, «An Archival Impulse”, October, vol.110 (Outono, 2004) p. 4-5.
  • 6. Galeria QuARTel, Largo de Sant’ana 2200-348 Abrantes. Horário: Terça-feira a Sábado, das 10h às 12h30 e das 14h30 às 19h. Encerra aos domingos, segundas e feriados.
  • 7. Oficina de Cultura – Avenida D. Nuno Álvares Pereira, 14 M, 2800-174 Almada. Horário: Quarta-feira a Domingo, das 14h às 19h e das 20h às 22h.
  • 8. Galeria de Arte Imargem – R. Torcato José Clavine, nº19 Piso 03, 2800-710 Almada. Horário: Segunda-feira, das 17h-20h; e Quarta-feira, das 9h30 às 13h e das 14h às 17h.

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