|E o mundo é a nossa tarefa

E o mundo é a nossa tarefa #107

Esta semana o poema O desespero de Penélope deYannis Ritsos a obra  Tapeçaria  de Vieira da Silva. E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

Tapeçaria de Vieira da Silva
Tapeçaria de Vieira da SilvaCréditosVieira da Silva

O desespero de Penélope

Não é que o não tivesse reconhecido à luz da lareira;
não era pelos farrapos do mendigo,pelo disfarce,
— não; sinais evidentes:
a cicatriz no joelho, a força, a malícia no olhar.
Aterrada, encostando as costas à parede,
buscava uma justificação,
só mais um instante de adiamento, para não responder,
para não se trair.
Fora então por esse que havia gasto vinte anos,
vinte anos de espera e de sonhos,
por este miserável,
este homem coberto de sangue e de barba branca?
Atirou-se, sem fala, para cima de uma cadeira,
contemplou lentamente os pretendentes mortos,
jazentes no chão, como se contemplasse,
mortos, os seus próprios desejos.
E "Bem-vindo", disse-lhe,
ouvindo, estranha, longínqua, a própria voz.
A um canto o tear
enchia o tecto de sombras gradeadas;
e todos os pássaros que havia tecido
com fios vermelhos e brilhantes, poisados nos verdes ramos,
subitamente,
nesta noite do regresso, mudaram para cinzento e negro,
voando baixo no céu plano da sua derradeira paciência.

Yannis Ritsos

E o mundo é a nossa tarefa é uma escolha semanal de Manuel Augusto Araújo.

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