O filme resulta de uma pesquisa de arquivos – que inclui temas inéditos não editados – e recolha de testemunhos de pessoas que fizeram parte da vida de João Aguardela, o músico de Sitiados, Megafone e A Naifa, que morreu em 2009.
«Eu cresci a ouvir Sitiados, acompanhei os outros projetos do João e acho que devia mostrar quem é que foi. (…) Quando pensei neste filme tinha três objectivos: mostrar o trabalho de João Aguardela, celebrar a vida dele e que ele estivesse no documentário», afirmou Paulo Miguel Antunes à agência Lusa.
Segundo o realizador, que alimentava a ideia de fazer este filme há quase uma década, o mais importante para avançar com o projeto foi ter acesso aos arquivos de quem era próximo de Aguardela.
Para o documentário, que tem produção da Hot Chilli Films, de Diogo Varela Silva, o realizador pôde pesquisar material em vários arquivos, nomeadamente dos pais e de Sandra Baptista, acordeonista dos Sitiados e companheira do músico.
«A questão do arquivo era muito importante e a Sandra tinha muito arquivo que ajudou bastante a contar essa história», sublinhou o realizador, enumerando os cadernos de apontamentos, gravações áudio e vídeo, recortes de imprensa, fotografias e cartas.
No filme, Sandra Baptista diz que João Aguardela «era adicto» à música, alguém que começava o dia sempre a ouvir um álbum, que vivia para a música, que, num tempo de descoberta da Internet, fazia compilações e oferecia às pessoas.
«Eu sinto muita falta disso. Ele era o meu dealer da música, mostrava-me as músicas que eu gostava e que eu iria gostar», contou Sandra Baptista.
No filme aparecem músicos como Luís Varatojo, Jorge Buco, Mitó, Viviane, o jornalista Ricardo Alexandre e os radialistas Henrique Amaro e Nuno Calado, e são recuperadas várias imagens de telediscos, atuações ao vivo e momentos de estúdio.
São ainda relevantes os vídeos gravados por Sandra Baptista com João Aguardela, em testes e experiências de produção, assim como a inclusão de temas inéditos não editados, em que ambos trabalhavam com Rodrigo Dias e Samuel Palitos.
No filme entram três desses temas inéditos, em que os músicos «estavam em ensaios, só de instrumental. Quisemos aproveitar essas músicas para incluir no documentário», disse o realizador.
Feito o documentário, Paulo Miguel Antunes descreve João Aguardela como «uma pessoa incrível, um génio da música», que nunca chegou a conhecer.
«Tudo aquilo que ele fez há 20, 30 anos são coisas que estão agora a aparecer. Os Sitiados quando apareceram misturavam música tradicional com rock e punk, a introdução do acordeão e do adufe…», considerou o realizador.
João Aguardela, que morreu com 39 anos, a 18 de Janeiro de 2009, liderou vários projectos inovadores da música portuguesa e teve intervenção política e social, integrando desde 2007 a presidência do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC).
No documentário, o jornalista Ricardo Alexandre – que em 2011 escreveu uma biografia sobre Aguardela – diz que ele foi alguém que «se preocupava com a memória», recordando que é dele a frase «a música portuguesa a gostar dela própria».
João Aguardela foi distinguido em 1994 com o Prémio Revelação da Sociedade Portuguesa de Autores. Na busca das raízes e da tradição musical portuguesa criou o projeto Megafone e fez parte de A Naifa, juntamente com Mitó e Luís Varatojo.
Esta Vida de Marinheiro – título que remete para um dos maiores sucessos dos Sitiados – estreia-se no sábado no festival Doclisboa e repete exibição na terça-feira, dia 20.
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