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Das vanguardas às preocupações ecológicas

Lugar do Desenho-Fundação Júlio Resende. Albuquerque Mendes no Auditório Municipal de Gondomar. Diferentes abordagens ao rural, Alberto Carneiro na Diferença e na Galeria Quadrum.

Vista da exposição «No Chão do Paraíso», do artista Albuquerque Mendes. Na Sala Júlio Resende do Auditório Municipal de Gondomar, até 9 de Fevereiro de 2020
Vista da exposição «No Chão do Paraíso», do artista Albuquerque Mendes. Na Sala Júlio Resende do Auditório Municipal de Gondomar, até 9 de Fevereiro de 2020 CréditosAuditório Municipal de Gondomar

O Lugar do Desenho-Fundação Júlio Resende1, em Gondomar, tem um espólio de cerca de dois mil desenhos que o pintor Júlio Resende reuniu ao longo da sua carreira, tendo como objectivo a preservação e a divulgação deste importante acervo do artista, um dos principais representantes da nova geração de artistas portugueses dos anos quarenta. Segundo Rui Mário Gonçalves, foi o primeiro artista português a compreender uma tendência das artes na Europa para a recuperação de uma linguagem cubista, a que Resende acrescentou «o expressionismo de cores e das matérias»2. Em contraste com o país pouco desenvolvido, «em que Salazar utilizava a Censura e procurava cortar os contactos com o mundo», esta nova geração de artistas e críticos contribuiu para o «reconhecimento público do modernidade [...] arrancando do esquecimento a obra de Amadeo» e para o desenvolvimento das vanguardas do neo-realismo, do surrealismo e do abstraccionismo em Portugal.

No Lugar do Desenho estão agora a decorrer as exposições «Completa Serenidade», de Júlio Resende, e «Imagens Que Não Servem Para Ver», de David Lopes.

Exposição «Completa Serenidade», de Júlio Resende, na Sala do Acervo, no Lugar do Desenho-Fundação Júlio Resende, Gondomar, até 10 de Outubro de 2020 CréditosFundação Júlio Resende /

A Exposição de Júlio Resende, que decorre na Sala do Acervo, poderá ser visitada até 10 de Outubro e conta com uma série de aguarelas que o artista realizou ao longo da década de 80, durante as suas deslocações à cidade alemã de Korntal, na região de Estugarda. Como refere o texto de apresentação, «esta exposição apresenta essas aguarelas e alguns desenhos, datados de 1980 a 1989. Com ela celebram-se os 26 anos do Lugar do Desenho-Fundação Júlio Resende [...] aceitando a definição do artista, a exposição conduz-nos à sua experiência e à sua vivência in loco da floresta de Korntal».

Na Sala 3 Hiscox decorre, até 8 de Fevereiro, uma exposição de David Lopes em que o artista apresenta fotografias e objectos. As fotografias são «de estrelas capturadas à distância, borrões de luz em vácuo negro» e os objectos «contam pequenas narrativas sobre a exploração espacial moderna e o nascimento da astronomia como ciência», como refere o texto da exposição.

Em Gondomar, poderemos ainda visitar, na Sala Júlio Resende do Auditório Municipal de Gondomar3, a exposição «No Chão do Paraíso» do artista Albuquerque Mendes, até 9 de Fevereiro. Nesta exposição podemos observar obras de pintura e instalação, realizadas entre 2012 e 2019. Como refere o curador, o jornalista e pintor Agostinho Santos, «trata-se da primeira exposição em Gondomar do artista onde é desenvolvida a relação entre o céu e a terra, a terra como Chão do Paraíso».

O Auditório Municipal de Gondomar é um projecto do arquitecto Luís Miranda, foi inaugurado em 15 de Julho de 1991 e conheceu uma remodelação em 2015. Tem uma produção cultural que assenta em produções próprias, co-produções e acolhimentos nos seguintes domínios: musical, teatral, dança, artes plásticas e associativismo. Dos seus espaços destacamos a galeria de exposições, Sala Júlio Resende, que é composta por dois pisos com três salas.

Exposição «Imagens Que Não Servem Para Ver», de David Lopes, na Sala 3 Hiscox, no Lugar do Desenho-Fundação Júlio Resende, em Gondomar, até 8 de Fevereiro de 2020 CréditosFundação Júlio Resende /

Albuquerque Mendes (Trancoso, 1953), realiza a sua primeira performance/ritual nos anos setenta do século XX, participou em diversas actividades artísticas no Círculo de Artes Plásticas de Coimbra (CAPC) entre 1970 e 1975, no Grupo Puzzle (1976-1980) e nos Encontros Internacionais de Arte em Valadares, Viana do Castelo e Póvoa do Varzim. Em 1977 participa na exposição «Alternativa Zero-Tendências Polémicas da Arte Portuguesa Contemporânea» e funda com Gerardo Brumester a Associação de Arte Espaço Lusitano (1983-85). Albuquerque Mendes viria a aproximar-se cada vez mais da pintura. Em 1988 viaja até ao Brasil realizando aí diversas exposições de pintura e em 2001 apresenta a sua exposição antológica «Confesso», no Museu de Arte Contemporânea de Serralves (Porto).

