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Escola de Mulheres leva a palco «O Punho»

A estreia da peça de Bernardo Santareno, esta quinta-feira em Lisboa, concretiza a homenagem ao dramaturgo, nascido há cem anos, e honra «a vontade» da encenadora Fernanda Lapa.

«O Punho» de Bernardo Santareno, pela Escola de Mulheres
«O Punho» de Bernardo Santareno, pela Escola de Mulheres CréditosMário Cruz / Lusa

Foi nestes moldes que os actuais directores artísticos da Escola de Mulheres, Marta Lapa e Ruy Malheiro, definiram à Lusa o processo de pôr em palco a versão cénica concebida por Fernanda Lapa, para a peça O Punho, de Bernardo Santareno, «grande amigo» da actriz, encenadora, directora e fundadora da companhia, que morreu no passado dia 6 de Agosto, aos 77 anos.

Fernanda Lapa ultimou a versão cénica da derradeira obra do dramaturgo, durante o primeiro confinamento. E tinha por vontade que a estreia ocorresse no dia do centenário do nascimento do autor, 19 de Novembro. Para a companhia, era uma necessidade «honrar o pedido e a vontade expressa» da mulher que a fundou, há 25 anos.

O desejo de Fernanda Lapa era o de que esta encenação fosse «uma criação colectiva, com os actores a envolverem-se em tudo, desde o acting até às propostas de som e aos figurinos», referiu Marta Lapa.

A «amizade e cumplicidade» que se foi sedimentando entre a actriz e o dramaturgo tiveram início quando conheceu, na adolescência, o psiquiatra António Martinho do Rosário, nome verdadeiro de Santareno, depois de ter realizado «uns testes psicotécnicos que deram uns resultados esquisitos», contou a filha da encenadora.

À amizade com este «ser humano incrível» – como o caracterizou Fernanda Lapa a propósito do Dia Mundial do Teatro, quando coube à actriz ler a mensagem da Sociedade Portuguesa de Autores – não era alheia a ideologia de esquerda e a militância antifascista.

A Reforma Agrária e as mulheres

Escrita por Bernardo Santareno no ano da sua morte (1980), o texto de O Punho viria a ser publicado postumamente, sete anos mais tarde, em 1987.

Os actores construíram uma peça «não panfletária» que «nunca foi o objecto de trabalho da Fernanda», referiu Marta Lapa, mas que acaba por falar de «temas que pautaram o seu trabalho», que estiveram na base da fundação da Escola de Mulheres e que continuam actuais: questões sociais, políticas, de igualdade entre homens e mulheres.

Centrada na Reforma Agrária, a peça O Punho torna-se «absolutamente contemporânea pelas questões que levanta», e porque fala «de um período que historicamente foi branqueado», afirmou Marta Lapa.

«A Reforma Agrária é uma coisa linda que aconteceu no nosso país, e se falarmos com miúdos de 20 anos, poucos sabem o que é», disse. O motor central da acção é a luta de classes no contexto da Reforma Agrária no Alentejo. As duas personagens principais – a camponesa Maria do Sacramento e a latifundiária Mafalda são, simultaneamente, protagonistas e antagonistas.

Na versão cénica que construiu, Fernanda Lapa colocou uma personagem – o Narrador – que não consta da obra de Santareno e que tem um discurso político a favor da Reforma Agrária.

«É a [sua] tomada de posição perante a entrega deste texto e enquanto acto provocador», enfatizou Marta Lapa. «A zona de trabalho da Fernanda foi sempre levantar questões. Mais do que apresentar respostas», acrescentou.

Marta Lapa sublinha ainda a «contemporaneidade» da obra, numa altura em que «o fascismo está aí».

A música e a direcção de coro são de Janita Salomé, «convidado, por motivos óbvios, por Fernanda Lapa», disse a filha da encenadora.

O Punho vai estar em palco até 20 de Dezembro, com sessões de quarta-feira a sábado às 20h e, aos domingos, às 17h, no Clube Estefânia, na Rua Alexandre Braga, em Lisboa. Excepcionalmente, por causa das medidas restritivas, as sessões do próximo fim-de-semana realizar-se-ão na segunda e na terça-feira, dias 23 e 24 de Novembro, às 20h.

Com agência Lusa

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