Acerca da obra de Albuquerque Mendes, escreveu-se recentemente: «Tudo aqui se condensa numa oferenda pictural, em que o corpo de artista se confunde com o próprio corpo da obra, verso e reverso. Caras, fantasmas das passagens dos mundos em que tudo é possível e tudo deve ter uma resposta. A questão serve para resolver os enigmas dos equilibristas e dos malabaristas. O palco é o retrato. Afinal, é só uma cara pintada de branco com o pó das estrelas. A leveza afirma-se pelo sugestivo amargo da pintura no horizonte geométrico das grades. Na tela habitam essas lembranças, profanas».4

A Cooperativa Diferença5 em conjunto com as Galerias Municipais de Lisboa, apresenta um núcleo de exposição intitulado «Topografias Rurais», com curadoria de Tobi Maier, «a partir de analogias entre a obra de Alberto Carneiro (1937 –2017) e a de três artistas de gerações e contextos geográficos diferentes: Ana Lupas, Lala Meredith-Vula e Claire de Santa Coloma». O ponto de partida para estas exposições são as «notas de Alberto Carneiro para um Manifesto da Arte Ecológica que foram originalmente redigidas como entradas do seu diário, entre Dezembro de 1968 e Fevereiro de 1972. Um período temporal [...] muito antes de o termo «permacultura» ter sido cunhado ou de os efeitos das aceleradas alterações climáticas começarem a sentir-se. Numa altura em que testemunhamos uma crescente urbanização, os artistas procuram no meio rural uma fonte de inspiração».

Vista da exposição «Topografias Rurais», de Alberto Carneiro, na Galeria Diferença, em Lisboa, até 8 de Fevereiro de 2020 Créditos

Em duas das passagens das notas de Alberto Carneiro, podemos ler: «A arte faz-se para transformar as imagens do quotidiano» e «É evidente que nós não afirmaremos que uma árvore é uma (obra de arte). Nós apenas diremos que podemos tomá-la e transformá-la em (obra de arte)». «Durante cinco anos, Alberto Carneiro mudou a face da arte portuguesa com a criação de três instalações que efectuavam uma ligação entre uma poética rural e a sua versão corporalizada do universo conceptual a que se vinha a aproximar desde a sua permanência em Londres durante o final da década de 1970»6, escreveu Delfim Sardo. São essas instalações O Canavial: Memória-Metamorfose de um corpo ausente (1968), Uma Floresta para os Teus Sonhos (1970) e Um Campo Depois da Colheita para Deleite Estético do Nosso Corpo (1973-1976).

Uma das secções deste núcleo de exposições pode ser visitada até 8 de Fevereiro na Galeria Diferença7, onde Alberto Carneiro, além de ser um dos fundadores, também realizou diversas exposições. Podemos ver desenhos de paisagem a grafite, desenhos realizados pelo esmagamento sobre papel de pétalas de flores do seu jardim e duas esculturas em madeira de buxo. Documentação diversa, outras obras de Alberto Carneiro, assim como os trabalhos de Claire de Santa Coloma, Ana Lupas e as fotografias de Lala Meredith-Vula pertencentes à série «Haystacks» podem ser vistas na Galeria Quadrum/Galerias Municipais8 até 23 de Fevereiro 2020.

No texto de apresentação refere-se que em conjunto, estas duas exposições, «criam uma rede de diferentes abordagens ao rural, ao mesmo tempo que chamam a atenção para preocupações ecológicas» e que as obras «constituem poderosos significantes num discurso global sobre o regionalismo, constituindo, igualmente, um apelo (poético) à acção no âmbito do nosso ambiente natural».

  • 1. Lugar do Desenho-Fundação Júlio Resende, Rua Pintor Júlio Resende n.º 105, Valbom, 4420-534 Gondomar. Horário: segunda a sexta, das 9h30 às 12h30 e das 14h30 às 18h30; sábado, das 14h30 às 17h30.
  • 2. Rui Mário Gonçalves, A Arte Portuguesa do Século XX, Círculo de Leitores, 1998, p. 66 e 67.
  • 3. Auditório Municipal De Gondomar, Av. 25 de Abril 103, 4420-356 Gondomar. Horário: terça a quinta-feira das 10h às 13h e das 14h às 18h30; sexta-feira e sábado das 10h às 13horas, das 14h às 19h e das 20h às 24h.
  • 4. Excerto do texto da exposição «Jugglers-Problemas e Insolvência» de Albuquerque Mendes, Galeria Graça Brandão, 2017.
  • 5. Cooperativa Diferença é uma cooperativa de artistas que iniciou a sua atividade em 1979, um projecto artístico de referência nacional e já apresentado nestes artigos, em «Ernesto de Sousa e Túlia Saldanha na Galeria Diferença».
  • 6. Excerto do texto de Delfim Sardo para a exposição de Aberto Carneiro «Um Campo Depois da Colheita para Deleite Estético do Nosso Corpo», Culturgest, entre 23 Julho e 1 de Outubro de 2017. O texto integral pode ser consultado aqui.
  • 7. Galeria Diferença, Rua São Filipe Neri, 42 c/v 1250-227 Lisboa. Horário: terça a sexta-feira das 14h às 19h; sábados das 15h às 20h.
  • 8. Galeria Quadrum, Rua Alberto Oliveira, Complexo dos Coruchéus, Lisboa. Horário: terça a sexta-feira, das 14h30 às 19h; ao sábado e domingo das 10h às 13h e das 14h às 18h.

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